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História

Quem foi Câmara Cascudo e por que ele é tão importante para o folclore brasileiro?

Da carta sobre o Boi ao Dicionário do Folclore, a trajetória de Câmara Cascudo, as vozes que registrou, sua atuação integralista e as perguntas que seus livros ainda provocam.

Por Eduardo · Publicado em · 28 min de leitura

Em julho de 1929, uma carta saiu de Natal rumo a São Paulo. Nela, Luís da Câmara Cascudo contava a Mário de Andrade o que sabia sobre um antigo romance cantado no Boi. A carta não ficou apenas na gaveta do destinatário: acabou entre os papéis de pesquisa de Mário sobre música brasileira. É uma boa porta de entrada para esta história. Antes de virar livro, o conhecimento que os dois procuravam circulava na voz e no trabalho de outras pessoas.

Câmara Cascudo ajudou a fazer o país prestar atenção às histórias, palavras, comidas, festas e cantorias que uma parte da cultura letrada tratava como curiosidade menor. Reuniu material em uma escala impressionante e deixou obras que ainda orientam pesquisas. Também escolheu o que registrar, como explicar as origens das práticas e a quem dar destaque. Essas escolhas carregavam as ideias do seu tempo e as posições que ele próprio assumiu. Para entender por que é importante, precisamos olhar para as duas coisas.

Quem foi Câmara Cascudo?

Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal em 30 de dezembro de 1898 e morreu na mesma cidade em 30 de julho de 1986. Começou a escrever no jornal A Imprensa, dirigido pelo pai. Tentou cursar Medicina e depois se formou em Direito no Recife, em 1928. Foi professor, cronista, biógrafo e pesquisador. Sua casa em Natal, onde viveu por décadas, hoje abriga o Instituto Câmara Cascudo, o Ludovicus, dedicado ao seu acervo.

Essa biografia tem um endereço e uma posição social. Cascudo veio de uma família tradicional, circulou entre políticos, escritores e instituições culturais e tinha os meios para transformar notas, conversas e livros em publicações de alcance nacional. Ao mesmo tempo, prestou atenção ao pescador, à cozinheira, ao vaqueiro, ao repentista e às palavras que ouvia fora da academia. A Biblioteca Nacional Digital apresenta justamente essa circulação entre mundos sociais como uma chave para ler sua obra.

Ele não foi o primeiro a reunir tradições brasileiras. Registros anteriores de cantos, narrativas e crenças já existiam, e nenhum livro marca o começo de uma história que as comunidades contavam muito antes. Sua importância está na extensão das pesquisas, na variedade dos assuntos e no fato de ter tornado esses materiais referência constante para leitores, escolas e pesquisadores.

Capa vermelha do primeiro volume de Cantos populares do Brazil, publicado em 1883.
Cantos populares do Brazil, de Sílvio Romero, 1883: um exemplo de livro anterior ao trabalho de Cascudo. Imagem da BBM-USP via Wikimedia Commons, domínio público.

Natal, os jornais e a formação de um pesquisador

Antes de ser identificado como folclorista, Cascudo era um jovem ligado à imprensa. A socióloga Vânia de Vasconcelos Gico, em perfil publicado pela Sociedade Brasileira de Sociologia, situa seu primeiro artigo de jornal em 18 de outubro de 1918, em A Imprensa. Vieram a coluna Bric-à-Brac nesse jornal e a Acta Diurna em A República e no Diário de Natal. A coluna cotidiana treinava um olhar para o que a cidade falava e permitia voltar a um assunto muitas vezes. Parte dos livros cresceu dessa prática de recolher e ligar notas.

Na infância, uma estadia no interior do Rio Grande do Norte durante a recuperação de uma doença se tornou, nos relatos posteriores de Cascudo, uma cena fundadora do seu interesse pelo sertão. Pesquisadores chamam atenção para um cuidado: a memória de infância é fonte sobre o que ele viveu e sobre o modo como, adulto, escolheu se apresentar. O vaqueiro e a paisagem que ele recordava não ficaram suspensos no tempo; envelheceram, trabalharam, negociaram e mudaram com o país.

Depois de abandonar Medicina, completou o curso de Direito em Recife. Lecionou história em escolas de Natal, ocupou funções públicas e ensinou na universidade. Suas redes de amigos incluíam pessoas com acesso a editoras, bibliotecas e cargos políticos. Essa posição explica parte da força de circulação da obra. Não diminui a dedicação à pesquisa; ajuda a perguntar por que outros conhecedores de histórias, igualmente capazes de contar e interpretar, raramente tiveram um jornal, uma editora ou uma cátedra à disposição.

O homem que escreveu sobre o interior também se fez em Natal. História da Cidade do Natal, de 1947, pertence a outra vertente do trabalho: a história local. Gico ressalta que Cascudo cruzava folclore, história e memória em vez de caber em uma única profissão. Em 30 de abril de 1941, participou com Hélio Galvão, Oswaldo Lamartine, Deífilo Gurgel, Veríssimo de Melo e outros estudiosos da fundação da Sociedade Brasileira de Folclore. O Museu Câmara Cascudo da UFRN descreve a rede que a Sociedade formou a partir de Natal. Publicar, ensinar, criar uma associação e trocar cartas eram formas de fazer um assunto chegar a muita gente.

Outro documento amplia esse retrato: um texto de Cascudo sobre a Universidade Popular do Rio Grande do Norte, republicado pela UFRN, relata uma programação de 1948 com 21 aulas públicas, da música ao combate à malária. “Popular” ali nomeava uma iniciativa de ensino aberta; não apaga sua origem social ou sua atuação política anterior. Mostra que uma biografia inteira não cabe numa única foto nem numa etiqueta.

ANTES DO DICIONÁRIO · 1921

O artigo “O aboiador”

Cascudo publicou “O aboiador” na Revista do Brasil, ano 6, volume 17, número 67, páginas 296–298, em julho de 1921. O registro bibliográfico aparece na pesquisa recente sobre Fabião das Queimadas. Isso mostra que o interesse por cantos de trabalho antecede seu encontro com Mário de Andrade e as obras mais conhecidas.

Ver a referência e a pesquisa na revista da UNIRIO ↗

O que ele chamava de folclore?

Para quem ouve a palavra e pensa apenas em personagens de livro infantil, o campo de Cascudo pode surpreender. Um aboio — canto usado no trato com o gado —, uma receita, uma adivinha, um jeito de fazer rede, uma história de assombração e o vocabulário de uma feira cabiam nas suas perguntas. A cultura popular não se resumia a um elenco de criaturas fantásticas.

Folclore é um nome histórico para práticas, conhecimentos e narrativas compartilhados e transformados em comunidade. Não significa que todos os brasileiros contem a mesma versão, que um costume esteja parado no passado ou que uma pessoa de fora possa falar por quem o mantém vivo. Essa diferença importa: um pesquisador pode transcrever uma cantiga; quem a canta conhece a ocasião, o ritmo, a disputa e a vida que a fizeram necessária.

Quando Cascudo anotava uma palavra do sertão ou comparava versões de uma narrativa, ampliava a documentação disponível. Quando tratava diferenças como peças de uma unidade nacional pacificada, podia diminuir conflitos e apagar a história de quem produzia aquele conhecimento. A própria Biblioteca Nacional observa em sua apresentação do autor o peso de uma interpretação colonial e católica e de narrativas de conciliação entre grupos sociais.

Como ele pesquisava — e o que a pesquisa não mostra

Cascudo trabalhava com uma combinação pouco simples: leitura de livros antigos, recortes de jornal, fichas, visitas, lembranças pessoais, conversas e cartas em que perguntava a conhecidos sobre determinado costume. Gico chama essa rede de “correspondência perguntadeira”. Seus livros não saíram apenas de uma viagem ao sertão nem apenas de uma biblioteca. Em assuntos diferentes, o peso de cada tipo de evidência também mudava.

Ele dizia não seguir um método único. Isso lhe dava liberdade para aproximar uma cantiga ouvida em Natal de uma narrativa impressa do outro lado do Atlântico. Mas também torna trabalhos mais difíceis de verificar quando faltam data da conversa, contexto da apresentação, nome completo de quem contou ou explicação de como a versão foi transcrita. Os pesquisadores Vanderlan Silva e Valdeci Feliciano Gomes observam que, em diversas passagens, o leitor não vê as condições da entrevista nem a relação social entre o pesquisador e seus interlocutores.

Uma comparação ajuda: se alguém escreve hoje “essa festa acontece assim” sem dizer em qual bairro, em qual ano e com qual grupo falou, o registro ainda pode ser uma pista valiosa. Mas ninguém deveria usá-lo para dizer que todas as festas são iguais. O problema não é haver memória e interpretação; é escondê-las atrás de uma aparência de descrição definitiva.

Bibi, Benvenuta e o arquivo que tinha gente dentro

Luísa Freire, conhecida como Bibi, era uma narradora a quem Cascudo recorria. Histórias contadas por ela apareceram em As trinta estórias brasileiras, Contos tradicionais do Brasil, Vaqueiros e cantadores e Geografia dos Mitos Brasileiros, segundo a análise de Silva e Gomes. O pesquisador a admirava, mas a descreveu com palavras que também registram a desigualdade social e escolar da relação. Podemos celebrar o conhecimento de Bibi sem repetir a ideia de que só o livro de um intelectual o transforma em cultura.

Os mesmos pesquisadores identificam entre as fontes familiares o pai, Francisco Cascudo, a mãe, Ana da Câmara Cascudo, a esposa, Dáhlia Freire Cascudo, e Benvenuta de Araújo, sua ama. A lista obriga uma pergunta que vai além da biografia: quando uma pessoa que trabalha dentro da casa transmite histórias, seu saber recebe o mesmo tratamento dado às lembranças dos parentes? Nomeá-la é um primeiro passo. Saber em quais condições viveu, o que contava e como foi citada pede pesquisa adicional que não inventaremos aqui.

Esse cuidado vale para o uso da palavra “informante”, frequente em pesquisas antigas. O termo explica uma relação de coleta; não descreve a criatividade de uma pessoa. Bibi foi narradora; Fabião foi músico e cantador; mestres religiosos e cozinheiras também interpretavam seus mundos. Não eram gavetas à espera de um colecionador.

Uma carta, um Boi, duas cidades

A carta de 5 de julho de 1929 é concreta: Cascudo partilhou com Mário de Andrade informações sobre um romance cantado no Boi. O pesquisador Marcos Antonio de Moraes, do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, identificou a carta entre os materiais que Mário reunia para Na pancada do Ganzá. Não é uma prova de que um deles “descobriu” a cultura do outro. Mostra uma rede de trabalho que ligava Natal e São Paulo enquanto a festa continuava pertencendo a seus praticantes.

NO ARQUIVO · 5 DE JULHO DE 1929

Correspondência sobre o Boi

O artigo de Marcos Antonio de Moraes identifica o percurso da carta e sua relação com a pesquisa de Mário. A consulta indicada é ao estudo do documento, não a um fac-símile que o Sacip não disponibiliza.

Ler a identificação no IEB/USP ↗
Retrato fotográfico de Mário de Andrade em 1928.
Mário de Andrade em 1928, interlocutor de Cascudo por correspondência. Foto: Michelle Rizzo / Wikimedia Commons, domínio público. O retrato não ilustra a carta específica de 1929.

As cartas também deixam ver discordâncias. Em 1937, Mário insistiu que Cascudo se dedicasse mais à pesquisa folclórica e a um método de investigação. Cascudo preferia reunir indícios de diferentes tipos, sem se prender a um método único. A historiadora Mariana Corção reconstrói esse debate a partir da correspondência. A parceria, portanto, não foi uma relação simples de mestre e discípulo; envolveu trabalho, amizade, cobrança e diferenças intelectuais.

O livro Câmara Cascudo e Mário de Andrade: cartas, 1924–1944, organizado por Marcos Antonio de Moraes e catalogado pela Biblioteca Nacional, reúne a troca publicada. A edição saiu em 2010. Convém distinguir as datas das cartas da data em que o público ganhou essa seleção impressa: uma correspondência pode sobreviver dispersa por décadas antes de ser organizada.

Quatro portas de entrada para a obra

1939

Vaqueiros e cantadores

Reúne atenção ao universo sertanejo, à poesia oral e à cantoria. É um ponto de partida para conhecer registros, mas também para perguntar de quem são as vozes recolhidas.

1946–1947

Contos tradicionais do Brasil e Geografia dos Mitos Brasileiros

Levam o leitor a narrativas e personagens de regiões diferentes. Títulos e classificações ajudam a localizar materiais; não substituem as versões contadas nas comunidades.

1954

Dicionário do Folclore Brasileiro

Organiza verbetes sobre festas, seres, costumes, alimentos, expressões e pessoas. Sua primeira edição, registrada pelo Museu do Ouro, saiu no Rio de Janeiro pelo Instituto Nacional do Livro, com 660 páginas.

1967–1968

História da Alimentação no Brasil

Em dois volumes, trata da comida como história social. Serve para investigar técnicas e hábitos, desde que lido ao lado de pesquisas atuais e da experiência de quem cozinha e cultiva.

As datas e os títulos foram cotejados com a Biblioteca Nacional Digital e, no caso do Dicionário, com a ficha da primeira edição no Museu do Ouro. Uma ficha de acervo comprova a existência e os dados editoriais do exemplar; não equivale a uma leitura integral de seus verbetes.

Há mais do que quatro portas. Jangada investiga embarcações e a vida de quem trabalha no mar; Rede de dormir olha para um objeto cotidiano e sua história; Meleagro, de 1951, se ocupa do catimbó; Civilização e Cultura, de 1973, reúne reflexões de etnografia. Cascudo também escreveu sobre gestos, locuções, história de Natal e sua própria memória. Essa dispersão é a razão para evitar uma contagem fácil de “tantos livros”: inventários somam livros, separatas, opúsculos, artigos e reedições de modos diferentes.

Contos tradicionais do Brasil teve na edição original cerca de uma centena de narrativas, com comentários que relacionavam versões de lugares distintos, segundo uma tese da USP sobre sua tradução para o nheengatu. O exemplo mostra duas vidas para o livro: um catálogo de histórias montado nos anos 1940 e uma discussão contemporânea sobre o que acontece quando essas narrativas dialogam com uma língua indígena viva. A segunda não deve ser tratada como simples confirmação da primeira.

ACERVO · 1954

A primeira edição do Dicionário

O Museu do Ouro registra autor, editora, cidade, ano e extensão: Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1954, 660 páginas. É um registro bibliográfico, não uma reprodução digital do livro.

Consultar a ficha do museu ↗

E o Saci, o Curupira e os outros personagens?

O valor de um dicionário está em oferecer pistas: grafias, lugares, aproximações entre narrativas, referências que o leitor pode perseguir. Imagine pesquisar “Saci” e encontrar uma descrição como se fosse a versão definitiva do personagem. A pergunta seguinte deveria ser: quem contou essa versão, onde, quando, e quem ficou de fora? Esta matéria não reproduz trechos dos verbetes sem conferir o texto da edição correspondente.

O Saci passou por jornais, relatos orais, livros e desenhos, mudando de grafia e de atributos. Em Saci, Sacy e outras grafias, o Sacip acompanha documentos de épocas diferentes. No dossiê sobre o Saci nos jornais antes de Lobato, as datas ajudam a evitar o erro de atribuir a criação do personagem a um único escritor. O Curupira também aparece em registros anteriores aos livros infantis. Cascudo é uma etapa importante nessa circulação; não seu ponto de origem nem sua última palavra.

É assim que seus livros rendem mais: como caminhos para outras fontes, não como carimbo que encerra a conversa. Uma criança pode sair de um verbete com uma pergunta para os avós; um pesquisador pode buscar a edição antiga; uma comunidade pode responder que a forma como vive aquela história não cabe na classificação impressa.

O nome que não pode desaparecer: Fabião das Queimadas

Fabião das Queimadas, rabequeiro negro que viveu entre 1848 e 1928, cantou narrativas que chegaram às páginas de Vaqueiros e cantadores. Quem encontra o romance do Boi da Mão de Pau associado ao livro de 1939 precisa lembrar que o autor do volume e o criador e intérprete da cantoria ocupavam lugares diferentes. A página preserva parte do repertório; a voz, o timbre, a rabeca e as condições de vida de Fabião não passam inteiros para o papel.

O nome de Fabião já aparecia antes do livro: Padilha registra um artigo de Cascudo intitulado “Fabião das Queimadas”, publicado em A República, de Natal, em 2 de agosto de 1928. Isso impede uma crítica apressada. Cascudo não deixou simplesmente de citá-lo. A questão é o que a escrita conseguiu transmitir da autoria de um cantador negro e do som que produzia — e o que foi reorganizado para caber nas categorias de um livro de folclore.

JORNAL CITADO EM PESQUISA · 1928

Fabião das Queimadas em A República

O estudo de Caio Vitor Gonzaga Padilha referencia o artigo de Cascudo nas páginas 1–2 da edição de 2 de agosto de 1928. Consultamos a referência publicada pelo pesquisador; não apresentamos aqui uma imagem da página original.

Ver o estudo e sua bibliografia na UNIRIO ↗

O antropólogo e rabequeiro Caio Vitor Gonzaga Padilha estudou justamente o que as transcrições e classificações deixaram menos audível. Sua pesquisa relaciona a autoria vocal de Fabião a uma trajetória de busca pela liberdade no século XIX. Ao ler Cascudo hoje, esse trabalho nos obriga a trocar a expressão vaga “o povo cantava” por perguntas com nome e história: quem cantava, para quem, em que condição e com que direito de ser reconhecido?

A crítica não apaga o fato de que Cascudo guardou vestígios importantes. Ela impede que o prestígio do livro cubra o trabalho de quem criou a cultura que o livro tornou conhecida.

Leia a pesquisa de Caio Vitor Gonzaga Padilha sobre Fabião e os regimes de escuta ↗

Quando o objeto de estudo era uma religião perseguida

Em Meleagro, Cascudo registrou práticas relacionadas ao catimbó, religião e conjunto de práticas espirituais presentes no Nordeste, com diferenças internas que não cabem num rótulo único. Participou de cerimônias e ouviu mestres como Carlos e João Juvenal da Costa Lima, o Mestre Zinho, conforme o estudo de Silva e Gomes. São nomes que merecem estar ao lado do nome do autor do livro.

Existe uma dificuldade maior. Parte dos dados usados nessa pesquisa veio de relações com a polícia do Rio Grande do Norte, que reprimia praticantes de catimbó. Um objeto apreendido pela polícia pode contar algo sobre uma cerimônia, mas primeiro conta que houve intervenção e violência do Estado. Se um pesquisador o usa sem explicitar essa origem e sem ouvir de modo suficiente os religiosos, o leitor pode herdar o ponto de vista da repressão como se fosse descrição neutra da fé.

Esse caso ajuda a entender por que nossa crítica não se resume a perguntar se Cascudo “gostava” da cultura popular. Pesquisar uma prática e defender o direito de seus praticantes a existir em segurança são atos diferentes. Hoje, quando o Sacip fala de tradições, queremos deixar visíveis tanto o conhecimento quanto os riscos enfrentados por quem o produziu.

A comida, a África e o problema de uma história harmoniosa

Para preparar História da Alimentação no Brasil, Cascudo viajou a Portugal e à África. O acervo do Ludovicus registra uma viagem à África em 1963 e objetos adquiridos no Congo, em Angola, Moçambique e Guiné. A pesquisa ampliou seu material; não tornou suas conclusões imunes ao contexto colonial em que circulava. Portugal mantinha então domínio colonial sobre territórios africanos e uma guerra de libertação já estava em curso em Angola.

A historiadora Mariana Corção investigou como experiências de viagem e preferências do próprio autor entraram na narrativa dos dois volumes. Em estudo mais recente, Walber Oliveira analisa escritos e entrevistas de Cascudo para mostrar como uma imagem de Portugal como “civilizador” moldou sua apresentação da África. São interpretações de pesquisas identificadas, úteis para ler a obra sem transformar as cozinhas indígenas, africanas e portuguesas em três ingredientes que, por si só, formariam uma mesa sem escravização, desigualdade ou conflito.

Há pessoas identificáveis por trás da pesquisa culinária. Em sua tese sobre História da Alimentação no Brasil, Corção localiza nas referências do livro Silvana, uma mulher que havia sido escravizada; Nicácia Maria da Conceição, cozinheira na casa da família Cascudo; e Isabel César de Lima, que ditou pratos à esposa do escritor em agosto de 1963. São trajetórias diferentes, e não sabemos tudo sobre elas. Sabemos o suficiente para recusar a impressão de que o conhecimento sobre comida surgiu sozinho na mesa de um pesquisador. A tese observa ainda que Cascudo menciona os pratos transmitidos por Isabel sem identificá-los um a um.

O tema continua próximo de qualquer leitor: quando se diz que uma receita é “tradição brasileira”, quem plantou a mandioca? Quem controlava a terra? Quem foi obrigado a cozinhar? Quem podia comer? E quais mudanças as cozinheiras e os cozinheiros fizeram por iniciativa própria? Cascudo deixou pistas sobre alimentos e práticas. Fazer essas perguntas à sua fonte é ampliar a história, não proibir a leitura.

A política que costuma sumir das homenagens

Nos anos 1930, Cascudo se filiou à Ação Integralista Brasileira e se tornou chefe regional do movimento no Rio Grande do Norte. Colaborou com a imprensa integralista. A pesquisa histórica não permite tratar essa participação como boato nem como nota de rodapé. A AIB defendia um projeto autoritário e ultranacionalista; historiadores a estudam como expressão brasileira do fascismo. É importante registrar também uma precisão: Cascudo colaborou com A Offensiva, mas não foi diretor do jornal, como uma obra recente afirmou incorretamente.

A historiadora Mariana Corção localizou na trajetória do escritor sinais desse entusiasmo, inclusive crônicas de uma viagem ao sertão em 1934 e uma carta enviada a Mário de Andrade em 4 de maio de 1935, saudada com “Anauê”, expressão dos integralistas. Ela registra que, durante a Segunda Guerra, ele passou a apoiar os Aliados e depois silenciou sobre sua antiga filiação. Isso não autoriza uma tese fácil de que cada verbete seja propaganda política; tampouco absolve a escolha feita. O que ela exige é que a obra seja examinada, especialmente quando fala de nação, raça, hierarquia e conciliação social.

Há também uma crítica específica à maneira como Vaqueiros e cantadores narrou as origens da cantoria sertaneja. Salatiel Ribeiro Gomes examina como Cascudo aproximava os cantadores de uma linhagem europeia medieval e diminuía a contribuição africana nessa interpretação, mesmo tratando de uma prática atravessada por artistas negros. A Biblioteca Nacional observa, por sua vez, que a moldura colonial e católica de Cascudo frequentemente apazigua conflitos entre estratos sociais. São análises de pesquisadores, não adjetivos lançados sem exame.

Fabião apareceu com nome no jornal. Nicácia trabalhou na casa do escritor. Isabel transmitiu receitas. Religiosos do catimbó viram sua prática estudada num ambiente em que a polícia os perseguia. Não são casos idênticos; reuni-los mostra, porém, a distância entre ter uma experiência registrada e poder decidir como ela será contada. É nessa distância que a política entra na página, mesmo quando o assunto parece ser só uma cantiga ou um prato.

O Sacip não quer uma história da cultura popular em que o intelectual tem biografia e o trabalhador vira cenário. O livro de Cascudo merece ser lido; a cantoria de Fabião merece ser reconhecida como criação, o conhecimento de Nicácia e Isabel precisa aparecer com seus nomes, e a fé dos mestres de catimbó não pode ser vista pelos olhos de quem a reprimia. Defender essa cultura implica defender as pessoas que a fazem, o direito de praticá-la sem perseguição e condições de vida para continuar transmitindo-a. Uma história nacional que exige silêncio sobre racismo, exploração do trabalho ou autoritarismo não serve a essas pessoas.

PESQUISA HISTÓRICA · ANOS 1930

O que comprova a participação política

A tese de Mariana Corção examina correspondência, crônicas e livros; a pesquisa de Luiz Gonzaga Cortez reúne referências à imprensa integralista. O estudo de Gabriela Santi Pacheco esclarece o papel regional de Cascudo e corrige a atribuição de direção de A Offensiva.

Linha do tempo: das primeiras notas ao acervo

  1. Nasce em Natal, Rio Grande do Norte.
  2. Publica um artigo em A Imprensa, jornal de seu pai, e desenvolve o ofício de cronista.
  3. Publica “O aboiador” na Revista do Brasil, evidência de interesse precoce pela cantoria.
  4. Estuda Direito no Recife; a correspondência com Mário de Andrade se desenvolve nesse período.
  5. Publica em A República um artigo dedicado a Fabião das Queimadas, segundo referência recuperada por Padilha.
  6. Envia a Mário uma carta sobre um romance cantado no Boi, hoje estudada pelo IEB/USP.
  7. Atua na Ação Integralista Brasileira no Rio Grande do Norte.
  8. Publica Vaqueiros e cantadores.
  9. Participa da fundação da Sociedade Brasileira de Folclore em Natal.
  10. Publica Contos tradicionais do Brasil e Geografia dos Mitos Brasileiros.
  11. Registra uma programação de 21 aulas públicas da Universidade Popular do Rio Grande do Norte.
  12. Publica Meleagro, estudo sobre o catimbó.
  13. Sai a primeira edição do Dicionário do Folclore Brasileiro.
  14. Publica pesquisas sobre a jangada e a rede de dormir, objetos e trabalhos do cotidiano.
  15. Viaja à África durante a pesquisa que alimentaria sua história da alimentação.
  16. Publica os dois volumes de História da Alimentação no Brasil.
  17. Morre em Natal; livros, correspondência e acervo continuam a ser pesquisados.

A cronologia reúne datas verificáveis das fontes abaixo. Ela não sugere que as manifestações registradas tenham começado ou terminado com o pesquisador.

O que ficou disponível para pesquisar — e o que ainda falta

O Ludovicus funciona na casa onde Cascudo viveu por cerca de quarenta anos. O instituto guarda biblioteca, documentos e dez coleções museológicas, segundo sua própria apresentação. Ali há objetos reunidos em viagens, arte popular, peças de etnografia africana e indígena, fotografias e mobiliário. A existência de um acervo não significa que todas as peças tenham a mesma procedência ou que todos os saberes ali representados possam ser explicados apenas pelo colecionador.

Em Natal também existe o Museu Câmara Cascudo da UFRN, vinculado à universidade. Ele não é a mesma instituição que o Ludovicus, instalado na antiga residência. Cascudo dirigiu o Instituto de Antropologia que antecedeu o museu universitário, aposentou-se em 1966 e recebeu o título de professor emérito no ano seguinte, conforme a UFRN. Distinguir os acervos ajuda quem quiser visitar, consultar ou pedir acesso a um documento específico.

Os livros continuam recebendo edições, análises e contestações. Uma parte da pesquisa atual corrige dados, outra lê as relações sociais por trás das páginas, outra experimenta traduções e novos encontros. O trabalho com Fabião das Queimadas e Bibi indica um caminho: buscar as pessoas que aparecem no rodapé, no início do relato ou por trás de uma descrição anônima. Também seria importante localizar, com consulta aos acervos e às comunidades, cadernos, datas de entrevista e versões que não chegaram à impressão.

Há limites materiais nesta reportagem. A primeira edição do Dicionário foi confirmada em ficha de museu, mas não examinamos seus verbetes numa cópia integral acessível. A carta de 1929 foi tratada a partir do estudo do IEB/USP. Referências a jornais antigos foram cotejadas com pesquisas publicadas; a Hemeroteca Digital não respondeu à consulta desta edição. Dizer isso é parte do trabalho: uma matéria documental fica mais forte quando o leitor sabe exatamente onde termina o documento visto e começa a mediação de outro pesquisador.

Cascudo em vídeo: escute o próprio pesquisador

Em 1978, o programa Memória Viva, da TV Universitária do Rio Grande do Norte, entrevistou Câmara Cascudo. É uma oportunidade rara de ouvir sua maneira de contar a própria trajetória, em vez de conhecer apenas descrições feitas depois de sua morte. Como toda entrevista, também é uma escolha do entrevistado sobre o que lembrar, destacar ou calar. Vale assisti-la ao lado das cartas, dos livros e das pesquisas críticas citadas acima.

Memória Viva, entrevista exibida em 12 de agosto de 1978. Produção: TV Universitária/UFRN. Assistir diretamente no YouTube se o vídeo não carregar ↗. O vídeo pertence à emissora; a incorporação não transfere seus direitos ao Sacip.

Quem quiser aprofundar a história institucional pode acompanhar ainda a conversa “Ciência do povo, saber popular”, promovida pelo Museu Câmara Cascudo da UFRN e pelo Ludovicus sobre a Sociedade Brasileira de Folclore. Ela serve como complemento de pesquisa, com outra época e outros participantes.

Como ler Cascudo hoje, sem monumento nem descarte?

Abra o livro com duas mãos: uma para localizar o que ele preservou; outra para segurá-lo diante de fontes e pessoas que não couberam na página. Procure o ano da edição, a região mencionada, a pessoa que contou ou cantou, e se o texto apresenta uma hipótese como se fosse certeza. Compare com documentos mais antigos e com pesquisas feitas por comunidades, artistas e estudiosos contemporâneos.

Na alimentação, por exemplo, não basta localizar um ingrediente indígena ou africano e concluir que as cozinhas se fundiram sem violência. É preciso perguntar quem plantou, quem cozinhou, quem serviu, quem comeu e quem recebeu crédito. A historiadora Mariana Corção mostra como experiências, preferências e viagens do próprio autor orientaram seu modo de contar a história alimentar. O mesmo cuidado vale para cantorias, festas e lendas.

Se a pergunta é “por que Câmara Cascudo é tão importante?”, a resposta é que ele abriu caminhos de pesquisa e deixou um arquivo de enorme alcance. Se a pergunta é “o que fazer com isso?”, nossa resposta é mais exigente: usar o arquivo sem entregar a ele a voz final. As histórias permanecem nas mãos de quem as cria, transmite, disputa e transforma. Para seguir a discussão, leia quem decide o que vira patrimônio cultural e o que a cultura popular tem a ver com território e trabalho.

Fontes e como foram usadas

Acervos, documento e bibliografia:

Pesquisas para ampliar e confrontar:

A Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional não respondeu à consulta realizada para esta edição. Por isso, nenhum fac-símile de jornal foi apresentado como se tivéssemos examinado diretamente a página original; datas de periódicos citadas aqui são atribuídas às pesquisas identificadas.

RESPOSTAS DIRETAS

Perguntas frequentes

Câmara Cascudo inventou o Saci?

Não. As histórias do Saci circulavam antes de suas pesquisas e aparecem em registros mais antigos. Cascudo ajudou a reuni-las e interpretá-las, mas nenhuma obra individual é a origem de uma tradição coletiva.

Qual é o livro mais conhecido de Câmara Cascudo?

O Dicionário do Folclore Brasileiro, lançado em 1954, é sua obra de consulta mais conhecida. Vaqueiros e cantadores (1939) e História da Alimentação no Brasil (1967–1968) também são referências importantes.

Câmara Cascudo era integralista?

Sim. Participou da Ação Integralista Brasileira e foi chefe regional no Rio Grande do Norte nos anos 1930. A participação está documentada em estudos que examinam correspondência, imprensa e crônicas do período.

Por que ainda ler seus livros?

Porque preservam referências para investigar cantos, histórias, comidas e palavras. Leia-os com atenção ao contexto, às pessoas que produziram esses saberes e às críticas sobre raça, política e método.

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