JORNAIS ANTIGOS · ORTOGRAFIA · HISTÓRIA DA CULTURA POPULAR
Em 22 de setembro de 1859, um leitor do Correio Paulistano encontrou no jornal duas palavras que hoje parecem estar fora do lugar: Saci Sererê. Dezessete anos depois, um livro imprimiu Saci Cerêrê. Em 1918, a folha de rosto de um inquérito famoso anunciou O Sacy-Perêrê. O personagem era reconhecível. O nome ainda não estava parado.
Se alguém procurar apenas por “Saci-Pererê” nos acervos digitais, pode atravessar décadas sem encontrar páginas que estão ali. O y, o c, os acentos e até o segundo nome mudam a busca. Mudam também a história que enxergamos.
Esta reportagem seguiu essas variações em jornais, revistas, livros, partituras e normas ortográficas. O resultado não é uma lista de erros antigos. É uma história de escuta: pessoas ouviram um nome transmitido pela fala e tentaram colocá-lo no papel com as letras disponíveis em seu tempo.
Imagem de abertura: composição editorial do Sacip com fac-símiles de O Selvagem (1876), Revista da Semana (1910) e O Sacy-Perêrê (1918). Documentos em domínio público; montagem sem uso de IA.
Uma linha do tempo escrita letra por letra
A linha abaixo registra a forma que aparece no documento, sem “corrigi-la” para a ortografia atual. Uma ocorrência não significa que o país inteiro escrevia daquele modo. Ela prova apenas que aquela forma foi impressa naquele lugar, naquela data e naquele tipo de publicação.
A crônica assinada apenas por “C.” é o registro jornalístico mais antigo localizado nesta pesquisa. A grafia já usa i, mas traz Sererê.
O livro troca o S inicial do segundo nome por C e marca a pronúncia com circunflexos.
O título da composição usa y, P e hífen. A obra foi composta em 1884 e teve primeira edição em 1885.
O Sacy: bosina da mocidade transforma o nome em título de periódico. O catálogo do Arquivo Público preserva também a grafia histórica “bosina”.
Histórias ilustradas mantêm o y e dispensam o hífen no cabeçalho.
A folha de rosto usa y, hífen e circunflexo nas duas sílabas finais de Perêrê.
O y continua visível tanto na literatura infantil de 1921 quanto no jornal O Sacy, catalogado pela Hemeroteca para 1926 e 1927.
A regra oficial substitui y por i nas palavras aportuguesadas. A forma moderna se torna dominante, sem apagar as grafias guardadas nos arquivos.
1859: a página que começa com Saci — e termina com uma inicial
Na edição nº 1.034 do Correio Paulistano, a crônica ocupa trechos das páginas 2 e 3. O autor apresenta o “Saci Sererê” como tradição contada por avós. O texto termina com uma única letra: C. Até agora, não encontramos um documento que permita transformar essa inicial em nome completo.
Essa incerteza é tão importante quanto a data. A página comprova que a expressão foi impressa em 1859 e que seu autor considerava a tradição mais antiga do que o jornal. Ela não comprova quem era “C.”, nem autoriza atribuir-lhe uma biografia inventada.
A Hemeroteca Digital permite abrir a página original. Para localizá-la no OCR, vale testar “Saci”, “Sererê” e trechos próximos, porque a leitura automática de tipos antigos pode falhar.
Abrir o fac-símile na Biblioteca Nacional →O Sacip já reconstruiu o conteúdo e o contexto dessa crônica em uma reportagem separada. Para ver o que o autor descrevia — e o que ainda não aparecia no corpo do personagem — leia O Saci antes de Monteiro Lobato.
1876: Cerêrê entra no livro
Dezessete anos depois, José Vieira Couto de Magalhães escreveu Saci Cerêrê em O Selvagem. Na mesma página, descreveu um pequeno personagem “manco de um pé”, com barrete vermelho. É um documento central para a história da aparência do Saci e também para sua ortografia.
A troca de Sererê por Cerêrê não deve ser tratada automaticamente como correção ou descuido. Pode refletir a forma ouvida pelo autor, uma escolha de transcrição, uma variante que já circulava ou a intervenção da oficina tipográfica. Sem caderno de campo ou explicação do próprio Couto de Magalhães, não é possível escolher uma dessas hipóteses como certeza.
A mesma página traz outro detalhe revelador: a palavra Jacy, usada para lua, também aparece com y. Isso ajuda a lembrar que o y não era uma extravagância reservada ao Saci. Ele fazia parte das convenções gráficas usadas por escritores do período.
Por que Sacy virou Saci?
A resposta mais segura está menos no personagem e mais na história da língua escrita. O português usado no Brasil atravessou sucessivas tentativas de padronização. Portugal fez uma reforma oficial em 1911. O Brasil não a adotou imediatamente. Houve um acordo entre as academias em 1931, ajustes posteriores e, em 1943, a publicação do Formulário Ortográfico brasileiro.
O formulário é direto: “O y, que é substituído pelo i” permanece apenas em situações especiais, como símbolos, abreviaturas e nomes estrangeiros. Palavras incorporadas ao português passam a seguir o sistema comum. Sacy, portanto, perde espaço para Saci.
Forma frequente em revistas, títulos e livros do fim do século XIX e início do XX.
O i assume o lugar do y em palavra aportuguesada.
Isso não aconteceu numa madrugada em que todas as gráficas trocaram uma letra ao mesmo tempo. Livros foram reeditados, hábitos de redação persistiram e nomes de periódicos conservaram suas marcas. Uma regra oficial orienta o padrão; a prática editorial muda em ritmos diferentes.
A cronologia oficial pode ser conferida na síntese do Arquivo Nacional. A Academia Brasileira de Letras também mantém as edições históricas do Vocabulário Ortográfico.
Sacy-Pererê na música e na imprensa ilustrada
Em 1884, Chiquinha Gonzaga compôs Sacy-Pererê para a opereta A corte na roça. A primeira edição conhecida é de 1885. O título une o y ao hífen e ao acento agudo final. A documentação musical mostra que o nome já circulava fora de descrições folclóricas: podia ser cantado, anunciado e vendido como partitura.
A página do Acervo Digital Chiquinha Gonzaga permite acompanhar a história da peça e consultar a documentação preservada. O Sacip não reproduz o manuscrito nesta matéria porque as condições de reutilização da imagem não estão indicadas de forma suficientemente clara.
Em 1909 e 1910, a Revista da Semana publicou histórias ilustradas com Sacy. O cabeçalho de 1910 usa “O Sacy Pererê”, sem hífen. Essa pequena diferença lembra que hífen, acento e espaço também são decisões históricas. Procurar apenas a forma atual pode deixar uma página inteira fora do resultado.
1918: uma grafia transformada em título
O inquérito organizado por Monteiro Lobato chegou ao livro com a forma O Sacy-Perêrê. O título usa circunflexo nas duas ocorrências de ê no segundo nome. Dentro dos depoimentos, porém, a uniformidade é menor: cada colaborador traz vocabulário, origem e hábitos de escrita próprios, além da edição aplicada pelo jornal e pelo livro.
A publicação reuniu relatos enviados ao jornal em 1917 e ajuda a mostrar como versões regionais conviviam. A reportagem do Sacip sobre os 73 depoimentos de O Sacy-Perêrê examina essa coleção sem confundi-la com o livro infantil de 1921.
1921: o y ganha uma das capas mais conhecidas
Quando O Sacy chegou às livrarias em 1921, o título curto e vermelho ocupou a parte inferior da capa ilustrada por Voltolino. A imagem ajudou a levar a grafia a leitores jovens em todo o país. Ela também prova por que não se deve atualizar silenciosamente a fonte: escrever “O Saci” ao identificar essa primeira edição apaga uma escolha visível no próprio objeto.
O y ainda aparece no catálogo da Hemeroteca em outro objeto: o periódico paulistano O Sacy, de 1926 e 1927. Título de publicação costuma preservar grafia de marca mesmo quando a escrita geral está mudando.
Sererê, Cererê, Pererê: o ouvido também escreve
A mudança de Sacy para Saci é explicada com segurança pelas normas ortográficas. A série Sererê–Cererê–Pererê é menos simples.
Essas formas vieram de uma tradição falada por pessoas de diferentes regiões e repertórios linguísticos. Ao escrevê-las, um autor precisava decidir onde uma palavra começava, qual consoante representava o som e onde marcar a sílaba forte. Outro ouvinte podia escolher de modo diferente. Tipógrafos e revisores ainda podiam intervir.
É comum encontrar a explicação de que pererê estaria ligado a uma palavra tupi associada a saltar ou andar aos pulos. A proposta combina com a imagem do personagem, mas sua repetição em sites não substitui a demonstração linguística. Dicionários e estudos não apresentam sempre a mesma reconstrução, e a semelhança sonora não basta para provar um caminho único.
Pesquisas contemporâneas também discutem aproximações entre o Saci e figuras guarani conhecidas por formas como Jasy ou Jaxy Jaterê. A comparação é relevante, mas não autoriza fundir tradições distintas num personagem único. Comunidades, línguas e narrativas têm histórias próprias. Um nome parecido é ponto de investigação, não conclusão.
Para acompanhar com mais espaço as hipóteses de origem e as transformações culturais do personagem, consulte a investigação do Sacip sobre as origens do Saci-Pererê.
E “Çacy”? A grafia que a pesquisa não conseguiu comprovar
“Çacy” aparece hoje em listas de variantes na internet. Por isso, esta reportagem procurou a forma exata, com e sem Pererê, em catálogos, jornais digitalizados e livros acessíveis. Não encontramos uma ocorrência primária segura que permita apresentá-la como grafia histórica recorrente do personagem.
Isso não prova que ninguém jamais escreveu “Çacy”. Prova somente que, no conjunto consultado, a forma não pôde ser autenticada. Ela pode surgir de erro moderno, leitura defeituosa do OCR, estilização isolada ou confusão entre letras desgastadas.
Há ainda um limite ortográfico objetivo. O formulário de 1943 diz: “Não se emprega ç em início de palavra”. Na escrita padrão moderna, portanto, Çaci ou Çacy não são formas corretas. Se um fac-símile antigo vier a ser localizado, ele deverá ser mostrado com data, título, página e imagem — não apenas copiado de uma lista.
VEREDITO DOCUMENTALNão confirmada como variante histórica recorrente. Deve permanecer com ponto de interrogação até surgir uma fonte primária verificável.
Quando o computador cria uma palavra que nunca esteve na página
A Hemeroteca e outros repositórios usam OCR — reconhecimento óptico de caracteres — para transformar imagem em texto pesquisável. A ferramenta torna milhões de páginas encontráveis, mas tipos antigos, manchas, dobras e colunas estreitas confundem o programa.
Um S pode virar Ç. Um y pode ser lido como v. O conjunto “rn” pode parecer m. A busca pode devolver uma palavra inexistente ou deixar de encontrar uma palavra perfeitamente visível. Por isso, o resultado do OCR é pista, não prova. A prova está no fac-símile.
Termos para procurar nos arquivos
SaciSacySaci SererêSaci CererêSaci CerêrêSacy PererêSacy PerêrêPererêCererê- Procure a palavra inteira e partes dela. Se “Sacy-Perêrê” falhar, teste “Sacy” e “Perêrê” separadamente.
- Restrinja por período e cidade. Um intervalo menor reduz homônimos e erros.
- Abra a página. Nunca cite apenas o trecho criado pelo OCR.
- Leia ao redor. Cabeçalho, data, gênero e assinatura mudam o sentido.
- Guarde o endereço permanente. Registre periódico, edição, página física e data.
A matéria do Sacip sobre os primeiros registros do folclore brasileiro mostra por que acervo, coletor e contexto precisam aparecer juntos. Sem essa ficha, um recorte solto parece mais antigo, mais universal ou mais seguro do que realmente é.
Uma tabela para não misturar grafia, fonte e interpretação
| Forma | Onde foi comprovada | O que indica | Grau de segurança |
|---|---|---|---|
| Saci Sererê | Correio Paulistano, 1859 | Forma jornalística antiga com i e variante Sererê. | Fac-símile primário |
| Saci Cerêrê | O Selvagem, 1876 | Troca de consoante e acentuação histórica. | Fac-símile primário |
| Sacy-Pererê | Chiquinha Gonzaga, 1884–1885 | Y, hífen e Pererê em circulação musical. | Acervo institucional |
| O Sacy | Mogi Mirim, 1899; Lobato, 1921; jornal, 1926 | Y persistente em títulos e nomes próprios editoriais. | Catálogo e fac-símile |
| Sacy Pererê | Revista da Semana, 1910 | Forma sem hífen no cabeçalho. | Fac-símile primário |
| Sacy-Perêrê | inquérito, 1918 | Y, hífen e circunflexos no título. | Fac-símile primário |
| Çacy | Nenhuma fonte primária segura localizada | Pode ser erro, OCR ou uso isolado ainda não demonstrado. | Não confirmado |
| Saci-Pererê | uso contemporâneo | Forma consolidada depois da padronização. | Padrão atual |
O nome registra também quem segurou a caneta
Uma grafia antiga fala do personagem, mas fala também do autor, do editor e da instituição que imprimiu a página. Mostra como alguém ouviu uma tradição oral, quais letras considerou adequadas e que padrão sua oficina seguia. Às vezes, mostra até o limite do equipamento tipográfico.
Isso muda a pergunta. Em vez de procurar qual era o “nome verdadeiro” e tratar todos os outros como deformações, podemos perguntar: quem escreveu, onde ouviu, para quem publicou e que regras estavam disponíveis?
O estudo de Renato da Silva Queiroz sobre a migração e a metamorfose do mito ajuda a entender essa mobilidade. O Saci que ganhou projeção nacional não ficou idêntico às versões rurais paulistas registradas por diferentes mediadores. Nome, corpo e comportamento foram reorganizados à medida que o personagem atravessou imprensa, pesquisa, publicidade e literatura.
As letras, portanto, não são poeira que se limpa antes de ler o documento. São parte do documento.
O arquivo não corrige a voz: ele guarda suas tentativas
Em 1859, o jornal escreveu Saci Sererê. Em 1876, o livro preferiu Saci Cerêrê. Chiquinha Gonzaga publicou Sacy-Pererê. Lobato levou O Sacy às livrarias. A ortografia oficial empurrou o y para o i, mas não reescreveu as páginas que já existiam.
É tentador escolher uma forma e montar uma linha reta até o presente. Os documentos contam outra história. O nome avançou por desvios: atravessou línguas, ouvidos, cidades, prensas e regras. Cada variante deixa uma pista sobre o caminho.
Procurar essas letras não diminui o Saci. Faz exatamente o contrário: devolve ao personagem a quantidade de vozes que tentaram escrevê-lo.
Fontes e documentos consultados
- Correio Paulistano, edição nº 1.034, 22 set. 1859, p. 2–3 — Hemeroteca Digital Brasileira.
- COUTO DE MAGALHÃES, José Vieira. O Selvagem, 1876, p. 138 — fac-símile do Senado Federal na Wikisource.
- Acervo Digital Chiquinha Gonzaga. “Sacy-Pererê”, composição de 1884, primeira edição de 1885.
- O Sacy: bosina da mocidade, Mogi Mirim, 26 mar. 1899 — Arquivo Público do Estado de São Paulo.
- Revista da Semana, nº 490, 3 out. 1909 — Internet Archive.
- Revista da Semana, nº 542, 2 out. 1910 — Internet Archive.
- LOBATO, Monteiro. O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito, 1918 — registro bibliográfico HathiTrust.
- O Sacy, São Paulo, 1926–1927 — Hemeroteca Digital Brasileira.
- Academia Brasileira de Letras. Formulário Ortográfico, 1943.
- Brasil. Decreto-Lei nº 5.186, de 13 jan. 1943.
- QUEIROZ, Renato da Silva. “Migração e metamorfose de um mito brasileiro: o saci, trickster da cultura caipira”, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, 1995.
- Espaço Ameríndio. Estudo contemporâneo sobre Jaxy/Jasy Jaterê e narrativas guarani.
Créditos e direitos das imagens
Imagem de abertura: composição editorial Sacip, 2026, com documentos de 1876, 1910 e 1918 em domínio público. Os fac-símiles foram recortados, redimensionados e organizados graficamente; nenhuma imagem foi criada por IA.
O Selvagem: José Vieira Couto de Magalhães, 1876, p. 138. Fac-símile do Senado Federal via Wikisource. Domínio público / Public Domain Mark 1.0.
Revista da Semana: nº 542, 2 de outubro de 1910. Internet Archive. Domínio público.
O Sacy-Perêrê: folha de rosto do livro publicado em 1918. Domínio público.
O Sacy: capa da primeira edição, texto de Monteiro Lobato e desenhos de Voltolino, 1921. Domínio público.
Transparência editorial: a pesquisa distingue documento, hipótese e uso moderno. “Çacy” não foi autenticado como variante histórica recorrente. Se uma fonte primária verificável aparecer, o Sacip atualizará esta cronologia e registrará a correção.




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