No começo de 1917, enquanto os jornais traziam diariamente as notícias brutais da Primeira Guerra Mundial, uma pergunta muito diferente apareceu na edição da tarde de O Estado de S. Paulo: afinal, quem era o Saci que o povo dizia ouvir, temer e encontrar pelo interior?
Monteiro Lobato pediu respostas aos leitores. Vieram lembranças da infância, histórias de avós e trabalhadores das fazendas, versos, teorias, brincadeiras, relatos de medo e até uma carta assinada pelo “próprio Saci”. Em 1918, parte desse material virou O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito, um livro estranho, divertido, desigual e hoje indispensável para entender como uma tradição oral foi transformada em documento impresso.
Esta reportagem reconstrói a história da obra e apresenta, em linguagem atual, os 73 depoimentos da edição de 1918. Não são transcrições integrais: são guias autorais e fiéis aos principais acontecimentos de cada texto, conferidos no fac-símile. Quando há edição de Lobato, sátira, dúvida, preconceito de época ou divergência bibliográfica, isso é indicado.
Imagem de destaque: composição editorial Sacip com a aquarela “Sacy no rodamoinho”, de Alfredo Norfini, reproduzida na edição de 1918. Obra em domínio público. Digitalização consultada no Internet Archive.
O que é O Sacy-Pererê: resultado de um inquérito?
É uma coletânea organizada por Monteiro Lobato a partir de respostas enviadas a um jornal em 1917. Os participantes contaram como imaginavam o Saci, de quem tinham aprendido as histórias e quais “causos” conheciam. O livro saiu em 1918, misturando pesquisa, memória oral, humor, literatura e intervenção editorial. Não deve ser confundido com O Saci, aventura infantil publicada por Lobato em 1921.
Um livro que começa antes da capa
O título da primeira edição usa a grafia Sacy-Perêrê, comum naquele período. Hoje escrevemos Saci-Pererê. Respeitar a forma antiga ao citar o livro não significa adotá-la no restante do texto.
A folha de rosto apresenta o organizador como “um demonólogo amador”, brincadeira que combina com o espírito da obra. Lobato ainda não era o consagrado autor infantil que seria depois. Atuava como escritor, fazendeiro, articulista e polemista, interessado em discutir a identidade cultural do país.

Por que Lobato decidiu perguntar sobre o Saci?
O projeto nasceu de uma discussão maior. Lobato criticava a repetição de modelos culturais europeus e defendia que artistas prestassem atenção às histórias, paisagens e personagens do Brasil. Em textos de 1916 e 1917, usou o Saci como exemplo de figura conhecida pelo povo, mas pouco aproveitada pelas artes consideradas “oficiais”.
No Introito do livro, ele também relacionou a chegada do personagem ao noticiário da Primeira Guerra. O Saci, com suas travessuras, teria oferecido uma pausa imaginativa diante da “carnificina” europeia. Essa oposição era retórica: Lobato não estava fugindo apenas de uma notícia ruim, mas usando o duende para questionar o que as elites chamavam de civilização.
Seu nacionalismo, contudo, não era neutro. A abertura fala do “povo” como fonte de criação, mas a passagem para o jornal dependia de leitores alfabetizados, editores e de uma empresa de imprensa. Muitas narrativas tinham sido ouvidas de mulheres, trabalhadores rurais e pessoas que haviam vivido a escravidão; quase sempre, quem assinou a versão impressa foi outra pessoa.


Como funcionou o inquérito de 1917
A consulta foi publicada sob o título Mitologia brasílica — Inquérito sobre o Sacy-Perêrê no Estadinho, apelido da edição vespertina de O Estado de S. Paulo. O suplemento havia começado a circular em 1915 e tinha linguagem mais leve do que a edição principal.
Lobato pediu um “depoimento honesto” a partir de três perguntas. Em português de hoje, elas queriam saber:
- Memória pessoal: como cada pessoa imaginava o Saci, de quem ouvira falar nele e que papel a crença tivera em sua vida.
- Versão local: como o personagem era descrito na região em que o colaborador vivia.
- Casos: quais histórias vividas ou ouvidas a pessoa sabia contar.
Hoje, um pesquisador faria perguntas sobre consentimento, perfil dos participantes, gravação, transcrição e critérios de seleção. Nada disso aparece de modo sistemático. Mesmo assim, para 1917, convidar leitores a comparar versões de uma tradição popular foi uma experiência incomum e de grande alcance público.

Do jornal ao livro: 83 textos viraram 73
A pesquisa de Evandro Camargo, baseada na comparação entre o jornal e a coletânea, localizou 83 textos publicados no Estadinho entre o fim de janeiro e o começo de março de 1917. Ao preparar o livro, Lobato excluiu 11 e acrescentou o texto de Brasilophilo, que não aparecera na série. O resultado foi 73 depoimentos.
A conta simples — 83 menos 11, mais um — esclarece por que jornais e livro trazem totais diferentes. Também lembra que a coletânea não é uma urna fechada com todas as cartas recebidas. É uma seleção.
Os originais manuscritos não foram localizados nas pesquisas consultadas. O que podemos comparar são as versões publicadas. Camargo encontrou cortes, mudanças de ordem, paráfrases e comentários de Lobato. O organizador também inseriu textos próprios, como o “Interregno” e a carta do “próprio Saci”. Portanto, o volume é ao mesmo tempo fonte de tradição popular e obra editorial de Monteiro Lobato.

Uma cronologia com pequenas discordâncias
- 1915Começa a circular o Estadinho, edição da tarde de O Estado de S. Paulo.
- 25 de janeiro de 1917O Introito do livro diz que o inquérito foi aberto nesta data.
- 27 de janeiro de 1917Pesquisa na coleção do jornal localiza aqui o início da série publicada; a introdução de 1998 menciona dia 28.
- 6 de março de 1917Data final da sequência de textos localizada no vespertino.
- 1917Uma exposição e concurso artístico sobre o Saci amplia a discussão para desenho, pintura e escultura.
- 1918Os depoimentos selecionados saem em livro, impresso nas oficinas de O Estado de S. Paulo.
- 1921Lobato publica O Saci, ficção infantil protagonizada por Pedrinho e pelo personagem já reelaborado.
- 1998Uma edição fac-similar torna a obra histórica novamente acessível a muitos leitores.
- 2018No centenário do livro, artistas e pesquisadores voltam ao inquérito em projetos e estudos contemporâneos.
A data exata de abertura varia entre o relato retrospectivo do livro, a série localizada no jornal e a apresentação da edição de 1998: 25, 27 ou 28 de janeiro. Também há fontes que falam em tiragem inicial de 2 mil exemplares e outras em 5.300. Uma carta de Lobato a Godofredo Rangel menciona a previsão de 2 mil; números maiores podem se referir a uma tiragem efetiva ou posterior, mas a documentação consultada não resolve isso por completo. Por esse motivo, esta matéria não escolhe uma das versões como certeza.
Quem falou — e quem ficou escondido dentro dos depoimentos
Dos 73 títulos, alguns trazem nome completo, outros apenas iniciais, pseudônimo ou a palavra “anônimo”. Camargo conseguiu identificar biograficamente somente 13 colaboradores. Isso limita qualquer tentativa de traçar um perfil social preciso.
A distribuição geográfica encontrada nos textos do jornal é igualmente reveladora e limitada: 37 não informam origem; 17 vêm do interior paulista; 17, da capital; três, do litoral de São Paulo; oito, de Minas Gerais; e apenas um, do Nordeste. Esses números medem a rede de circulação do jornal e de seus leitores, não a presença do Saci no Brasil inteiro.
Além disso, a voz que aparece no alto do texto nem sempre é a voz que criou a história. Muitas contribuições citam mães, tias, cozinheiras, ex-escravizados, tropeiros, pescadores, trabalhadores de fazenda e crianças. Eles são a base oral do livro, mas raramente recebem o mesmo espaço de autoria.
| Procedência | Quantidade | O que o número permite dizer |
|---|---|---|
| Não informada | 37 | A maior parte não pode ser localizada com segurança. |
| Interior de São Paulo | 17 | Há forte presença das áreas alcançadas pelo jornal. |
| Capital paulista | 17 | Muitos leitores urbanos escreveram sobre memórias rurais. |
| Minas Gerais | 8 | O inquérito ultrapassou São Paulo, mas não de modo equilibrado. |
| Litoral paulista | 3 | As variantes costeiras aparecem pouco. |
| Nordeste | 1 | Não autoriza chamar a amostra de retrato nacional completo. |
Que Saci aparece quando 73 pessoas tentam descrevê-lo?
Não surge um retrato único. Há Sacis com uma perna, duas ou pernas desiguais; pequenos, robustos ou quase monstruosos; de barrete vermelho, roupa inteira, nus, com rabo, barba, mão furada ou pé virado. Às vezes ele é menino; em outras, pássaro, sombra, vento ou apenas assobio.
Uma contagem feita por Camargo encontrou 47 dos 73 textos descrevendo o personagem como negro. Trinta e um mencionam o assobio; 24, a gargalhada; 19, o salto; e 12, o redemoinho. As categorias se sobrepõem: o mesmo depoimento pode aparecer em várias linhas.
| Traço ou ação | Depoimentos | Leitura simples |
|---|---|---|
| Personagem negro | 47 | A associação racial é dominante, mas não universal. |
| Assobiar | 31 | O som muitas vezes é percebido antes da forma. |
| Dar gargalhadas | 24 | O riso marca provocação e presença. |
| Saltar | 19 | O movimento ajuda a explicar a perna única. |
| Cavalgar | 15 | O cansaço dos animais recebe uma causa sobrenatural. |
| Trançar a crina | 15 | As tranças servem como vestígio da visita noturna. |
| Aparecer no redemoinho | 12 | O vento visível oferece corpo para o personagem. |
Horários e lugares também formam padrões: noite, meia-noite, sexta-feira, encruzilhadas e porteiras. Para se proteger, os narradores citam rosário, bentinho, cruz, oração, água benta, peneira, nós, sal, figa, galo e alho. Nenhum método funciona em todas as histórias. O folclore não é um manual com regras fixas.

Raça, escravidão e poder: como ler as partes difíceis
O livro nasceu menos de três décadas depois da abolição da escravidão no Brasil. Vários depoimentos dizem ter aprendido os casos com pessoas negras, algumas identificadas como antigas escravizadas. Ao mesmo tempo, a edição usa palavras, caricaturas e teorias raciais ofensivas. Esse contraste não pode ser apagado.
Afirmar que pessoas negras transmitiram muitas histórias não significa que o Saci seja uma criação exclusivamente africana. Pesquisas posteriores apontam encontros entre tradições indígenas, africanas, afro-brasileiras e europeias, com diferenças locais. Nosso artigo sobre as origens do Saci-Pererê explica esse caminho mais amplo.
Também não basta dizer que “era assim na época”. Ler historicamente significa reconhecer o contexto e, ao mesmo tempo, nomear a violência. Em “Conjecturas ethnographicas”, de José Antonio Nogueira, e no “Epílogo” de Lobato aparecem esquemas de evolução cultural e raça que a ciência atual rejeita. Já a caricatura de Luigi Cappalunga usa imigrantes e meninos negros como matéria de piada.
Esses trechos ajudam a estudar quem tinha poder de definir o país, mas não devem ser repetidos como verdade. A obra de Lobato, inclusive suas contradições raciais, precisa de mediação crítica; o Sacip mantém uma análise específica em Monteiro Lobato, o Saci e o racismo.
Cada cartão resume o núcleo de um depoimento, sem copiar sua redação e sem transformar alegações sobrenaturais em fatos comprovados. “Viu”, “aconteceu” ou “existiu” aparecem como ações narradas pela fonte. Abra os cartões em qualquer ordem ou use o mapa numérico. O “Interregno”, texto de Lobato colocado depois do número 16, é explicado à parte e não foi contado como depoimento 17.
Mapa dos 73 depoimentos
Escolha um número para ir diretamente ao relato. A ordem segue a edição de 1918.
Depoimentos 1 a 16: infância, casa e redemoinho
Os primeiros textos estabelecem muitos motivos que voltarão ao longo da coletânea: histórias aprendidas com mulheres da família, cavalos cansados, crinas trançadas, barretes, orações e o vento levantando poeira.
01O primeiro depoimentoUma lembrança de infância contada por uma mulher de 25 anos
A colaboradora recorda que a mãe recorria ao Saci para fazer as crianças sossegarem. Em sua imaginação ele era peludo, usava camisa vermelha e tinha uma perna só. O pai acrescentava histórias: Sacis beberiam nas pipas e depois estragariam o conteúdo; um tio dizia que invadiam roças de milho e montavam nos cavalos segurando-se pelo rabo.
O que este depoimento acrescenta: O relato mostra que o Saci era aprendido dentro de casa e podia funcionar, ao mesmo tempo, como ameaça educativa e explicação para pequenos prejuízos rurais.
02H. Q.O Saci doméstico e a São Paulo que mudava
H. Q. reúne lembranças ouvidas da mãe, da avó, das tias e de Theodora. Seu Saci é um menino magro, de uma perna, mais traquinas que assustador: destrói ninhos e balões, estraga pipoca, monta animais nas sextas-feiras à meia-noite e emperra porteiras. O texto termina contrastando esse mundo rural com a capital paulista que se modernizava.
O que este depoimento acrescenta: É um dos primeiros depoimentos a tratar a crença como uma memória que parecia recuar diante da urbanização.
03Plínio SantosA tentativa de prender um Saci com um rosário
Quando tinha sete anos, Plínio ouviu de um professor que o Saci cavalgava à noite e deixava a crina ferida e trançada. Passou então a temer redemoinhos e tentou capturar a criatura atirando um rosário no vento. A experiência fracassou, e a explicação veio em tom de humor: o rosário usado pela criança não era bento.
O que este depoimento acrescenta: A narrativa registra uma das fórmulas mais conhecidas para capturar o Saci, mas também mostra como uma falha podia ser absorvida pela própria crença.
04Manoel da BarrocaO filho dos ventos
Em fala marcada pela oralidade caipira, Manoel descreve um menino de uma perna, roupa vermelha, palmas e gargalhadas no meio de um redemoinho. Ele monta uma égua e embaraça a crina. O narrador chama a figura de filho dos ventos e não a apresenta como demônio absoluto, mas como força inquieta e brincalhona.
O que este depoimento acrescenta: O modo de contar é tão importante quanto o enredo: a edição tenta levar para a página o ritmo da conversa do interior.
05André CapetaFumo, cócegas e cavalos exaustos
O Saci aparece barrigudo, de cachimbo e uma perna só. Pede fumo e fogo; quem se recusa pode receber cócegas. Numa hospedaria de Rancheria, vários Sacis cansariam os cavalos durante a noite. Cortar a crina seria uma defesa, pois impediria a criatura de usá-la como apoio para montar.
O que este depoimento acrescenta: O depoimento junta hospitalidade, tabaco e cuidado com animais numa explicação sobrenatural para o cansaço dos cavalos.
06N. CarneiroRelatos de Iguape e do vale do Ribeira
N. Carneiro afirma ter visto o Saci em viagens e na infância em Iguape: uma pequena figura negra e calva. O texto acumula episódios de travessia de canoa, rezas, rosários, fechaduras, cachorros e cavalos, além de uma massa de pastel protegida por uma cruz. Dona Evarista chega a cumprimentar a presença invisível como se já a conhecesse.
O que este depoimento acrescenta: É um testemunho extenso sobre um Saci integrado à rotina das casas e caminhos, não restrito a um único susto.
07Benedicto GomideUm desvio espiritualista
Assinado também a partir de Conchas, o texto discute a crença e o mundo espiritual com mais interesse filosófico do que folclórico. Em vez de oferecer um caso detalhado de Saci, Gomide debate como as pessoas explicam o invisível. Lobato o apresenta com uma moldura satírica.
O que este depoimento acrescenta: A presença do depoimento revela que o inquérito acolheu ensaios e divagações, não apenas histórias de aparição.
08Carlos SilveiraVariações entre Queluz, Silveiras e Pinheiros
Carlos Silveira compara formas regionais e descreve um Saci geralmente inofensivo. Distingue ainda o Saci-trique, de casaco vermelho. Num episódio familiar, uma presença responde boa tarde e depois se despede. O autor percebe que o personagem mudava de feição conforme a localidade e o tempo.
O que este depoimento acrescenta: É uma pequena pesquisa comparativa dentro da própria pesquisa de Lobato.
09V. P. C.Olhos de fogo e uma perseguição no interior do Rio
No interior fluminense, o Saci seria negro, de uma perna, olhos em brasa, cabelo duro e bigode. Repetir três vezes uma invocação à Virgem seria uma proteção. O tio Damião teria sido perseguido perto de um cemitério, e o cavalo terminou a jornada esgotado.
O que este depoimento acrescenta: A história mistura uma aparência assustadora, geografia funerária e devoção católica popular.
10João B. de AndradeNhô Vadô e os tipos tatêrê e sacêrê
João registra a fala de Nhô Vadô, antigo condutor de gado. A criatura tem olhos ardentes, três dedos em forma de casco, barrete vermelho de urucum e não usa roupa. O informante diferencia nomes e tipos, como tatêrê e sacêrê, associados a áreas diferentes.
O que este depoimento acrescenta: O depoimento é valioso porque preserva vocabulário regional e mostra que não havia um Saci único nem um nome estável.
11João LoboO bentinho, a garupa e o carvão da fogueira
Reginaldo tenta montar, mas o freio cai repetidamente enquanto o Saci ri sobre um toco; o bentinho encerra a provocação. Outra cena coloca a criatura na garupa de um cavalo. Numa terceira, um trabalhador vê junto ao fogo um Saci cuja mão parecia atravessada, brincando com carvão, e o afasta com o Credo.
O que este depoimento acrescenta: São histórias em que objetos e palavras religiosas funcionam como defesa diante de uma presença fisicamente próxima.
12Miguel MilanoInfância no Piques e o assobio que ficou na memória
Milano relembra o bairro paulistano do Piques e as histórias ouvidas dos caipiras. O Saci monta cavalos e protege ninhos. As crianças tentam detê-lo nos redemoinhos com um rosário, sem sucesso. Já adulto, o narrador liga o chamado de uma ave às lembranças e ao desaparecimento daquele universo infantil.
O que este depoimento acrescenta: É menos um boletim de assombração que um retrato nostálgico de como o folclore dava forma à infância.
13J. PiresO Saci-siriry debaixo da ponte
O autor chama a figura de Saci-siriry: baixa, forte e com pernas desiguais. Diz ter aprendido a história com pessoas negras mais velhas que haviam vivido a escravidão. O Saci morava sob uma ponte e servia para assustar crianças; quando consegue atravessá-la acompanhado, o menino desafia o medo em voz alta.
O que este depoimento acrescenta: A ponte marca uma passagem literal e simbólica: cruzá-la é vencer uma ameaça construída pelas histórias dos adultos.
14M. L. de Oliveira FilhoUma perseguição que termina em casamento
Depois de discutir nomes e cor do personagem, o colaborador conta o caso de Antônio Fernandes. Perseguido por uma figura terrível, ele desperta perto de uma casa arruinada e vê o Saci girando. O atraso o coloca no caminho da mulher com quem viria a se casar.
O que este depoimento acrescenta: Aqui a travessura que parecia desgraça ganha um final favorável: o Saci altera o destino do perseguido.
15A. P.As histórias de tia Rufina
A. P. repete lembranças atribuídas à velha tia Rufina. O Saci usa roupa vermelha, entra à noite, fuma, perturba a cozinha e embaraça crinas. Durante o dia, sua passagem é percebida no redemoinho.
O que este depoimento acrescenta: O relato reúne em poucas linhas duas casas do personagem: a cozinha doméstica e o vento do lado de fora.
16Jorge NóbregaO Saci do litoral e o do sertão
Nóbrega separa versões costeiras e sertanejas. No litoral, vê um ser negro, de uma perna, gorro vermelho e fogo na boca; no sertão, descreve uma figura baixa, robusta e com bastão, que nem sempre salta. Também registra uma forma de ave e distribui aparições conforme as horas do dia e da noite.
O que este depoimento acrescenta: O depoimento deixa clara a diversidade regional que a imagem padronizada do Saci acabaria escondendo.

Depoimentos 17 a 37: retratos, explicações e casas perturbadas
Nesta parte, os colaboradores tentam medir, classificar e explicar o Saci, mas também criam algumas das histórias mais elaboradas. É aqui que o “próprio Saci” protesta contra os retratos que fizeram dele.
17João CoriscoUm retrato minucioso e a ideia de um Saci civilizado
João Corisco descreve uma criatura de cerca de um metro, calção vermelho, camisa branca, barrete, barba de bode e unhas longas. Reúne histórias de Joanna e de trabalhadores rurais, inclusive as de Chico sobre cavalos, telhados e captura. Depois brinca com a hipótese de o Saci ter recuado para São Paulo e se tornado civilizado.
O que este depoimento acrescenta: A enumeração parece querer fixar um retrato, mas o humor final lembra que a própria figura escapa à definição.
18Octavio AugustoO Saci como personagem da paisagem
O autor chama o Saci de parente de Pedro Malasartes e escreve de modo ensaístico sobre a natureza brasileira. O caso central é o de Quito, que volta apavorado depois que o Saci teria montado seu cavalo e o arrastado pelo campo. A partir daí, a crença faz o homem enxergar a criatura em toda parte.
O que este depoimento acrescenta: O texto sugere, ainda que sem linguagem psicológica moderna, como o medo pode reorganizar a percepção.
19Guilherme Lund NettoUm pequeno dossiê de autoridades e livros
Em vez de narrar uma lembrança pessoal, Lund Netto compila autores e compara definições atribuídas a Beaurepaire-Rohan, Emílio Goeldi e Pedro Bernardo Guimarães. Sustenta que a versão mineira descenderia da paulista, uma hipótese de seu tempo, não uma conclusão definitiva.
O que este depoimento acrescenta: É o depoimento mais próximo de uma revisão bibliográfica e mostra o esforço de dar aparência erudita ao inquérito.
20Uma professora — Antonia Benta Alves de LimaDisciplina escolar, explicações naturalistas e marcas da escravidão
A professora aposentada lembra que educadores usavam o Saci para controlar crianças, mas se declara cética. Procura explicar aparições por fugitivos da escravidão, morcegos e outros fatos materiais. Também recorda versos apresentados ao imperador Pedro II.
O que este depoimento acrescenta: O documento registra uma voz feminina identificada e as tentativas do começo do século XX de reinterpretar crenças antigas; algumas formulações raciais do período exigem leitura crítica.
21Uma menina — M. AuroritaDo monstro imaginado ao canto de um pássaro
A jovem de 16 anos insiste que o Saci existe em São Paulo e o imagina com um olho, sem orelhas, uma perna e fogo saindo da boca. Mais tarde reconhece como ave o assobio antes atribuído ao ser sobrenatural.
O que este depoimento acrescenta: O relato mostra, dentro do mesmo texto, a passagem entre a imagem aprendida na infância e uma explicação natural.
22Um anônimo do sul de MinasO filho protegido pelo barrete vermelho
O autor conta que demônios escaparam de uma festa infernal e que apenas o Saci evitou a captura. Histórias de pai Adão, vespas, tia Liberata e uma panela quebrada apresentam um ser mais traquinas que cruel. Seu barrete teria sido um presente divino que o protegia até do Diabo.
O que este depoimento acrescenta: É uma origem popular inventiva, na qual referências cristãs e humor doméstico se misturam sem formar uma doutrina religiosa.
23José VieiraDo rosário obrigatório ao medo de soldados
Na infância, a mãe ameaçava chamar o Saci quando alguém faltava ao rosário da noite. Tia Rita enumerava confusões na cozinha, no casamento e no batismo. O autor observa que as crianças de Casa Branca já zombavam do personagem, embora temessem outras autoridades, como soldados.
O que este depoimento acrescenta: A mudança do medo infantil revela que as figuras usadas para disciplinar crianças acompanham as transformações sociais.
24Manoel Lopes — adendosUm catálogo de nomes, regras e exceções
Este bloco adiciona uma quantidade incomum de variantes: Saci avisador, casamenteiro, abridor de fechaduras e ave de agouro; rituais com machado; relações com padrinhos, noivas, viúvas, órfãos e cupinzeiros; milho branco, dedos anormais, araponga, gato, bode e choro. Nem todas as informações pertencem à mesma região.
O que este depoimento acrescenta: O valor do texto está justamente na desordem: ele prova quanto a tradição era móvel e podia anexar motivos de muitas procedências.
25Belmiro AranhaTio Cosme, o fumo e a flor da samambaia
O Saci gosta de tabaco. Quando tio Cosme atira, a criatura devolve fumaça e chumbo; bentinho e alho oferecem proteção. O depoimento também liga o personagem à flor encantada da samambaia, procurada na Sexta-feira Santa. Um fazendeiro amedrontado manda o pajem cavalgar atrás dele.
O que este depoimento acrescenta: A criatura aparece como guardião de um segredo mágico e adversário que não pode ser vencido apenas com arma de fogo.
26José dos SantosUm encontro a cavalo entre Jaguari e Amparo
Em linguagem próxima da fala, José diz ter visto uma figura negra, nua, de uma perna, com rabo e pano vermelho, montada num cavalo. Uma invocação religiosa a manda embora. No final, afirma que o Saci não pode ser fixado com segurança em barro ou pintura.
O que este depoimento acrescenta: O próprio depoente põe em dúvida qualquer retrato definitivo do personagem, ideia central para ler o livro inteiro.
27Um casmurro — C. C.O cético, os cavalos e dois rosários furtados
Mesmo assumindo a pose de descrente, o narrador recorda animais que corriam misteriosamente durante a noite. Zé Marinho culpa o Saci. Rosários roubados e colocados sobre Brazão e outro cavalo teriam parado as correrias, criando um problema moral tão cômico quanto a solução sobrenatural.
O que este depoimento acrescenta: A história ri da credulidade, mas também do cético: ninguém sai completamente ileso da brincadeira editorial.
28O próprio SaciUma carta apócrifa que contesta o inquérito
Numa peça satírica, o próprio personagem reclama dos retratos e insultos publicados. Diz ser caboclo, não negro, ter duas pernas e pés virados para trás, além de muitos nomes. A voz inventada reúne contradições e devolve aos pesquisadores a pergunta: afinal, quem tem autoridade para defini-lo?
O que este depoimento acrescenta: Não é uma fonte oral independente, mas um recurso literário que expõe desacordos raciais, regionais e iconográficos do material reunido.
29Symphoroso AmericoLêlê, o filho do Diabo e o soneto final
A velha Lêlê apresenta o Saci como filho de um Diabo antigo e perneta. Ele rouba café e cachaça, monta cavalos e teria atacado Zé Fernandes. O cansaço de um pônei e marcas encontradas no animal servem de confirmação para os moradores. O colaborador encerra com versos.
O que este depoimento acrescenta: O episódio mostra como vestígios cotidianos podiam receber uma explicação sobrenatural e depois ganhar acabamento literário.
30J. D. Machado CésarAs árvores que se levantavam novamente
Um casal recém-casado derruba árvores que aparecem de pé no dia seguinte. A experiente Generosa ensina a retirar um encanto enterrado, distraindo o Saci com cipós embaraçados. A curiosidade vence a cautela: ao abrir o recipiente, os participantes libertam vespas e saem feridos.
O que este depoimento acrescenta: É uma narrativa completa de prova, instrução e castigo, movida menos pelo monstro que pela curiosidade humana.
31Fabricio JuniorA asa-peixe, a ponte e a casa maçônica
Fabricio oferece uma descrição assustadora e associa o Saci à árvore chamada asa-peixe, à forma de pássaro, a pontes e porteiras. Chico nega fumo e fogo e depois apanha. O texto ainda passa por um pesadelo numa casa maçônica e por outros prodígios locais.
O que este depoimento acrescenta: O depoimento mistura motivos tradicionais com medos sociais do momento, sem permitir separar cada camada com certeza.
32Um anônimo — ItatingaO incêndio atribuído ao Saci
Uma queimada controlada escapa, alcança café e cana e causa grande prejuízo. Nhô Samé diz que o Saci saiu voando da fumaça levando fogo. O colaborador mantém distância da explicação e transforma o caso num alerta sobre queimadas feitas em dia santo.
O que este depoimento acrescenta: A história sobrenatural nasce ao lado de um risco rural concreto: fogo mal controlado.
33Polycarpo BicudoO encontro contado por um homem que viveu a escravidão
Um ancião negro descreve uma figura de uma perna e rosto de macaco entre insetos e vento. Rezas e uma figa afastam a aparição. Anos depois, o narrador ouve o mesmo chamado semelhante ao de uma ave; duvida da entidade, mas não do som que alimentava a crença.
O que este depoimento acrescenta: O testemunho é importante pela cadeia de transmissão e pela convivência entre observação natural, memória da escravidão e leitura sobrenatural.
34BaependyO Saci dentro da panela
Caracol nas verduras, mosca no arroz, barata no feijão e ave na canjica: o texto atribui ao Saci uma sucessão de contaminações e desastres culinários. A travessura também serve para censurar o descuido de quem cozinha.
O que este depoimento acrescenta: É um exemplo claro do Saci como explicação doméstica e personagem de uma pequena moral sobre atenção e limpeza.
35Vieira LessaA mão de Isaura transformada em Saci
Enquanto dona Cândida dorme e repete o rosário, Isaura, mulher escravizada, faz cafuné. Ao ser atingida, a senhora desperta assustada; diante dos outros, Isaura confirma a versão sobrenatural, mas depois admite que a mão tomada por Saci era a sua própria.
O que este depoimento acrescenta: O caso permite ver como o sobrenatural podia oferecer uma margem prática de ação a quem vivia sob poder e vigilância.
36A. C.A casa de Juca Rego e a brasa na estrada
Na casa de Juca Rego, milho, comida, utensílios, lixo e marcas de carvão aparecem fora do lugar; por fim, surge fogo. Em outra cena, Antonio Polycarpo diz que um Saci negro, de lábios vermelhos, cavalgou atrás dele com uma brasa acesa até o canto do galo.
O que este depoimento acrescenta: O texto aproxima dois tipos de relato: a casa perturbada por objetos e a perseguição noturna a cavalo.
37A. ReinkeUma teoria sobre a fabricação das assombrações
Reinke trata a crença como contágio e reúne Saci, mula, fantasma, Caipora, lobisomem e Diabo. Seu Saci muda de forma e interfere em casas e animais. As explicações raciais e evolucionistas usadas pelo autor pertencem ao pensamento de sua época e hoje são inadequadas.
O que este depoimento acrescenta: É útil como documento de 1917, mas não deve ser lido como ciência atual sobre cultura ou população brasileira.

Depoimentos 38 a 57: moinho, rio, cozinha, poesia e sátira
O personagem atravessa ambientes muito diferentes. Ele pode desarranjar um moinho, aparecer num barco, entrar numa panela, inspirar poema ou oferecer uma explicação para uma queimada. O conjunto não separa rigidamente relato, conto e comentário.
38Renato BarrosO moinho, a cruz e uma hipótese de origem
Em Casa Branca e Minas, o Saci desarranja o moinho até que uma cruz seja colocada. Também aparecem fogo num monte de café e rosários atirados em redemoinhos. Barros propõe uma origem indígena depois transformada pela tradição negra e faz um apelo nacionalista.
O que este depoimento acrescenta: A hipótese antecipa o interesse pela mistura de tradições, mas precisa ser comparada a estudos posteriores e não tomada como conclusão final.
39Joaquim Queiroz FilhoUma biografia do Saci em versos
O poema imagina um menino de duas pernas que perde uma delas num poço, escurece no incêndio que provocou e depois vira pássaro. Trata-se de uma genealogia brincalhona, criada em versos, e não de uma origem histórica comprovada.
O que este depoimento acrescenta: A peça mostra como o inquérito estimulou os colaboradores a inventar literatura a partir do repertório popular.
40H. SallesAdão, a coisa quente e o ataque aos cabelos
Adão, homem que havia sido escravizado, conta que pisou numa coisa quente e mole. Uma figura parecida com macaco atacou seus cabelos e depois montou um cavalo. Pela manhã, crina e rabo estavam trançados e o corpo do animal apresentava arranhões.
O que este depoimento acrescenta: As marcas no cavalo atuam como prova narrativa de uma experiência noturna que ninguém mais presenciou.
41Juca do ParyÀs margens do Tamanduateí
Um homem diz ter lutado com o Saci perto do rio Tamanduateí e quase ter sido levado para a água. Um jovem trabalhador negro relata redemoinho e crina trançada; uma cruz feita com carne de porco salgada desfaria o nó. O narrador mantém postura desconfiada.
O que este depoimento acrescenta: A paisagem hoje urbana aparece ainda como beira de rio, caminho perigoso e espaço de tradição rural.
42J. Pereira da SilvaSacy-saderê na encruzilhada
O autor prefere o nome Sacy-saderê e cita Ezequiel Freire. Bonifácio e um capataz veem um cavaleiro de barrete vermelho castigando o animal; um grupo armado o espanta. Sexta-feira, entardecer e encruzilhada formam o cenário esperado.
O que este depoimento acrescenta: A autoridade escrita e o caso oral são postos lado a lado para reforçar uma versão regional.
43BandeiranteO carro de bois, a tocaia e a Sexta-feira Santa
Uma família percebe uma figura seguindo o carro de bois. Numa vigília, moradores veem o Saci pegar arreios e escapar por entre as pernas de quem tenta detê-lo. Em outro caso, um estudante segue na Sexta-feira Santa uma figura negra e desmaia diante de uma careta.
O que este depoimento acrescenta: O colaborador oferece vários casos apresentados como verdadeiros, unidos pela tentativa frustrada de identificar e agarrar a criatura.
44Carlos d’EçaTia Balbina e a imigração que mudava o interior
A versão de infância usa roupa vermelha e cavalga animais. Tia Balbina saberia chamar e prender o Saci com um rosário. O autor relaciona o enfraquecimento da crença à imigração estrangeira e ainda conta um carro de bois derrubado depois que a criatura atravessa o caminho.
O que este depoimento acrescenta: O depoimento transforma uma mudança demográfica de São Paulo em explicação para a transformação do folclore.
45Fernando GuimarãesA rede vazia que rangia
Dois irmãos, em Pau Arcado, ouvem uma rede desocupada ranger. Mesmo depois de removida, o ruído de argolas continua. Quando a porta é aberta, um menino de uma perna sai entre gargalhada ardente e cheiro de enxofre.
O que este depoimento acrescenta: A cena é construída como conto de casa assombrada, com som, expectativa e revelação final.
46M. A. Sant’AnnaUma roda de Sacis no barco dos pescadores
Na costa, o Saci-paterê pode ser ave negra que salta numa perna e monta animais agarrado ao rabo. Pescadores adormecidos em canoas veem um grupo de Sacis de gorro vermelho empurrar o barco. Cruz e Credo dispersam-nos em fumaça com cheiro de enxofre.
O que este depoimento acrescenta: O depoimento leva o personagem da fazenda para a água e sugere que cada meio de trabalho adaptava a lenda a seus próprios perigos.
47Luiz FleuryTia Catharina, autossugestão e a perda do medo
Fleury parte das histórias de tia Catharina e admite que ele próprio aumentava o horror. Fala do barrete que produziria ouro ilusório se não estivesse benzido, de um descrente agarrado pelos cabelos até rezar e de entrevistas sobre poeira, canjica e rosário. Ao longo do texto, sua crença se desfaz.
O que este depoimento acrescenta: É um raro depoimento em que o narrador observa como imaginação e repetição podem fortalecer uma assombração.
48MelchiorO tabaco trocado e a carona até o enterro
Um casal idoso descobre esterco de cavalo no lugar do fumo. Ao vigiar, vê um Saci nu fumando; uma cruz de cedro interrompe a brincadeira. Em outro episódio, o mensageiro de um funeral carrega sem perceber a criatura na garupa até a porteira.
O que este depoimento acrescenta: A primeira história nasce de um objeto adulterado; a segunda transforma o deslocamento para um rito de morte em viagem sobrenatural.
49CésarArmadilhas, cavalos e a promessa de ouro
O texto junta travessuras na fazenda e animais inquietos. Um caboclo consegue prender o Saci com um rosário feito de capim, toma-lhe o barrete e pede ouro. A negociação não oferece a segurança esperada, pois a criatura continua sendo mestre em enganar.
O que este depoimento acrescenta: Capturar o Saci nunca significa controlá-lo por completo; a astúcia é mais importante que a força.
50Ulysses de Souza e Silva — em versoA flor da samambaia e o Saci amoroso
O poema aconselha a não procurar a flor da samambaia numa noite sagrada, pois o Saci a guarda. Aos poucos, a aventura se torna imagem amorosa: olhos e boca da pessoa desejada assumem a força do Saci e da flor encantada.
O que este depoimento acrescenta: A tradição é usada como matéria lírica, não como depoimento literal de aparição.
51J. S.O monjolo lento e o cachimbo explosivo
Quando um monjolo perde força por mudança no curso da água, o problema é atribuído ao Saci. Noutra história, um velho põe pólvora no cachimbo; a explosão afugenta a criatura que vinha furtar fumo.
O que este depoimento acrescenta: As duas cenas mostram respostas opostas: uma explicação técnica para o mistério e uma armadilha cômica dentro da própria crença.
52L. P. S.Nhô Urbano e a sombra que apagou a lamparina
Nhô Urbano descreve um Saci de uma perna terminada como bola e repete histórias de cavalos. Numa casa de fazenda, uma silhueta atravessa o ambiente e a luz se apaga. Narrador e ancião rezam sete pais-nossos e sete ave-marias. O autor admite não ter prova, mas respeita a convicção do informante.
O que este depoimento acrescenta: A hesitação entre dúvida e confiança em quem contou é uma das marcas mais honestas do volume.
53Ulysses de Souza e Silva — em prosaO retorno a São José dos Botelhos
Ulysses volta à cidade e procura antigos narradores. Balbina teria apanhado ao colher uma erva; seguem-se várias travessuras e a história de um bócio curado quando o Saci o lança em gordura quente. A conclusão é uma despedida nostálgica de um mundo de crenças.
O que este depoimento acrescenta: O texto faz do retorno ao lugar de infância uma investigação de memória, embora algumas explicações médicas sejam apenas folclóricas.
54João SilvaUm encontro de dia e um urso à cabeceira
O autor situa em 1897 ou 1898 a visão diurna de um menino negro e robusto, cabelo dourado e bastão, que salta por cima do cavaleiro. Depois conta que um urso negro aparecia ao lado de sua cama, dizia ser o Saci e acabava virando companhia quase amigável.
O que este depoimento acrescenta: O relato cruza visão, sonho e humor; o próprio narrador brinca com a ideia de ter carregado o Saci dentro de si.
55Zé CaiporaA rara resposta vinda do Ceará
No Ceará, informa o colaborador, o ser correspondente é chamado Caipora. Tem duas pernas, usa barrete ou pena vermelha, cavalga porco-do-mato, pede fumo e cachaça e ajuda ou pune caçadores. A descrição não coincide por completo com o Saci paulista.
O que este depoimento acrescenta: É o único depoimento claramente nordestino localizado no conjunto e alerta contra a fusão automática de personagens regionais diferentes.
56AnônimoCobertor puxado, madeira trazida e muita dúvida
Chico Manuel vê algo arrastando um cavalo; estudantes de internato sentem o cobertor ser puxado; uma mulher deseja lenha e acredita que o Saci a trouxe. O autor, cético, atribui especialmente o último caso à autossugestão.
O que este depoimento acrescenta: O depoimento preserva os relatos sem abandonar a possibilidade de uma explicação psicológica.
57V. Orozimbo dos SantosCinco anos de perturbação depois de uma praga
Antes de um mutirão, Chico de Paula amaldiçoa o mau tempo e invoca o Diabo. A casa passa anos sob ataques: objetos se movem, crianças e visitas são incomodadas. A sequência termina quando a presença é expulsa a golpes.
O que este depoimento acrescenta: A longa assombração funciona como consequência moral de palavras imprudentes e aproxima o Saci de histórias de casas tomadas por espíritos.

Depoimentos 58 a 73: ave, companheiro, assombração e música
Os últimos textos reforçam a instabilidade do personagem. O Saci pode ser parceiro de Dindinha, assombração fatal, nome de um tinteiro, truque eleitoral, canto de ave ou personagem de polca. O derradeiro conto adapta uma história internacional de cura e castigo.
58Hugo RibeiroO Sacy-çaperê de Iguape e Iporanga
Hugo registra que, à pergunta sobre a noite, a criatura responde que ela está escura. Durante o dia, seria invisível, mas reconhecida pelo canto de ave. Numa viagem com uma oferta do Divino, o milho salta para o rio e os viajantes dizem ver o Saci.
O que este depoimento acrescenta: O texto apresenta a crença como ainda viva no vale do Ribeira e conserva uma fórmula de pergunta e resposta ligada ao assobio.
59JoaquimDindinha e o Saci ajudante
Dindinha trata o Saci como aliado e deixa um ovo para ele todas as noites. Em troca, a criatura encontra uma tabaqueira perdida e causa prejuízo a um adversário político. Anos depois, o narrador volta e encontra a oferta ainda mantida, enquanto lamenta o fim da poesia da infância.
O que este depoimento acrescenta: Nem todo Saci é inimigo: a relação pode ser de troca, proteção e cumplicidade.
60Fonseca SobrinhoO Campo do Saci e a queda no abismo
Depois de descrever uma variante de Paraisópolis, o colaborador conta a história de um fazendeiro orgulhoso que constrói num lugar assombrado. A perseguição cresce apesar das cruzes. No desfecho, o Saci domina um jumento e lança o cavaleiro num precipício.
O que este depoimento acrescenta: É uma das narrativas mais sombrias do livro e transforma a teimosia diante dos avisos numa tragédia.
61Nestor BertoneA noite de abrigo e as roupas sob a ponte
Bertone conta que tinha 13 anos quando um grupo se abrigou durante uma viagem. Ele vê uma figura negra junto ao fogo, brasas sob os pés e cobertores puxados. Todos despertam perto do rio, com as roupas debaixo da ponte. O rapaz perde a fala e só a recupera por volta das nove horas da manhã.
O que este depoimento acrescenta: A hora da recuperação não é a idade do narrador: o texto distingue os 13 anos do jovem das cerca de nove horas em que voltou a falar.
62Jacques FelixUm depoimento sem história de Saci
Jacques Felix deriva por comentários humorísticos, referências a Taubaté e ao ditador paraguaio José Gaspar Rodríguez de Francia. Não entrega uma narrativa propriamente dita sobre o personagem.
O que este depoimento acrescenta: Incluí-lo sem inventar um caso é importante: o livro reúne respostas desiguais e algumas quase abandonam a pergunta original.
63Constante leitorO Saci na política eleitoral
Uma simpatia eleitoral amarra na rede um nó representando a perna do Saci e faria o adversário desistir. A criatura ainda leva a culpa pelo casamento de um padre com uma viúva. O texto usa a superstição para comentar costumes e disputas locais.
O que este depoimento acrescenta: É sátira política, prova de que o Saci já funcionava como linguagem para falar de assuntos muito além da mata.
64Procopio SilvestreUma teoria de importação e o soneto da Mãe d’Água
Procopio sustenta, com argumentos hoje datados, que muitos mitos teriam sido importados e que o Saci seria uma transformação de Satanás no Brasil. No litoral de Santos, ele provocaria pescadores e poderia ser afastado religiosamente. Um soneto final o põe a trançar os cabelos da Mãe d’Água.
O que este depoimento acrescenta: A parte teórica não representa consenso atual; o interesse maior está no encontro entre folclore, opinião e poesia.
65Saul DelphinoO menino amaldiçoado no cemitério
A origem proposta fala de um menino maldoso que atormenta o guardião de um cemitério. Uma maldição o deixa com uma perna, olhos de fogo, gorro vermelho e vida noturna. O autor compara a história às explicações populares para lobisomem, Caipora, mula e Canhambora.
O que este depoimento acrescenta: É outra origem narrativa, diferente das demais, e não um registro histórico sobre o nascimento do mito.
66Dodó CarneiroUm depoente de 14 anos e as histórias de Iguape
O jovem reúne casos ouvidos de um comerciante idoso: o Saci fala pelo buraco da fechadura, senta-se numa estátua de frade e foge diante do rosário. Outra testemunha vê uma figura nua com uma perna normal e outra voltada para trás, que pede fogo e beijos. A distância do assobio é percebida de modo invertido.
O que este depoimento acrescenta: O texto é rico em variantes, mas contém vocabulário racial ofensivo do período; a informação pode ser estudada sem repetir a desumanização.
67Jorge AyresTia Rita, Tristão e o encontro perto do canavial
Tia Rita usa criaturas sobrenaturais para disciplinar as crianças. Tristão encontra o Saci perto de um canavial e de uma ponte, segue-o e tenta enfrentá-lo. A descrição cresce até uma figura monstruosa, e uma oração se torna a saída.
O que este depoimento acrescenta: A narrativa mostra como uma imagem de infância pode ganhar detalhes cada vez mais fortes quando é recontada como experiência adulta.
68MineiroO tinteiro em forma de Saci
Um tinteiro moldado como Saci, pertencente ao poeta Aureliano Lessa, inspira versos e uma anedota final. À beira da morte, o poeta recusa o pedido de um padre para afastar a pequena figura e improvisa uma resposta bem-humorada.
O que este depoimento acrescenta: Aqui o personagem é objeto artístico e companheiro de escrita, não uma aparição no campo.
69S. — TaubatéO cocho deslocado e o assobio que muda de lado
Chico Raymundo atribui ao Saci um cocho pesado movido, um cachimbo quebrado e assobios alternados. Outro cavaleiro sente o som, dores no pescoço e cócegas. Atirar um rosário dentro do redemoinho seria a forma de prender a criatura.
O que este depoimento acrescenta: O relato aproxima força impossível, som sem fonte e sensação corporal para construir a presença do invisível.
70Luigi CappalungaUma caricatura de imigrante em São Paulo
Em voz ítalo-portuguesa fabricada para produzir humor, o narrador volta à São Paulo de 1857 e diz ter capturado um jovem Saci de duas pernas para trabalhar numa oficina. O texto chama meninos negros encontrados nas estradas de Sacis.
O que este depoimento acrescenta: A peça é sátira marcada por xenofobia e racismo, não descrição neutra de imigrantes nem de crianças negras. Sua inclusão exige contextualização explícita.
71Angelo Med.Pesadelos, brincadeiras e a psicologia do medo
O colaborador lembra pesadelos infantis e dores fingidas para dormir perto da mãe. Companheiros se apavoram com o suposto chamado do Saci, reforçado pelas histórias de tio Bento. A atenção se volta para a maneira como medo, cuidado e memória trabalham juntos.
O que este depoimento acrescenta: É um depoimento especialmente claro sobre o efeito das narrativas no corpo e no comportamento das crianças.
72S. Nogueira de LimaO assobio, a ave e uma polca chamada Sacy-Perêrê
O autor descreve o canto em que um Saci pareceria chamar outro e identifica uma ave de brejo associada ao som. A contribuição inclui ainda a partitura de uma polca intitulada Sacy-Perêrê.
O que este depoimento acrescenta: É um encontro raro de observação de aves, onomatopeia e música impressa dentro da história do personagem.
73BrasilophiloQuim Cara-cará, os Sacis dançarinos e dois bócios
No conto ambientado em Jacuí, Quim Cara-cará encontra Sacis dançando, acerta a canção e tem retirado o bócio. Zeca, invejoso, troca as palavras e os dias; em vez de cura, recebe o bócio que faltava. O enredo lembra o conto internacional dos dois corcundas, adaptado ao Saci.
O que este depoimento acrescenta: Brasilophilo foi acrescentado na edição em livro. A moldura traz preconceitos do período que precisam ser criticados, mas o núcleo revela como um motivo viajante foi abrasileirado.
O livro também foi uma experiência visual e publicitária
O inquérito não ficou restrito às palavras. Ainda em 1917, o jornal promoveu uma exposição dedicada ao Saci. A edição em livro reproduziu trabalhos artísticos, entre eles aquarelas de Alfredo Norfini. J. Wasth Rodrigues fez a capa original.
Há um cuidado importante: Wasth morreu em 1957. Pela regra brasileira de proteção por 70 anos contados a partir do ano seguinte à morte, suas obras entram em domínio público apenas em 1º de janeiro de 2028. Por isso, esta página descreve a capa e oferece acesso ao fac-símile, mas não hospeda uma cópia dela.
Já as aquarelas de Norfini e as ilustrações publicitárias de Voltolino estão em domínio público no Brasil. Voltolino criou anúncios especialmente desenhados para combinar marcas comerciais com o Saci. Eles ajudavam a financiar a impressão e transformavam as páginas iniciais e finais numa pequena galeria de humor gráfico.
Todos os anúncios acima são de Voltolino e foram reproduzidos da edição de 1918. Obras em domínio público; digitalização consultada no Internet Archive.
“Conjecturas ethnographicas” e o Epílogo
Depois dos depoimentos, o livro não termina simplesmente. José Antonio Nogueira apresenta “Conjecturas ethnographicas”, tentando ordenar o Saci por meio de ideias sobre raça, origem e evolução cultural. Lobato fecha com um “Epílogo” que retoma o debate e o humor.
Esses textos documentam como intelectuais do início do século XX pensavam o Brasil, mas empregam categorias que hoje não têm validade científica. A cultura popular não pode ser dividida em contribuições raciais puras como se cada povo trouxesse uma peça imutável. Tradições se encontram, mudam, viajam e ganham novos sentidos.
O contraste é revelador: os 73 depoimentos mostram versões múltiplas e contraditórias; as conclusões tentam encaixá-las num sistema. Para o leitor atual, a multiplicidade costuma ser mais informativa do que a velha classificação.
Este não é o mesmo livro que O Saci, de 1921
Os títulos semelhantes causam confusão. O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito é a coletânea de 1918, voltada para testemunhos, comentários e documentos. O Saci, publicado em 1921, é uma narrativa de ficção na qual Pedrinho encontra o personagem e vive aventuras.
Há uma relação clara entre as obras: o inquérito forneceu a Lobato um vasto repertório de gestos, poderes, lugares e proteções. Mas o escritor não transportou 73 versões para uma única história. Selecionou características, reorganizou-as e construiu o Saci literário que se tornaria famoso.
O que o livro prova — e o que ele não prova
| O que podemos afirmar | O que exige cautela |
|---|---|
| Leitores e informantes conheciam muitas versões do Saci em 1917. | O livro não representa todas as regiões nem toda a população brasileira. |
| As narrativas ligavam o personagem a cavalos, vento, noite, assobios, cozinha e medo infantil. | Um relato impresso não comprova a existência física da criatura. |
| Pessoas negras e trabalhadores rurais foram transmissores importantes das histórias citadas. | Não se pode reduzir o personagem a uma origem racial única. |
| Lobato selecionou, editou e comentou o material. | Não temos os originais de todas as cartas para reconstruir cada mudança. |
| O volume teve impacto na imagem pública do Saci. | Ele não criou sozinho o personagem, que já existia na tradição oral e em registros anteriores. |
Por que O Sacy-Pererê ainda importa
O livro importa porque guarda diferenças. Antes que televisão, publicidade, escola e mercado editorial popularizassem uma imagem quase uniforme, os colaboradores ainda descreviam Sacis incompatíveis entre si. Essa variedade é uma pista de como o folclore funciona: não como um texto decorado, mas como uma conversa transmitida e refeita.
Também importa pelos problemas que expõe. A coletânea valoriza histórias populares e, ao mesmo tempo, subordina muitas vozes ao filtro de homens letrados. Combate a imitação europeia, mas usa teorias raciais europeias. Convida todos a falar, mas alcança sobretudo a rede de um jornal paulista.
Ler o inquérito com atenção é aceitar essas duas dimensões. Não é necessário transformar Lobato em herói sem falhas nem jogar fora um arquivo complexo. É possível reconhecer a invenção editorial, recuperar os narradores escondidos e questionar o poder que definiu como suas vozes chegariam ao papel.
O resultado continua vivo. Artistas redesenham o personagem, pesquisadores retornam aos textos, educadores discutem a obra e leitores encontram nela Sacis que não conheciam. O Mural do Saci do Sacip mostra como o retrato continua mudando mais de um século depois.
Uma pesquisa pioneira, mas não uma fotografia neutra do Brasil
O Sacy-Pererê preserva 73 textos e dezenas de histórias que poderiam ter desaparecido. Seu valor cresce quando entendemos seus limites: amostra concentrada em São Paulo, autoria desigual, edição ativa de Lobato e linguagem racial de época. Lido com contexto, o livro não oferece “a verdadeira aparência” do Saci. Oferece algo mais interessante: um mapa das disputas para imaginá-lo.
Onde ler a obra completa
O texto de 1918 está em domínio público. O Internet Archive disponibiliza um fac-símile integral da edição reproduzida em 1998. A Biblioteca Nacional mantém registro bibliográfico da obra. Para uma releitura visual contemporânea, o projeto ArteSaci reuniu artistas no centenário.
Fontes e referências
- LOBATO, Monteiro. O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito. São Paulo: Secção de Obras de O Estado de S. Paulo, 1918. Fac-símile da edição de 1998 consultado integralmente.
- Biblioteca Nacional. Registro bibliográfico de O Sacy-Perêrê.
- CAMARGO, Evandro do Carmo. Um estudo comparativo entre O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito (1918) e sua fonte, o jornal O Estado de S. Paulo (1917). Dissertação, Unesp, 2006.
- PRADO, Amaya Obata Mouriño de Almeida. Pesquisa acadêmica sobre o inquérito e as representações do Saci.
- COSTA, Andriolli de Brites da. Estudo sobre memória, testemunho e as vozes reunidas pelo inquérito.
- QUEIROZ, Renato da Silva. Artigo no Revista do Instituto de Estudos Brasileiros sobre o Saci e sua interpretação cultural.
- VIEIRA, Deborah. Estudo da USP sobre Monteiro Lobato, imprensa e o inquérito do Saci.
- Museu Histórico Nacional. Registro de autoridade de Alfredo Norfini.
- Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Perfil do ilustrador Voltolino.
Os 73 resumos foram conferidos no fac-símile integral e comparados com pesquisas acadêmicas. As imagens desta matéria são reproduções reais de páginas e obras da edição histórica; nenhuma foi gerada por inteligência artificial. Cortes servem apenas para leitura em tela, sem alterar o conteúdo documental. Datas, quantidade de textos e tiragem foram apresentados com suas divergências.











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