Na São Paulo dos anos 1940, Ruth Guimarães atravessava o centro para trabalhar quando reparou nas conversas de escritores reunidos na Drogaria Baruel. Entrou, falou do romance que já havia escrito e, segundo o relato que deu décadas depois a pesquisadores, encontrou ali o caminho até a editora. Água Funda sairia em 1946. A cena não é uma descoberta casual de alguém sem história: Ruth já lia, trabalhava, escrevia e carregava consigo as vozes do Vale do Paraíba e do sul de Minas.
Romancista, tradutora, jornalista e pesquisadora do folclore, ela prestou atenção ao modo como as pessoas do interior contam o medo, lembram o trabalho e explicam o mundo. Filhos do Medo, de 1950, pesquisou crenças em torno do diabo; Água Funda fez a oralidade caipira entrar no centro da ficção. Para entender sua importância, vale ler as duas obras lado a lado e escutar as pessoas de quem vieram as histórias.
Quem foi Ruth Guimarães?
Ruth nasceu em 13 de junho de 1920 em Cachoeira Paulista, no Vale do Paraíba. O Instituto Ruth Guimarães situa o sítio do avô materno entre o rio Paraíba do Sul e os trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil. Viveu parte da infância em uma fazenda no sul de Minas Gerais; voltou a Cachoeira e, ainda menina, publicou versos em jornais locais. Mais tarde se mudou para São Paulo, estudou, trabalhou em repartições e editoras, escreveu para jornais e revistas e se formou como pesquisadora.
Uma pesquisa publicada em Cadernos Pagu, com entrevistas feitas com Ruth em 2008 e 2009, mostra o peso do trabalho nessa trajetória. A escritora contou que sustentou e ajudou a criar os irmãos depois da morte dos pais. O emprego, a máquina de escrever e os deslocamentos pela cidade aparecem em sua lembrança sobre a escrita do primeiro romance. Essa experiência de quem trabalhava para viver é parte da história de sua produção literária.
Seu ofício atravessou gêneros. Publicou ficção e estudos sobre tradições populares, traduziu autores como Apuleio, Balzac e Dostoiévski, lecionou e escreveu crítica e crônica. O perfil da Academia Paulista de Letras registra ainda sua participação em instituições culturais de Cachoeira Paulista. Reduzi-la a uma única obra apagaria o tamanho do trabalho que realizou.
O Vale, os trilhos e as vozes da infância
Há uma geografia concreta por trás da literatura de Ruth: o rio, a ferrovia, a fazenda, as casas e os caminhos entre o Vale do Paraíba e a Mantiqueira. Ela não reproduziu simplesmente uma paisagem. A lembrança da infância alimentou personagens, modos de falar, receios e relações sociais que ganhariam outra vida na página.
Na entrevista estudada em Cadernos Pagu, Ruth recorda que, depois do nascimento em Cachoeira Paulista, passou os primeiros anos em uma fazenda mineira e que os avós a criaram quando ficou órfã. Relatos de infância são memórias contadas muito depois: ajudam a compreender sua formação, mas não permitem identificar cada personagem de romance com uma pessoa real. Também não autorizam dizer que a estação fotografada na capa ou a paisagem mineira abaixo retratem o tempo em que ela era criança.
Essa diferença entre lembrança, documento e ficção importa para o folclore. As narrativas não surgem de um lugar imóvel, à espera de um escritor. Pessoas as contam enquanto trabalham, viajam, criam filhos, enfrentam perdas e transformam suas comunidades. Ruth levou parte dessa experiência para a literatura sem que as versões populares deixassem de ter vida própria.
O que Água Funda conta?
Publicado em 1946, o romance se passa no universo rural da fazenda fictícia Olhos d’Água, entre o sul de Minas e o Vale do Paraíba. A vida das famílias, as diferenças entre proprietários e trabalhadores, o tempo da terra e as mudanças econômicas aparecem filtrados por uma voz que conhece ditados, conversas e histórias do lugar. Há gente que ama, teme, negocia e sofre; nenhuma lenda esgota o livro.
A Mãe de Ouro percorre a trama. Estudos como o ensaio publicado na Aletria, da UFMG, a leem como uma chave simbólica da história. A presença do encantado não precisa ser tratada como uma decoração exótica. Ela interfere na maneira como os personagens interpretam perda, desejo e transformação, ao lado das relações materiais da fazenda.
Há também disputa sobre como ler o romance. Uma leitura pode destacá-lo como expressão da cultura caipira; outra examina a escravidão, a terra, o poder e a modernização que atravessam aquele universo. Pesquisas recentes ampliam a conversa com Antonio Candido e com a recepção da estreia, sem exigir que uma interpretação encerre as demais. O texto de Ruth vale pela invenção literária e pelas perguntas que permite fazer ao passado e ao presente.
Filhos do Medo: ouvir as formas de contar o assombro
Em 1950, Ruth publicou Filhos do Medo, uma pesquisa sobre crenças ligadas ao diabo e a outras figuras do medo no imaginário vale-paraibano. A bibliografia do Instituto traz o título como Filhos do Medo; há registros de edições e referências com Os Filhos do Medo. A variação editorial não indica duas pesquisas distintas.
Ruth se aproximou de uma tradição de coleta e estudo do folclore brasileiro que inclui Mário de Andrade. A escritora disse, em entrevista, que mostrou partes da pesquisa a Mário. Seu filho Joaquim Maria Botelho, em prefácio publicado pelo Instituto, recorda o incentivo recebido. Trata-se de depoimentos retrospectivos sobre a relação entre eles; não apresentamos uma carta original como se ela tivesse sido consultada aqui.
Pesquisar o medo é mais do que fazer uma lista de criaturas. Pergunta-se quem nomeou o perigo, em que circunstância a história foi contada e que explicação a comunidade encontrou para uma experiência difícil. As versões mudam de casa para casa e de geração para geração. Ao lado de outras lendas de assombração e suas regras sociais, o livro oferece material para observar a relação entre crença, convivência e poder.

Lendas, simpatias e Pedro Malasarte
A atenção de Ruth à cultura popular não se encerrou no segundo livro. Em Lendas e Fábulas do Brasil (1972), reuniu narrativas de diferentes repertórios. O Mundo Caboclo de Valdomiro Silveira (1974) se voltou ao autor que também escreveu sobre o interior. Medicina Mágica: As simpatias (1986) tratou de práticas populares ligadas a cuidados e cura. Calidoscópio: A Saga de Pedro Malazarte (2006) retomou uma figura de esperteza e circulação por histórias orais.
Esses títulos não dão uma definição única de “povo” ou “tradição”. Uma simpatia pode ser prática de cuidado, crença, memória familiar ou tema literário, dependendo de quem a realiza e de como é narrada. É importante não tomar um registro antigo como recomendação médica, nem supor que uma versão publicada seja a única forma correta de contar uma lenda. O mesmo vale para o Saci: o inquérito de Monteiro Lobato registra vozes e escolhas editoriais de seu tempo, mas não contém toda a tradição.
Além dos livros, Ruth colaborou com a imprensa. A pesquisa de Cadernos Pagu identifica reportagens sobre costumes paulistas e a seção “Correio Folclórico” do Correio Paulistano, em trabalho ligado ao fotógrafo e jornalista José Botelho Netto, com quem foi casada. O jornal também era campo de pesquisa e meio de circulação de histórias para além do livro.
Uma mulher negra entre a literatura e as instituições
Ruth entrou em um meio editorial onde uma mulher negra precisava negociar trabalho, estudo, reconhecimento e acesso aos espaços de publicação. A trajetória não cabe numa narrativa de sucesso sem barreiras. O artigo de Cadernos Pagu reúne entrevistas e jornais para discutir justamente as possibilidades e limites de sua atuação em São Paulo.
Em 1948, no jornal negro Novo Horizonte, criticou um retrato de pessoas negras que as fixava apenas na escravidão e na resignação, segundo a análise daquela pesquisa. Defendeu que a vida negra contemporânea também fosse vista nos ofícios, nas cidades e na formação profissional. Isso não transforma todas as suas posições em um programa político uniforme; permite localizar uma intervenção concreta no debate cultural daquele momento.
A Academia Paulista de Letras registra sua posse em 18 de setembro de 2008. A pesquisa em Cadernos Pagu a identifica como a primeira escritora negra eleita para a instituição, fundada em 1909. O reconhecimento veio mais de seis décadas depois de Água Funda. Ruth morreu em 21 de maio de 2014. O Instituto Ruth Guimarães, dirigido por seus descendentes, mantém sua obra em circulação e oferece caminhos para pesquisadores e leitores.
Ruth Guimarães em datas
- Nasce em Cachoeira Paulista, às margens do rio Paraíba do Sul e perto da ferrovia.
- Publica o romance Água Funda.
- Publica a pesquisa folclórica Filhos do Medo.
- Sai Lendas e Fábulas do Brasil.
- Publica Medicina Mágica: As simpatias.
- Publica Calidoscópio: A Saga de Pedro Malazarte.
- Toma posse na Academia Paulista de Letras.
- Morre em Cachoeira Paulista; livros e pesquisas continuam a ser lidos.
Por que ler Ruth hoje?
Leia Ruth por sua maneira de construir uma voz literária que ouve o interior sem tratá-lo como cenário vazio. Leia também pelo trabalho de pesquisa: seus livros deixam rastros de crenças, palavras e modos de narrar que podem ser revisitados. E leia com atenção crítica às condições de produção de cada registro — quem contou a história, quando, em que relação com a pesquisadora e o que ficou de fora da página.
Há ainda uma pergunta editorial que importa ao Sacip: de quem é o direito de explicar o folclore? A resposta não pode ficar só com os nomes inscritos na capa de livros. Escritores e pesquisadores ajudam a guardar, transformar e disputar sentidos; narradoras, trabalhadores, comunidades e famílias continuam criando as histórias. A obra de Ruth permite juntar essas vozes em vez de encerrar a conversa. Para continuar, conheça também Câmara Cascudo e os limites de seu arquivo.
Fontes e leitura complementar
- Instituto Ruth Guimarães, “Vida e obra”. Dados biográficos, bibliografia e ofícios da escritora.
- Academia Paulista de Letras, perfil de Ruth Guimarães. Data de posse e bibliografia; o perfil foi redigido antes da morte da autora e conserva referências temporais daquela época.
- “Os acontecimentos de Ruth Guimarães (1920–2014)”, Cadernos Pagu, 2022. Estudo com entrevistas feitas em 2008–2009, jornais e discussão sobre trabalho, raça e reconhecimento.
- Joaquim Maria Botelho, prefácio de Filhos do Medo. Memória familiar e recepção da pesquisa; não substitui a consulta ao livro original.
- Biblioteca Nacional Digital, “Literatura: Ruth Guimarães”. Apresentação de sua obra e presença nos acervos da instituição.
- “Capitalismo como praga: Água funda, de Ruth Guimarães”, Aletria/UFMG. Interpretação recente do romance, da Mãe de Ouro e da modernização rural.
- Revista Leitura/UFAL, estudo sobre Água funda. Análise literária da fazenda Olhos d’Água e do universo do romance.
As imagens são fotografias de 2011 e 2015 e ilustram lugares relacionados à trajetória de Ruth. Não são retratos da escritora nem documentos visuais da década de 1940. As informações sobre a Drogaria Baruel, a infância e o encontro com Mário são atribuídas a entrevistas e memórias publicadas, não a documentos originais examinados nesta edição.



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