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História

Tipos de Saci: o que dizem os relatos, as imagens e os documentos

Os 77 nomes do inventário #OcupaSacy, 22 perfis, quatro pistas adicionais do Sesc ES, ilustrações identificadas e relatos do Saci em documentos de 1918.

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Atualizado em

Montagem com sete desenhos originais de Marcelo Bicalho nos almanaques OcupaSacy: Trique, Pererê, Repente, Siriri, Fubá, Lombola e Safé

GUIA DOCUMENTAL · TRADIÇÃO ORAL · IMAGENS

O Saci que assombra uma ponte tem duas pernas de tamanhos diferentes. Outro veste um casaquinho vermelho. Há o que passa a noite junto ao fogo, o que esconde a comida dos garimpeiros e aquele cujo chamado se confunde com o canto de uma ave. Todos estão no arquivo. Nenhum deles precisa caber numa ficha única de personagem.

Quando alguém pergunta quantos tipos de Saci existem, a resposta mais honesta começa com outra pergunta: o que estamos contando? Nomes diferentes? Aparências? Histórias que mudam de cidade para cidade? Este guia abre os relatos, descreve as versões que têm detalhes verificáveis e aponta onde uma lista da internet transformou um pedaço de barro numa suposta espécie.

O ponto de partida é O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito, organizado por Monteiro Lobato a partir de respostas ao jornal em 1917 e publicado em livro em 1918. Também consultamos registros anteriores e a investigação de Andriolli Costa sobre os “tipos de Saci”. A reportagem dele identificou erros que se repetem na web; aqui voltamos aos depoimentos e mostramos o que cada um efetivamente permite dizer.

Imagem de abertura: montagem do Sacip com sete personagens desenhados por Marcelo Bicalho para os almanaques #OcupaSacy do Sesc Tijuca e do Sesc Taubaté: Trique, Pererê, Repente, Siriri, Fubá, Lombola e Safé. São recortes das ilustrações publicadas, preservados na montagem, não personagens criados para esta matéria nem retratos históricos dos depoentes.

Antes de contar tipos, é preciso saber quem contou a história

O inquérito não foi uma expedição que encontrou criaturas para classificá-las. O jornal pediu a seus leitores lembranças, casos ouvidos e versões conhecidas na região em que viviam. Responderam professores, escritores, trabalhadores e outras pessoas; muitas vezes, uma história atribuída a um boiadeiro ou a uma mulher mais velha chegou ao livro pela escrita de outra pessoa. A edição ainda podia alterar o modo como essa fala aparecia no papel.

Isso não diminui a importância dos relatos. Explica por que o livro preserva tanta divergência. Se uma pessoa descreve olhos de fogo e outra lembra um corpo coberto de roupa, o leitor encontrou duas descrições, não necessariamente duas espécies. A palavra tipo, nesta matéria, é uma maneira prática de comparar versões; não é uma categoria inventada pelos narradores de 1917 nem uma classificação científica.

As páginas originais aparecem adiante, ao lado das versões que ajudam a compreender. São fac-símiles de O Sacy-Perêrê (1918), disponível integralmente para consulta.

Há ainda um limite de representação: o inquérito foi reunido pela imprensa e filtrado por seu tempo. A fala de pessoas negras, indígenas, mulheres e trabalhadores muitas vezes aparece atribuída a terceiros, enquanto o nome do colaborador letrado vai na assinatura. O documento registra versões da cultura popular, mas não é um censo de todas as comunidades que contaram histórias do Saci.

As versões descritas: quatro encontros, quatro retratos

Os perfis abaixo são descrições de depoimentos identificáveis. Não são poderes ou anatomias universais: cada detalhe pertence à narrativa indicada.

1. Saci-Pererê e Saci-Cererê: o nome conhecido nem sempre muda o personagem

Como aparece: pequeno, ágil, com uma perna em muitas histórias, barrete vermelho, assobio, cachimbo ou ligação com os redemoinhos, conforme o narrador. Nem todos esses atributos aparecem juntos nos registros antigos. Em O Selvagem, de 1876, Couto de Magalhães escreve Saci Cerêrê ao descrever uma pequena figura manca de um pé com barrete vermelho. No inquérito, André Capeta chama a figura de “Sacy-cererê ou pererê” dentro do mesmo depoimento. É uma evidência particularmente boa de que os dois nomes podiam apontar para o mesmo personagem.

Também há Sererê em um jornal de 1859. Essa história das letras e da pronúncia está explicada em Saci ou Sacy? A trajetória das grafias nos documentos. Um nome registrado não equivale automaticamente a um corpo novo.

O fac-símile de O Selvagem, com a grafia Cerêrê na página 138, pode ser visto na edição digitalizada pelo Senado Federal.

2. Saci-Trique: o sinal estava no casaco

Como aparece: em um diálogo ouvido por dois fazendeiros, um Saci com jalequinho vermelho recebe o nome de Saci-Trique. Quem relata a conversa é Carlos Silveira, professor em São Carlos, que recorda versões de sua infância em Queluz, Silveiras e Pinheiros, no nordeste paulista. Ele próprio diz que a figura variava ao sabor dos narradores e de possíveis influências mineiras e fluminenses.

Depois do diálogo, Silveira deduz que o casaco distinguiria outra entidade e imagina uma possível origem africana. Essa origem é conjectura do colaborador, não uma conclusão demonstrada pelo inquérito. Em outra peça do mesmo livro, escrita como se o próprio Saci falasse, Trique aparece como apelido dado conforme a travessura. A coexistência dos dois usos é uma boa razão para não transformar “Trique” numa ficha rígida.

Ilustração de Odoberto Lino para o Saci-Trique, com gorro vermelho em um redemoinho junto de um cavalo
O Trique imaginado por Odoberto Lino. Ilustração para o projeto Jornada – Histórias e Lendas, divulgada em O Colecionador de Sacis. A arte é uma criação de 2017; o depoimento de 1918 fala em jalequinho vermelho, detalhe que o desenho não tenta reproduzir.
Página 46 do inquérito de 1918 com o diálogo sobre o jalequinho vermelho e o nome Sacy-Trique
O registro que podemos conferir. Página impressa 46 de O Sacy-Perêrê (1918), depoimento de Carlos Silveira; volume digitalizado, domínio público.

3. Saci-Siriri: duas pernas e uma ponte escura

Como aparece: J. Pires escreve que o conheceu na infância como Sacy-siriry. Em vez do salto numa perna só, descreve um homem baixo, largo e forte, com uma perna mais comprida que a outra, braços curtos e aparência ameaçadora. O lugar onde moraria, segundo a história que ouviu, ficava sob uma ponte alta sobre um charco. Para a criança que atravessava aquela passagem ao cair da tarde, o medo tinha endereço.

Pires diz ter aprendido o caso com pessoas negras mais velhas que haviam sido escravizadas por sua família. Esse detalhe conta uma história também sobre transmissão e desigualdade: conhecemos o nome de quem escreveu a versão; os nomes de quem a contou não foram registrados ali. A grafia “Siriri” em listas atuais simplifica o siriry impresso no depoimento. Não há motivo para corrigir a perna desigual e adaptá-la à imagem famosa de uma perna só.

Página 63 do inquérito de 1918 descrevendo o Sacy-siriry com duas pernas de comprimentos diferentes e a ponte sobre o charco
O Siriry no papel. Página impressa 63 do depoimento de J. Pires, com as pernas desiguais e a ponte. O Sacy-Perêrê, 1918, domínio público.

4. Taterê e Sacêrê: a casa, o fogo e o garimpo

Como aparecem: João B. de Andrade transmite a versão de Nhô Vadô Rodrigues, um boiadeiro. Ele discorda de uma escultura de barro divulgada no jornal: para Vadô, o Saci tem olhos como fogo, marca de três casquinhos no chão e barrete pintado de urucum. Em seguida vem um Saci caseiro chamado Taterê, descrito como maior, dado a perturbar moças, com uma brasa que passa entre as mãos, pequena barba e lábios vermelhos. O mesmo trecho acrescenta que o Taterê tem cara de menino, cor de formiga, usa camisa e não tem espora. Há uma tensão interna entre “anda nu” e “usa camisa” no próprio texto publicado: vale mostrá-la, em vez de dividir essas frases à força em dois seres.

Depois, o depoimento menciona em Minas Gerais um Saci chamado Sacêrê, ligado ao trabalho dos garimpeiros. Ele vira objetos do trabalho, esconde a matula — a comida levada para a jornada —, usa calça de algodão e entra na água sem se molhar. É uma descrição de um relato regional, não uma regra sobre todo Saci de Minas. O livro usa ainda a palavra corumbés, cujo sentido exato não fixamos aqui sem apoio em outra fonte.

Interpretação artística de Odoberto Lino para o Saci-Sacêrê, de gorro e calça vermelhos junto à água
O Sacêrê de Odoberto Lino. Arte contemporânea que imagina a relação do personagem com a água; veja a publicação original. O garimpo e a matula vêm do depoimento, não da imagem.
Página 53 do inquérito de 1918 com a descrição do Taterê e o início do depoimento sobre o Sacêrê
O Taterê na fonte. Página impressa 53 do relato de Nhô Vadô, transmitido por João B. de Andrade. Nela estão a brasa, a camisa e a descrição contraditória da roupa. Inquérito de 1918, domínio público.
Continuação na página 54 do inquérito de 1918, mencionando a matula e o Sacêrê que entra na água sem se molhar
A continuação do relato. A página 54 traz a matula e a entrada na água. O Sacy-Perêrê (1918), domínio público.

A distância entre fonte e criação aparece também na capa. Os sete Sacis desenhados para o #OcupaSacy são personagens de uma obra de 2018; o inquérito de 1918 traz relatos escritos, alguns com detalhes até contraditórios. As ilustrações mostram escolhas do artista; as páginas antigas permitem saber o que foi registrado pelos narradores.

Um mapa de nomes: o que está descrito e o que ainda pede pesquisa

Um inventário útil não dá o mesmo peso a tudo. A tabela indica o que podemos localizar e explicar e evita preencher com características imaginadas os nomes pouco desenvolvidos. A lista ampliada de nomes citada por Costa serve como trilha de pesquisa, não como prova de doze espécies independentes.

Nome ou grupoO que a fonte permite dizerComo ler
Pererê, Cererê, SererêFormas documentadas em jornais, livros e depoimentos; André Capeta usa Cererê ou Pererê para a figura descrita.Nome / grafia
TriqueJalequinho vermelho na conversa relatada por Carlos Silveira; também aparece como apelido em texto satírico do inquérito.Descrição pontual
Siriry / SiririJ. Pires registra Siriry: homem forte, pernas de comprimentos diferentes, ponte e charco.Descrição pontual
TaterêFigura caseira em relato de Nhô Vadô, com brasa, barbicha, cor de formiga e atributos contraditórios de vestimenta.Descrição pontual
Sacêrê / SacerêNa versão mineira transmitida por Vadô, mexe na comida dos garimpeiros e entra na água sem se molhar.Descrição pontual
SaderêJ. Pereira da Silva prefere esse nome, atribui-o à fala dos avós e conta travessuras com cavalos.Nome e relato
SaterêUm colaborador escreve apenas que assim o chamam em sua terra; a frase, sozinha, não descreve outro corpo.Nome registrado
Sapêrê, MoféraO texto humorístico “Depoimento do próprio Sacy” apresenta Sapêrê como nome e Trique e Moféra como alcunhas.Nome / apelido
Ceperé, Serumpererê, Perereca, Patarê, Sia-TeresaIntegram o levantamento de formas raras mencionado por Costa; sem apresentar aqui descrição primária individual conferida para cada uma.Pista a conferir

Por que não há um número fechado? Uma mesma história pode ganhar dois nomes, e um mesmo nome pode designar corpos diferentes. O livro de 1918 também inclui depoimentos que são memória, sátira ou criação literária. Somar cada palavra como se fosse espécie produz um número vistoso, mas pouco conhecimento.

E os 77 tipos de Saci?

O número 77 tem uma história própria. Em 2018, a exposição #OcupaSacy, no Sesc Interlagos, apresentou o Fabuloso Inventário dos 77 Sacys. A proposta da mostra era imaginar uma ocupação de Sacis e descobrir um livro com 77 figuras ilustradas. O texto foi criado pelo curador Rudá K. Andrade e os retratos pelo ilustrador Marcelo Bicalho. É uma obra artística que conversa com relatos antigos e inventa personagens novos; o número não demonstra, por si, 77 variantes históricas documentadas.

O próprio Sesc descreve o achado do livro como parte da história encenada pela exposição. Uma fotografia do exemplar montado para consulta mostra como a obra se apresentava ao público. Na época, seu lançamento como publicação ainda não estava previsto. Não encontramos uma edição integral do inventário em acesso público.

DOCUMENTO LOCALIZADO · SESC TIJUCA, 2019–2020Os 77 nomes estão reunidos na página 14 do Almanaque #OcupaSacy.

O almanaque da exposição no Sesc Tijuca reproduz a lista inteira e desenvolve 12 personagens em fichas ilustradas nas páginas 16 a 21. Transcrevemos abaixo os nomes na ordem impressa; as descrições são apenas dos personagens que pudemos conferir. Consulte as páginas do almanaque.

Os 77 nomes, na ordem do almanaque

Esta é a lista da criação #OcupaSacy, não um catálogo de 77 espécies atestadas pela pesquisa histórica. Mantivemos a grafia Sacy e Sacya do impresso. O número 28 aparece como Sissiri e o 40 como Siriri; são duas entradas distintas na própria lista, enquanto a ficha ilustrada da página 20 se chama Siriri.

Como usar a lista: os nomes com link levam a 22 perfis conferidos nos almanaques e nas publicações do projeto, além de quatro caracterizações breves registradas pelo Sesc Espírito Santo em 2024. Para os outros 51, não localizamos uma descrição individual verificável. Eles não recebem poderes, roupa ou origem presumidos.

  1. Sacy TriqueDescrição conferida abaixo
  2. Sacy Faísca
  3. Sacy PererêDescrição conferida abaixo
  4. Sacy Tiririca
  5. Sacy Sererê
  6. Sacy Sororocó
  7. Sacy BrisaDescrição conferida abaixo
  8. Sacy Dendê
  9. Sacya Cy
  10. Sacy Bufa
  11. Sacy Mirim
  12. Sacy MicuimDescrição conferida abaixo
  13. Sacya Jacy
  14. Sacy Pixixica
  15. Sacya ArlequinaDescrição conferida abaixo
  16. Sacy MomoDescrição conferida abaixo
  17. Sacy MoyoDescrição conferida abaixo
  18. Sacy Anhangá
  19. Sacy Corisco
  20. Sacya Mãe-te-queiraDescrição conferida abaixo
  21. Sacy SemeiaDescrição conferida abaixo
  22. Sacy LíticoDescrição conferida abaixo
  23. Sacy TatáDescrição conferida abaixo
  24. Sacya Ama
  25. Sacy MiDescrição conferida abaixo
  26. Sacy RepenteDescrição conferida abaixo
  27. Sacy LombolaDescrição conferida abaixo
  28. Sacy Sissiri
  29. Sacy AçuDescrição conferida abaixo
  30. Sacy Uai-sôDescrição conferida abaixo
  31. Sacy FubáDescrição conferida abaixo
  32. Sacy FreviDescrição conferida abaixo
  33. Sacya Iaiá
  34. Sacy Içara
  35. Sacy SaféDescrição conferida abaixo
  36. Sacy Sacana
  37. Sacya SaçauDescrição conferida abaixo
  38. Sacy Striringa
  39. Sacy Sepé
  40. Sacy SiririDescrição conferida abaixo
  41. Sacya Grillo
  42. Sacy Bará
  43. Sacy Ossaim
  44. Sacy Erê
  45. Sacy Mati
  46. Sacy Fradim
  47. Sacy Teperê
  48. Sacy Abaporu
  49. Sacya ManaDescrição conferida abaixo
  50. Sacy Francisquinho
  51. SacyssauroDescrição conferida abaixo
  52. Sacy Peoy
  53. Sacy SaíçaraDescrição conferida abaixo
  54. Sacy Lêncio
  55. Sacy Uaraná
  56. Sacy Sá’Sé
  57. Sacya Albina
  58. Sacy Kamba’é
  59. Sacy S’oby
  60. Sacy Salísio
  61. Sacy Bororé
  62. Sacy TietêDescrição conferida abaixo
  63. Sacya AtlânticacyDescrição conferida abaixo
  64. Sacya Curi
  65. Sacy Naíma
  66. Sacy Sa’Sesc
  67. Sacy Geeky
  68. Sacy Pamonha
  69. Sacy Apó
  70. Sacy Nóquito
  71. Sacy Generoso
  72. Sacy Seixas
  73. Sacya Querô
  74. Sacx
  75. Sacy Yaterê
  76. Sacya Caapora
  77. Sacy Lutin
Página 14 do Almanaque OcupaSacy com a lista numerada de 77 nomes, de Sacy Trique a Sacy Lutin
A fonte da transcrição. Página 14 do Almanaque #OcupaSacy, Sesc Rio de Janeiro, Sesc Tijuca (2019–2020). Reprodução pontual para conferir os nomes; arte do projeto creditada a Marcelo Bicalho. Veja o almanaque completo.

Doze fichas ilustradas do almanaque do Sesc Tijuca

Nas páginas 16 a 21, o projeto apresenta desenhos e perfis próprios para os personagens a seguir. Os apontamentos são resumos da ficção da exposição, escritos aqui em outras palavras e com a página indicada. Quando uma ficha situa um Sacy na pré-história ou entre trabalhadores escravizados, isso é parte da narrativa artística, não um documento que comprove a existência histórica desse ser. Consulte as ilustrações originais nas páginas 16–21 do almanaque.

Sacy Trique 01 · P. 16
Pequeno morador de praças e matas, sobretudo na região de São Luiz do Paraitinga. O nome imita o estalo de um graveto seco; na ficha, ele observa de perto quem entra na mata e come folhas, brotos e pipoca. Esta versão ilustrada difere do Trique de jalequinho vermelho do depoimento de 1918.
Sacy Pererê 03 · P. 16
O personagem mais conhecido aparece pelo Sudeste, nas cozinhas atrás de quitandas, milho e pipoca e, no mato, em busca da fantasiosa sopa de flor de samambaia. A ficha evoca travessuras, gorro, cachimbo, calção vermelho e a popularização por Monteiro Lobato; não afirma que todos os relatos tradicionais reúnam esses traços.
Sacy Moyo 17 · P. 17
O cenário é a Mata Atlântica do litoral sudeste. A narrativa imagina um Sacy de adornos e penas vermelhas em contato com os colonizadores, com espírito guerreiro e refeições de milho e urucum. A história inventada pela exposição não deve ser tomada como testemunho indígena sobre um ser histórico.
Sacy Lítico 22 · P. 19
Ligado às serras, pedras empilhadas e pinturas rupestres, recebe no almanaque uma biografia situada no Paleolítico. Até a farinha de pedra integra a brincadeira da ficha. A idade e a autoria de pinturas atribuídas ao personagem são imaginação artística, sem valor como achado arqueológico.
Sacy Mi 25 · P. 19
Aparece no bairro da Liberdade e no interior paulista. A ficha o liga à chegada de imigrantes japoneses, ao judô, aos bonsais e a pequenos bichos feitos com folhas de bambu; inventa até pratos de pipoca com nomes da culinária japonesa. É uma fantasia contemporânea sobre encontros culturais.
Sacy Repente 26 · P. 20
Tem o sertão nordestino como paisagem e o verso improvisado como especialidade. Canta o cotidiano, a seca, as piadas e os desafios dos cantadores; o desenho o mostra com instrumento musical. A ficha aproxima a travessura do Sacy das tradições de poesia oral, sem pretender datá-las por meio do mito.
Sacy Lombola 27 · P. 18
A ficção o põe ao lado de pessoas escravizadas na luta por liberdade: ajuda a planejar fugas, pratica capoeira e maculelê e usa a língua do quilombo para despistar capatazes. A edição de Taubaté também o imagina na Mata do Itaim e associa seu nome a Palmares. Essas cenas são criações da exposição, não depoimentos históricos sobre fugas concretas.
Sacy Uai-sô 30 · P. 17
Morador de Minas Gerais que prefere cozinhas, onde escuta conversas e recolhe histórias. Começa tímido, mas, quando confia em alguém, transforma a boa memória em longos causos, interpretando as vozes de outras pessoas. Sua alimentação imaginada põe queijo ao lado de piruá, pamonha e angu.
Sacy Fubá 31 · P. 21
Em Minas, atrapalha garimpeiros e capatazes atraídos por ouro e diamantes e, segundo a ficha, favorece a fuga de trabalhadores escravizados com minério. Prefere fubá e angu; depois do declínio da mineração colonial, esconderia-se em moinhos de pedra. Em Taubaté, outra ficha o chama também de Sacy Tropeirinho e o leva ao Vale do Paraíba.
Sacy Frevi 32 · P. 21
Vive em Olinda e não consegue ouvir uma música acelerada sem começar a dançar frevo. Leva uma sombrinha colorida, abre caminho pela rua ao lado dos foliões e brinca com serpentinas e confetes. É o carnaval que organiza tanto o movimento do desenho quanto a personalidade descrita.
Sacy Siriri 40 · P. 20
Habita o Pantanal de Mato Grosso e conhece os bichos melhor que as pessoas. A ficha o faz cuidar de animais feridos com ervas e raízes, brincar de pega-pega na seca e atravessar rios nas costas de jacarés. É uma criação distinta do Sacy-siriry de pernas desiguais contado por J. Pires em 1918.
Sacya Mana 49 · P. 18
A pequena figura ilustrada segura um cartaz de luta. Sua história fala de pautas feministas, igualdade e ação coletiva em diferentes frentes, imaginando uma personagem que leva resistência aonde passa. É uma escolha política da obra artística, não a transcrição de um relato folclórico antigo.
Dois desenhos diferentes do inventário: Sacy Trique junto a plantas e Sacy Pererê em pé, com seus respectivos perfis
Trique e Pererê, lado a lado. Página 16 do Almanaque #OcupaSacy, Sesc Tijuca. Arte de Marcelo Bicalho; textos de Rudá K. Andrade. Reprodução pontual para discutir as versões dos personagens. Veja a publicação consultada.
Ilustrações de Sacy Repente tocando instrumento e Sacy Siriri junto a um pássaro no Pantanal
Repente e Siriri, na mesma série. Página 20 do almanaque, com duas interpretações de Marcelo Bicalho. O Siriri pantaneiro é uma criação do projeto e não reproduz o homem de pernas desiguais do depoimento de 1918. Leia na edição consultada.

Uma ficha a mais na edição oficial do Sesc Taubaté

Publicado pelo próprio Sesc Taubaté em 2020, outro almanaque traz retratos e dados de Fubá, Lombola e Safé. Os dois primeiros complementam as fichas acima; Safé acrescenta um personagem ainda sem descrição no almanaque da Tijuca. As edições mudam alguns lugares e medidas, mais um sinal de que se trata de uma narrativa imaginativa em circulação, não de medições de seres encontrados.

Página do Almanaque OcupaSacy do Sesc Taubaté com as ilustrações individuais de Sacy Fubá, Sacy Lombola e Sacy Safé, ao lado de suas fichas
Três rostos do inventário. Fubá, Lombola e Safé na página do Almanaque #OcupaSacy publicada pelo Sesc Taubaté em 2020. Arte: Marcelo Bicalho; textos e curadoria: Rudá K. Andrade. Reprodução pontual para identificar as imagens e comentar as fichas; consulte a edição original no leitor do Sesc.
Sacy Safé 35 · SESC TAUBATÉ
A ficha o chama também de Sacy Zaroppi. Com altura imaginada entre 22 e 77 centímetros e perna variável, frequentaria as lavouras de café do Vale do Paraíba e os galhos da ubaiceira; o texto o situa em São Paulo e no sul de Minas Gerais e brinca que ele bebe café de todos os jeitos. É a biografia fictícia de um desenho, não um registro de ocorrência zoológica.

Cinco destaques com descrições curtas

A página 15 da edição da Tijuca e a página de destaques da edição de Taubaté trazem pistas sobre mais cinco nomes. São vinhetas, não as fichas integrais do livro original. As duas publicações contam versões um pouco diferentes para Mãe-te-queira e Tatá.

Sacy Micuim 12
O menor da série, segundo a brincadeira do almanaque: mediria de 7 a 70 milímetros e teria 77 pernas de um único lado. A ilustração o representa como uma figura minúscula e movimentada.
Sacya Mãe-te-queira 20
Gigantesca na edição de Taubaté, onde seu corpo se estenderia pelos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. A vinheta da Tijuca conta outra fábula: amante do sol Guaracy, recebe uma maldição da lua Jacy, vira pedra durante o sono e dá origem à Serra da Mantiqueira.
Sacy Tatá 23
A lenda inventada pelo projeto lhe atribui a descoberta da pipoca por meio do fogo do sol Guaracy. A versão de Taubaté dramatiza o encontro com o astro como uma travessura que lança fogo sobre uma plantação de milho.
Sacy Açu 29
No almanaque da Tijuca, é um gigante que alcançaria 20,7 metros, se confundiria com árvores ou pedras e comeria uma árvore inteira. A hipérbole é parte da ficção do inventário.
Sacyssauro 51
Uma figura pré-histórica imaginada há 220 milhões de anos. O texto da exposição faz de ossadas encontradas no Rio Grande do Sul um falso indício de Sacys antigos: é humor narrativo, não interpretação paleontológica.

Quatro perfis e desenhos publicados fora dos almanaques

A pesquisa nas publicações do próprio #OcupaSacy e de O Colecionador de Sacis encontrou mais quatro personagens que aparecem na lista de 77. As postagens identificam cada desenho de Marcelo Bicalho e acrescentam texto atribuído ao inventário; resumimos os registros, sem transferir seus traços para outros Sacis. Quando a obra fala de altura, mutação genética ou planta de frutos misturados, trata-se da ficção artística.

Sacy Semeia 21 · PUBLICAÇÃO DE 2020
No perfil da série Guardiães do Mato Dentro, é um pequeno semeador de cerca de sete centímetros que vive em florestas e matas densas. Guarda sementes, cultiva ervas, planta árvores e troca mudas raras. Depois de comer frutas, ajudaria a espalhar as sementes; as pitangas em pés de amora e outros frutos improváveis são fantasia da narrativa. Leia a ficha publicada pelo #OcupaSacy.
Sacya Saçau 37 · PUBLICAÇÃO DE 2018
Vive nos cacaueiros; segundo a apresentação da personagem, a cor amarela vai se tornando vermelha com a idade. Essa é a informação disponível no registro de O Colecionador de Sacis, que a identifica como parte do inventário e credita o desenho a Marcelo Bicalho. Não encontramos ali ficha mais extensa.
Sacy Saíçara 53 · PUBLICAÇÃO DE 2021
O texto do projeto o situa entre o litoral do Paraná e o do Rio de Janeiro, junto às praias, restingas e matas atlânticas. Trança palha, tece redes, deixa recados na areia, protege o mar na ficção e se encanta com fandango e rabeca caiçara. A postagem o desenha de regata vermelha, bermuda florida e colar de concha; a medida de 17 a 21,7 centímetros pertence ao jogo imaginativo da ficha. Confira texto e imagem originais.
Sacy Tietê 62 · PUBLICAÇÃO DE 2021
É imaginado na cidade de São Paulo, junto ao rio Tietê, como descendente de Sacys Anhangás afetado pela expulsão da mata e pela poluição urbana. Quatro figuras de formas e cores diversas aparecem surfando nas águas degradadas diante do trânsito. Os corpos alterados e o consumo de resíduos compõem uma crítica ambiental em forma de fábula: a postagem não demonstra mutações reais nem que o rio esteja seguro ou limpo. Leia a publicação do #OcupaSacy.
Sacy Semeia ilustrado sobre um galho com plantas e frutos de formatos diferentes; desenho assinado por Marcelo Bicalho
Semeia. Ilustração de Marcelo Bicalho; texto de Rudá K. Andrade. Publicação do #OcupaSacy, 10 nov. 2020.
Quatro Sacys Tietê coloridos surfam em água escura diante de carros e edifícios da cidade de São Paulo, na ilustração de Marcelo Bicalho
Tietê. Desenho de Marcelo Bicalho para a fábula ambiental do inventário. Publicação do #OcupaSacy, 25 jan. 2021.
Sacya Saçau de cor avermelhada junto a frutos de cacau, em desenho de Marcelo Bicalho
Saçau. Ilustração de Marcelo Bicalho divulgada por O Colecionador de Sacis em 30 maio 2018.
Sacy Saíçara de bermuda florida e colar de conchas à beira-mar com sapo na mão, ilustração de Marcelo Bicalho
Saíçara. Arte de Marcelo Bicalho, com descrição publicada pelo #OcupaSacy em 2 fev. 2021.

Na mesma postagem de Saíçara, o projeto apenas menciona Sacy Salísio soprando para agitar as ondas e Sacy Dendê oferecendo pipoca ao mar. Essas duas frases permitem registrar a passagem dos nomes, mas não constituem fichas individuais nem identificam desenhos deles.

Quatro caracterizações breves documentadas pelo Sesc em 2024

Um documento oficial da exposição #OcupaSacy VIX situa outros quatro nomes da lista de 77. São descrições de uma linha, sem ficha completa ou retrato individual nessa fonte. Não ampliamos as pistas com atributos que o documento não traz.

Sacy Brisa 07 · SESC ES, 2024
Ligado ao vento, elemento que o documento relaciona à cidade de Vitória. Não informa aparência, medidas nem hábitos próprios.
Sacya Arlequina 15 · SESC ES, 2024
Apresentada junto de Momo como personagem carnavalesca. O texto não distingue sua roupa ou suas travessuras.
Sacy Momo 16 · SESC ES, 2024
Também descrito como personagem carnavalesco; não há nesse registro uma biografia separada da Arlequina.
Sacya Atlânticacy 63 · SESC ES, 2024
Associada à Mata Atlântica. A fonte não acrescenta características físicas ou uma história individual.

A mesma exposição menciona Sacy Café, Sacy Nóquio e Sacy Sururu. Esses nomes não constam da lista de 77 transcrita do almanaque da Tijuca; são registros de outra edição do projeto, e por isso não foram encaixados artificialmente na numeração de 2019–2020. O Sesc descreve Café junto aos cafezais, Nóquio como italiano e Sururu como uma variedade caiçara dos manguezais. Não há ali fichas completas desses três.

Uma ilustração a mais, ainda sem ficha localizada

O próprio #OcupaSacy publicou o desenho de Sacy Francisquinho, nome 50 do almanaque. A imagem o mostra cercado de pássaros e pipoca. Esses elementos podem ser vistos no papel, mas a postagem consultada não apresenta uma descrição narrativa individual; não presumimos dela um habitat ou poderes.

Sacy Francisquinho segura um punhado de pipoca entre pássaros na ilustração identificada pelo próprio projeto OcupaSacy
Francisquinho. Desenho de Marcelo Bicalho para O Fabuloso Inventário dos 77 Sacys, divulgado pelo #OcupaSacy em 2019. O nome está no desenho; uma ficha escrita para o personagem não foi localizada nessa publicação.

Por que ainda faltam fichas individuais? O almanaque da Tijuca transcreve os 77 nomes, mas publica só 12 fichas completas e cinco destaques; a edição de Taubaté permite acrescentar Safé. Quatro perfis vieram de postagens identificadas e outros quatro nomes ganharam apenas frases breves no documento do Sesc ES. O desenho de Francisquinho foi localizado sem sua ficha escrita. Não encontramos uma edição pública integral das outras fichas do livro original nem imagens confiáveis para cada personagem. Atribuir características pelo som do nome ou repetir a imagem de outro Sacy criaria informações falsas. O livro existe para consulta em registros da exposição, e o próprio autor ainda o apresenta como publicação futura.

Escultura com cabeça de Saci de gorro vermelho exposta no projeto OcupaSacy em Vitória
O Saci em exposição. Fotografia de Rafael Deminicis da mostra #OcupaSacy no Sesc Glória, em Vitória (ES). Wikimedia Commons, CC BY 4.0; arquivo convertido para WebP pelo Sacip. A fotografia documenta a exposição, não retrata os 77 personagens do livro.

Outra série de arte mostra como um nome ganha rosto: Odoberto Lino desenhou Sacis diferentes em 2017. Seu Saçurá abaixo tem olhos vermelhos e expressão ameaçadora. A imagem registra uma escolha estética do autor, sem funcionar como prova de uma descrição única para todas as comunidades.

Saci-Saçurá ilustrado por Odoberto Lino com gorro vermelho, olhos avermelhados e um bastão entre árvores
Saçurá, na interpretação de Odoberto Lino. Ilustração divulgada por O Colecionador de Sacis em 2017. Esta série de desenhos é diferente do inventário de 77 do #OcupaSacy.

O “Saci do Poá”: como nasceu um tipo que o documento não nomeia

O começo do livro conta que M. L. de Oliveira Filho modelou uma escultura de Saci com barro do Poá. Poá é o lugar de procedência do barro mencionado no texto. A foto e a descrição da peça saíram no jornal e ajudaram a provocar o inquérito. A descrição atribuía à figura, entre outros traços, uma perna, mão furada, orelha de morcego, espora de galo e fumaça pelos olhos.

Mais adiante, o depoimento de Nhô Vadô diz que ele discorda do Saci do Poá. A expressão aponta para aquela escultura e aquela concepção do personagem. Vadô contrapõe seus próprios olhos de fogo e suas marcas no chão. Quando uma lista extrai apenas “Poá” e o apresenta como um ser cujo poder é soltar fogo pelos olhos, troca o referente e mistura descrições opostas.

NO DOCUMENTObarro do Poá

Material usado para modelar uma imagem concreta do Saci.

NA LISTA REPETIDA“Saci do Poá”

Nome tratado como espécie autônoma, sem que o livro faça essa classificação.

A correção foi demonstrada por Andriolli Costa. A leitura pode ser refeita diretamente no volume de 1918 digitalizado: primeiro a passagem da escultura, depois o testemunho de João B. de Andrade. É assim que se verifica a informação sem depender de uma lista copiada de outra.

O Saci pode ser pássaro, vento ou menino?

O canto de uma ave é uma das portas de entrada para as histórias. Miguel Milano, no inquérito, lembra o pássaro que parecia chamar “sa-cy” e associa a voz às travessuras atribuídas ao ser e à proteção dos ninhos. Isso não significa que cada narrador entendesse ave e menino como a mesma criatura literal. Em algumas narrativas, som e figura se aproximam; em outras, o pássaro anuncia, sugere ou empresta um nome.

Existe ainda uma ave real chamada saci, Tapera naevia, da família dos cucos, registrada em inventários ornitológicos como o WikiAves. Uma espécie de ave é uma classificação da zoologia; “tipos de Saci” nesta reportagem são versões culturais. Confundir as duas contagens criaria outro erro.

Redemoinho, assobio, fogo, cavalo cansado e comida desaparecida também funcionam como sinais do personagem em diferentes relatos. Quando algo estranho acontecia no caminho, na cozinha ou no trabalho, a narrativa oferecia uma forma de contá-lo. As versões refletem lugares concretos: ponte, roça, beira do rio, pouso de tropeiros, garimpo.

Da fala à imagem: por que o retrato mais famoso parece ser o único?

Fotografia de escultura, aquarela, capa de livro e televisão têm algo em comum: precisam mostrar uma figura. A tradição oral não precisa resolver cada detalhe do corpo. No papel e na tela, porém, alguém escolhe a cor, a roupa, a perna, o rosto. Uma imagem muito reproduzida acaba parecendo mais antiga e mais universal do que realmente é.

O Saci negro de uma perna, gorro vermelho e cachimbo é um retrato poderoso e importante. Não apaga a figura de pernas desiguais de Pires, o casaco vermelho do Trique nem a contradição da camisa do Taterê. As ilustrações desta matéria mostram interpretações identificadas de artistas; os fac-símiles mostram o que os depoentes registraram. Nem mesmo o Saci-Siriry, tão bem descrito no inquérito, ganhou aqui um retrato que possamos afirmar corresponder àquele relato.

Como pesquisar sem perder a voz de quem contou

  1. Anote a grafia exata. Sacy, Saci, Cerêrê, Siriry e Sadêrê podem trazer resultados diferentes no arquivo digital.
  2. Separe as pessoas. Quem viveu ou ouviu o caso? Quem o escreveu? Quem o editou ou citou décadas depois?
  3. Localize o trecho completo. Uma linha fora da página pode inverter uma descrição, como aconteceu com o barro do Poá.
  4. Respeite o limite da fonte. Se o registro dá somente um nome, ele não autoriza inventar vestimenta, poderes ou origem.
  5. Olhe a imagem pelo que ela é. Uma escultura contemporânea pode mostrar a força da tradição sem comprovar uma aparência de 1917.

Para continuar, o Sacip reúne os 73 depoimentos do inquérito, investiga as origens e transformações do personagem e descreve as características mais conhecidas do Saci. Este guia dá uma rota para comparar essas leituras sem reduzir o folclore a uma coleção de cartões.

Há um Saci para cada lugar — e uma responsabilidade para quem escreve

Quando a versão de uma ponte chega ao livro, ela não deixa de pertencer à memória de quem atravessava a ponte. O Saci do garimpo guarda marcas do trabalho de quem levava a matula. O casaco lembrado no interior paulista não precisa vestir todos os outros. Quanto mais atentos aos lugares e às vozes, mais completo fica o personagem.

O arquivo não pede que escolhamos entre um Saci “verdadeiro” e uma multidão de erros. Pede que leiamos com cuidado. O que tem nome, quem disse, onde foi impresso, o que foi acrescentado depois: é aí que as diferenças ficam interessantes. A maior variedade do Saci não cabe numa tabela de espécies. Está no modo como uma história segue viva ao mudar de boca, de paisagem e de época.

Fontes, documentos e créditos

Nota editorial: este guia dá prioridade às passagens que pudemos localizar e explicar. Os nomes raros reunidos em pesquisas secundárias são apresentados como pistas, sem perfis inventados. Na lista dos 77, as grafias acompanham o almanaque, inclusive as entradas distintas Sissiri e Siriri. Os 22 perfis resumem 12 fichas completas e cinco destaques da Tijuca, a ficha adicional de Safé em Taubaté e quatro perfis encontrados em publicações identificadas. Há ainda quatro caracterizações de uma linha num documento do Sesc ES. Salísio e Dendê aparecem apenas numa menção breve, e Francisquinho tem desenho publicado, mas sem ficha escrita localizada; esses três não entram na conta de perfis. A capa reúne sete ilustrações reais dos almanaques, sem personagens gerados; as imagens adicionais são desenhos de Marcelo Bicalho publicados com seus respectivos nomes. Os fac-símiles são registros de publicações de épocas diferentes e o inventário de 77 é uma criação artística posterior. As fichas individuais restantes não foram localizadas para conferência.

RESPOSTAS DIRETAS

Perguntas frequentes

Quantos tipos de Saci existem?

Não há número definitivo. O inquérito de 1918 reúne dezenas de relatos com nomes e aparências diferentes, mas nome, apelido, grafia e descrição não podem ser somados como espécies biológicas.

De onde vêm os 77 tipos de Saci?

O Fabuloso Inventário dos 77 Sacys foi criado para a exposição #OcupaSacy, no Sesc Interlagos, em 2018. A lista com todos os nomes reaparece no Almanaque #OcupaSacy do Sesc Tijuca, de 2019–2020, junto de 12 fichas ilustradas e cinco destaques breves. A edição do Sesc Taubaté mostra Safé, e publicações identificadas acrescentam Semeia, Saçau, Saíçara e Tietê. O número não é uma contagem científica de variantes históricas.

Saci-Trique, Taterê e Sacêrê aparecem em documentos?

Sim. Trique aparece no depoimento de Carlos Silveira; Taterê e Sacêrê, na versão de Nhô Vadô transmitida por João B. de Andrade no inquérito. Cada caracterização vale para seu respectivo relato.

Existe um Saci do Poá com olhos de fogo?

Não como tipo estabelecido por aquele documento. “Poá” se refere ao barro usado numa escultura discutida no livro. Os olhos de fogo pertencem à descrição alternativa de Nhô Vadô, que discordava da escultura.

Taterê e Teterê são dois tipos separados?

Não há base segura para separá-los a partir da passagem usada pelas listas populares. A divisão resulta de leitura equivocada de atributos contíguos; o trecho original apresenta tensões internas, que precisam ser reconhecidas.

O Saci sempre tem uma perna só?

Não em todos os relatos. J. Pires descreveu o Sacy-siriry com duas pernas de comprimentos diferentes. A imagem de uma perna se tornou muito conhecida, mas não apaga as outras versões.

Qual é a diferença entre o pássaro saci e o personagem?

O pássaro Tapera naevia é um animal real identificado pela zoologia. O Saci dos relatos é personagem da tradição oral. O canto, o nome e algumas histórias aproximam os dois, mas classificá-los exige perguntas diferentes.

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SOBRE O AUTOR

Eduardo

Redator e um dos idealizadores do Sacip — Sociedade dos Observadores de Saci. De Pontal, interior de São Paulo, é leitor assíduo e apaixonado pela cultura brasileira. No projeto, dedica-se à pesquisa e à produção de conteúdos sobre folclore, história, literatura, memória popular e identidade nacional, buscando valorizar as tradições e narrativas que formam o imaginário brasileiro.

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