GUIA DOCUMENTAL · TRADIÇÃO ORAL · IMAGENS
O Saci que assombra uma ponte tem duas pernas de tamanhos diferentes. Outro veste um casaquinho vermelho. Há o que passa a noite junto ao fogo, o que esconde a comida dos garimpeiros e aquele cujo chamado se confunde com o canto de uma ave. Todos estão no arquivo. Nenhum deles precisa caber numa ficha única de personagem.
Quando alguém pergunta quantos tipos de Saci existem, a resposta mais honesta começa com outra pergunta: o que estamos contando? Nomes diferentes? Aparências? Histórias que mudam de cidade para cidade? Este guia abre os relatos, descreve as versões que têm detalhes verificáveis e aponta onde uma lista da internet transformou um pedaço de barro numa suposta espécie.
O ponto de partida é O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito, organizado por Monteiro Lobato a partir de respostas ao jornal em 1917 e publicado em livro em 1918. Também consultamos registros anteriores e a investigação de Andriolli Costa sobre os “tipos de Saci”. A reportagem dele identificou erros que se repetem na web; aqui voltamos aos depoimentos e mostramos o que cada um efetivamente permite dizer.
Imagem de abertura: montagem do Sacip com sete personagens desenhados por Marcelo Bicalho para os almanaques #OcupaSacy do Sesc Tijuca e do Sesc Taubaté: Trique, Pererê, Repente, Siriri, Fubá, Lombola e Safé. São recortes das ilustrações publicadas, preservados na montagem, não personagens criados para esta matéria nem retratos históricos dos depoentes.
Antes de contar tipos, é preciso saber quem contou a história
O inquérito não foi uma expedição que encontrou criaturas para classificá-las. O jornal pediu a seus leitores lembranças, casos ouvidos e versões conhecidas na região em que viviam. Responderam professores, escritores, trabalhadores e outras pessoas; muitas vezes, uma história atribuída a um boiadeiro ou a uma mulher mais velha chegou ao livro pela escrita de outra pessoa. A edição ainda podia alterar o modo como essa fala aparecia no papel.
Isso não diminui a importância dos relatos. Explica por que o livro preserva tanta divergência. Se uma pessoa descreve olhos de fogo e outra lembra um corpo coberto de roupa, o leitor encontrou duas descrições, não necessariamente duas espécies. A palavra tipo, nesta matéria, é uma maneira prática de comparar versões; não é uma categoria inventada pelos narradores de 1917 nem uma classificação científica.
As páginas originais aparecem adiante, ao lado das versões que ajudam a compreender. São fac-símiles de O Sacy-Perêrê (1918), disponível integralmente para consulta.
Há ainda um limite de representação: o inquérito foi reunido pela imprensa e filtrado por seu tempo. A fala de pessoas negras, indígenas, mulheres e trabalhadores muitas vezes aparece atribuída a terceiros, enquanto o nome do colaborador letrado vai na assinatura. O documento registra versões da cultura popular, mas não é um censo de todas as comunidades que contaram histórias do Saci.
As versões descritas: quatro encontros, quatro retratos
Os perfis abaixo são descrições de depoimentos identificáveis. Não são poderes ou anatomias universais: cada detalhe pertence à narrativa indicada.
1. Saci-Pererê e Saci-Cererê: o nome conhecido nem sempre muda o personagem
Como aparece: pequeno, ágil, com uma perna em muitas histórias, barrete vermelho, assobio, cachimbo ou ligação com os redemoinhos, conforme o narrador. Nem todos esses atributos aparecem juntos nos registros antigos. Em O Selvagem, de 1876, Couto de Magalhães escreve Saci Cerêrê ao descrever uma pequena figura manca de um pé com barrete vermelho. No inquérito, André Capeta chama a figura de “Sacy-cererê ou pererê” dentro do mesmo depoimento. É uma evidência particularmente boa de que os dois nomes podiam apontar para o mesmo personagem.
Também há Sererê em um jornal de 1859. Essa história das letras e da pronúncia está explicada em Saci ou Sacy? A trajetória das grafias nos documentos. Um nome registrado não equivale automaticamente a um corpo novo.
O fac-símile de O Selvagem, com a grafia Cerêrê na página 138, pode ser visto na edição digitalizada pelo Senado Federal.
2. Saci-Trique: o sinal estava no casaco
Como aparece: em um diálogo ouvido por dois fazendeiros, um Saci com jalequinho vermelho recebe o nome de Saci-Trique. Quem relata a conversa é Carlos Silveira, professor em São Carlos, que recorda versões de sua infância em Queluz, Silveiras e Pinheiros, no nordeste paulista. Ele próprio diz que a figura variava ao sabor dos narradores e de possíveis influências mineiras e fluminenses.
Depois do diálogo, Silveira deduz que o casaco distinguiria outra entidade e imagina uma possível origem africana. Essa origem é conjectura do colaborador, não uma conclusão demonstrada pelo inquérito. Em outra peça do mesmo livro, escrita como se o próprio Saci falasse, Trique aparece como apelido dado conforme a travessura. A coexistência dos dois usos é uma boa razão para não transformar “Trique” numa ficha rígida.


3. Saci-Siriri: duas pernas e uma ponte escura
Como aparece: J. Pires escreve que o conheceu na infância como Sacy-siriry. Em vez do salto numa perna só, descreve um homem baixo, largo e forte, com uma perna mais comprida que a outra, braços curtos e aparência ameaçadora. O lugar onde moraria, segundo a história que ouviu, ficava sob uma ponte alta sobre um charco. Para a criança que atravessava aquela passagem ao cair da tarde, o medo tinha endereço.
Pires diz ter aprendido o caso com pessoas negras mais velhas que haviam sido escravizadas por sua família. Esse detalhe conta uma história também sobre transmissão e desigualdade: conhecemos o nome de quem escreveu a versão; os nomes de quem a contou não foram registrados ali. A grafia “Siriri” em listas atuais simplifica o siriry impresso no depoimento. Não há motivo para corrigir a perna desigual e adaptá-la à imagem famosa de uma perna só.

4. Taterê e Sacêrê: a casa, o fogo e o garimpo
Como aparecem: João B. de Andrade transmite a versão de Nhô Vadô Rodrigues, um boiadeiro. Ele discorda de uma escultura de barro divulgada no jornal: para Vadô, o Saci tem olhos como fogo, marca de três casquinhos no chão e barrete pintado de urucum. Em seguida vem um Saci caseiro chamado Taterê, descrito como maior, dado a perturbar moças, com uma brasa que passa entre as mãos, pequena barba e lábios vermelhos. O mesmo trecho acrescenta que o Taterê tem cara de menino, cor de formiga, usa camisa e não tem espora. Há uma tensão interna entre “anda nu” e “usa camisa” no próprio texto publicado: vale mostrá-la, em vez de dividir essas frases à força em dois seres.
Depois, o depoimento menciona em Minas Gerais um Saci chamado Sacêrê, ligado ao trabalho dos garimpeiros. Ele vira objetos do trabalho, esconde a matula — a comida levada para a jornada —, usa calça de algodão e entra na água sem se molhar. É uma descrição de um relato regional, não uma regra sobre todo Saci de Minas. O livro usa ainda a palavra corumbés, cujo sentido exato não fixamos aqui sem apoio em outra fonte.



A distância entre fonte e criação aparece também na capa. Os sete Sacis desenhados para o #OcupaSacy são personagens de uma obra de 2018; o inquérito de 1918 traz relatos escritos, alguns com detalhes até contraditórios. As ilustrações mostram escolhas do artista; as páginas antigas permitem saber o que foi registrado pelos narradores.
Um mapa de nomes: o que está descrito e o que ainda pede pesquisa
Um inventário útil não dá o mesmo peso a tudo. A tabela indica o que podemos localizar e explicar e evita preencher com características imaginadas os nomes pouco desenvolvidos. A lista ampliada de nomes citada por Costa serve como trilha de pesquisa, não como prova de doze espécies independentes.
| Nome ou grupo | O que a fonte permite dizer | Como ler |
|---|---|---|
| Pererê, Cererê, Sererê | Formas documentadas em jornais, livros e depoimentos; André Capeta usa Cererê ou Pererê para a figura descrita. | Nome / grafia |
| Trique | Jalequinho vermelho na conversa relatada por Carlos Silveira; também aparece como apelido em texto satírico do inquérito. | Descrição pontual |
| Siriry / Siriri | J. Pires registra Siriry: homem forte, pernas de comprimentos diferentes, ponte e charco. | Descrição pontual |
| Taterê | Figura caseira em relato de Nhô Vadô, com brasa, barbicha, cor de formiga e atributos contraditórios de vestimenta. | Descrição pontual |
| Sacêrê / Sacerê | Na versão mineira transmitida por Vadô, mexe na comida dos garimpeiros e entra na água sem se molhar. | Descrição pontual |
| Saderê | J. Pereira da Silva prefere esse nome, atribui-o à fala dos avós e conta travessuras com cavalos. | Nome e relato |
| Saterê | Um colaborador escreve apenas que assim o chamam em sua terra; a frase, sozinha, não descreve outro corpo. | Nome registrado |
| Sapêrê, Moféra | O texto humorístico “Depoimento do próprio Sacy” apresenta Sapêrê como nome e Trique e Moféra como alcunhas. | Nome / apelido |
| Ceperé, Serumpererê, Perereca, Patarê, Sia-Teresa | Integram o levantamento de formas raras mencionado por Costa; sem apresentar aqui descrição primária individual conferida para cada uma. | Pista a conferir |
Por que não há um número fechado? Uma mesma história pode ganhar dois nomes, e um mesmo nome pode designar corpos diferentes. O livro de 1918 também inclui depoimentos que são memória, sátira ou criação literária. Somar cada palavra como se fosse espécie produz um número vistoso, mas pouco conhecimento.
E os 77 tipos de Saci?
O número 77 tem uma história própria. Em 2018, a exposição #OcupaSacy, no Sesc Interlagos, apresentou o Fabuloso Inventário dos 77 Sacys. A proposta da mostra era imaginar uma ocupação de Sacis e descobrir um livro com 77 figuras ilustradas. O texto foi criado pelo curador Rudá K. Andrade e os retratos pelo ilustrador Marcelo Bicalho. É uma obra artística que conversa com relatos antigos e inventa personagens novos; o número não demonstra, por si, 77 variantes históricas documentadas.
O próprio Sesc descreve o achado do livro como parte da história encenada pela exposição. Uma fotografia do exemplar montado para consulta mostra como a obra se apresentava ao público. Na época, seu lançamento como publicação ainda não estava previsto. Não encontramos uma edição integral do inventário em acesso público.
O almanaque da exposição no Sesc Tijuca reproduz a lista inteira e desenvolve 12 personagens em fichas ilustradas nas páginas 16 a 21. Transcrevemos abaixo os nomes na ordem impressa; as descrições são apenas dos personagens que pudemos conferir. Consulte as páginas do almanaque.
Os 77 nomes, na ordem do almanaque
Esta é a lista da criação #OcupaSacy, não um catálogo de 77 espécies atestadas pela pesquisa histórica. Mantivemos a grafia Sacy e Sacya do impresso. O número 28 aparece como Sissiri e o 40 como Siriri; são duas entradas distintas na própria lista, enquanto a ficha ilustrada da página 20 se chama Siriri.
Como usar a lista: os nomes com link levam a 22 perfis conferidos nos almanaques e nas publicações do projeto, além de quatro caracterizações breves registradas pelo Sesc Espírito Santo em 2024. Para os outros 51, não localizamos uma descrição individual verificável. Eles não recebem poderes, roupa ou origem presumidos.
- Sacy TriqueDescrição conferida abaixo
- Sacy Faísca
- Sacy PererêDescrição conferida abaixo
- Sacy Tiririca
- Sacy Sererê
- Sacy Sororocó
- Sacy BrisaDescrição conferida abaixo
- Sacy Dendê
- Sacya Cy
- Sacy Bufa
- Sacy Mirim
- Sacy MicuimDescrição conferida abaixo
- Sacya Jacy
- Sacy Pixixica
- Sacya ArlequinaDescrição conferida abaixo
- Sacy MomoDescrição conferida abaixo
- Sacy MoyoDescrição conferida abaixo
- Sacy Anhangá
- Sacy Corisco
- Sacya Mãe-te-queiraDescrição conferida abaixo
- Sacy SemeiaDescrição conferida abaixo
- Sacy LíticoDescrição conferida abaixo
- Sacy TatáDescrição conferida abaixo
- Sacya Ama
- Sacy MiDescrição conferida abaixo
- Sacy RepenteDescrição conferida abaixo
- Sacy LombolaDescrição conferida abaixo
- Sacy Sissiri
- Sacy AçuDescrição conferida abaixo
- Sacy Uai-sôDescrição conferida abaixo
- Sacy FubáDescrição conferida abaixo
- Sacy FreviDescrição conferida abaixo
- Sacya Iaiá
- Sacy Içara
- Sacy SaféDescrição conferida abaixo
- Sacy Sacana
- Sacya SaçauDescrição conferida abaixo
- Sacy Striringa
- Sacy Sepé
- Sacy SiririDescrição conferida abaixo
- Sacya Grillo
- Sacy Bará
- Sacy Ossaim
- Sacy Erê
- Sacy Mati
- Sacy Fradim
- Sacy Teperê
- Sacy Abaporu
- Sacya ManaDescrição conferida abaixo
- Sacy Francisquinho
- SacyssauroDescrição conferida abaixo
- Sacy Peoy
- Sacy SaíçaraDescrição conferida abaixo
- Sacy Lêncio
- Sacy Uaraná
- Sacy Sá’Sé
- Sacya Albina
- Sacy Kamba’é
- Sacy S’oby
- Sacy Salísio
- Sacy Bororé
- Sacy TietêDescrição conferida abaixo
- Sacya AtlânticacyDescrição conferida abaixo
- Sacya Curi
- Sacy Naíma
- Sacy Sa’Sesc
- Sacy Geeky
- Sacy Pamonha
- Sacy Apó
- Sacy Nóquito
- Sacy Generoso
- Sacy Seixas
- Sacya Querô
- Sacx
- Sacy Yaterê
- Sacya Caapora
- Sacy Lutin

Doze fichas ilustradas do almanaque do Sesc Tijuca
Nas páginas 16 a 21, o projeto apresenta desenhos e perfis próprios para os personagens a seguir. Os apontamentos são resumos da ficção da exposição, escritos aqui em outras palavras e com a página indicada. Quando uma ficha situa um Sacy na pré-história ou entre trabalhadores escravizados, isso é parte da narrativa artística, não um documento que comprove a existência histórica desse ser. Consulte as ilustrações originais nas páginas 16–21 do almanaque.
- Sacy Trique 01 · P. 16
- Pequeno morador de praças e matas, sobretudo na região de São Luiz do Paraitinga. O nome imita o estalo de um graveto seco; na ficha, ele observa de perto quem entra na mata e come folhas, brotos e pipoca. Esta versão ilustrada difere do Trique de jalequinho vermelho do depoimento de 1918.
- Sacy Pererê 03 · P. 16
- O personagem mais conhecido aparece pelo Sudeste, nas cozinhas atrás de quitandas, milho e pipoca e, no mato, em busca da fantasiosa sopa de flor de samambaia. A ficha evoca travessuras, gorro, cachimbo, calção vermelho e a popularização por Monteiro Lobato; não afirma que todos os relatos tradicionais reúnam esses traços.
- Sacy Moyo 17 · P. 17
- O cenário é a Mata Atlântica do litoral sudeste. A narrativa imagina um Sacy de adornos e penas vermelhas em contato com os colonizadores, com espírito guerreiro e refeições de milho e urucum. A história inventada pela exposição não deve ser tomada como testemunho indígena sobre um ser histórico.
- Sacy Lítico 22 · P. 19
- Ligado às serras, pedras empilhadas e pinturas rupestres, recebe no almanaque uma biografia situada no Paleolítico. Até a farinha de pedra integra a brincadeira da ficha. A idade e a autoria de pinturas atribuídas ao personagem são imaginação artística, sem valor como achado arqueológico.
- Sacy Mi 25 · P. 19
- Aparece no bairro da Liberdade e no interior paulista. A ficha o liga à chegada de imigrantes japoneses, ao judô, aos bonsais e a pequenos bichos feitos com folhas de bambu; inventa até pratos de pipoca com nomes da culinária japonesa. É uma fantasia contemporânea sobre encontros culturais.
- Sacy Repente 26 · P. 20
- Tem o sertão nordestino como paisagem e o verso improvisado como especialidade. Canta o cotidiano, a seca, as piadas e os desafios dos cantadores; o desenho o mostra com instrumento musical. A ficha aproxima a travessura do Sacy das tradições de poesia oral, sem pretender datá-las por meio do mito.
- Sacy Lombola 27 · P. 18
- A ficção o põe ao lado de pessoas escravizadas na luta por liberdade: ajuda a planejar fugas, pratica capoeira e maculelê e usa a língua do quilombo para despistar capatazes. A edição de Taubaté também o imagina na Mata do Itaim e associa seu nome a Palmares. Essas cenas são criações da exposição, não depoimentos históricos sobre fugas concretas.
- Sacy Uai-sô 30 · P. 17
- Morador de Minas Gerais que prefere cozinhas, onde escuta conversas e recolhe histórias. Começa tímido, mas, quando confia em alguém, transforma a boa memória em longos causos, interpretando as vozes de outras pessoas. Sua alimentação imaginada põe queijo ao lado de piruá, pamonha e angu.
- Sacy Fubá 31 · P. 21
- Em Minas, atrapalha garimpeiros e capatazes atraídos por ouro e diamantes e, segundo a ficha, favorece a fuga de trabalhadores escravizados com minério. Prefere fubá e angu; depois do declínio da mineração colonial, esconderia-se em moinhos de pedra. Em Taubaté, outra ficha o chama também de Sacy Tropeirinho e o leva ao Vale do Paraíba.
- Sacy Frevi 32 · P. 21
- Vive em Olinda e não consegue ouvir uma música acelerada sem começar a dançar frevo. Leva uma sombrinha colorida, abre caminho pela rua ao lado dos foliões e brinca com serpentinas e confetes. É o carnaval que organiza tanto o movimento do desenho quanto a personalidade descrita.
- Sacy Siriri 40 · P. 20
- Habita o Pantanal de Mato Grosso e conhece os bichos melhor que as pessoas. A ficha o faz cuidar de animais feridos com ervas e raízes, brincar de pega-pega na seca e atravessar rios nas costas de jacarés. É uma criação distinta do Sacy-siriry de pernas desiguais contado por J. Pires em 1918.
- Sacya Mana 49 · P. 18
- A pequena figura ilustrada segura um cartaz de luta. Sua história fala de pautas feministas, igualdade e ação coletiva em diferentes frentes, imaginando uma personagem que leva resistência aonde passa. É uma escolha política da obra artística, não a transcrição de um relato folclórico antigo.


Uma ficha a mais na edição oficial do Sesc Taubaté
Publicado pelo próprio Sesc Taubaté em 2020, outro almanaque traz retratos e dados de Fubá, Lombola e Safé. Os dois primeiros complementam as fichas acima; Safé acrescenta um personagem ainda sem descrição no almanaque da Tijuca. As edições mudam alguns lugares e medidas, mais um sinal de que se trata de uma narrativa imaginativa em circulação, não de medições de seres encontrados.

- Sacy Safé 35 · SESC TAUBATÉ
- A ficha o chama também de Sacy Zaroppi. Com altura imaginada entre 22 e 77 centímetros e perna variável, frequentaria as lavouras de café do Vale do Paraíba e os galhos da ubaiceira; o texto o situa em São Paulo e no sul de Minas Gerais e brinca que ele bebe café de todos os jeitos. É a biografia fictícia de um desenho, não um registro de ocorrência zoológica.
Cinco destaques com descrições curtas
A página 15 da edição da Tijuca e a página de destaques da edição de Taubaté trazem pistas sobre mais cinco nomes. São vinhetas, não as fichas integrais do livro original. As duas publicações contam versões um pouco diferentes para Mãe-te-queira e Tatá.
- Sacy Micuim 12
- O menor da série, segundo a brincadeira do almanaque: mediria de 7 a 70 milímetros e teria 77 pernas de um único lado. A ilustração o representa como uma figura minúscula e movimentada.
- Sacya Mãe-te-queira 20
- Gigantesca na edição de Taubaté, onde seu corpo se estenderia pelos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. A vinheta da Tijuca conta outra fábula: amante do sol Guaracy, recebe uma maldição da lua Jacy, vira pedra durante o sono e dá origem à Serra da Mantiqueira.
- Sacy Tatá 23
- A lenda inventada pelo projeto lhe atribui a descoberta da pipoca por meio do fogo do sol Guaracy. A versão de Taubaté dramatiza o encontro com o astro como uma travessura que lança fogo sobre uma plantação de milho.
- Sacy Açu 29
- No almanaque da Tijuca, é um gigante que alcançaria 20,7 metros, se confundiria com árvores ou pedras e comeria uma árvore inteira. A hipérbole é parte da ficção do inventário.
- Sacyssauro 51
- Uma figura pré-histórica imaginada há 220 milhões de anos. O texto da exposição faz de ossadas encontradas no Rio Grande do Sul um falso indício de Sacys antigos: é humor narrativo, não interpretação paleontológica.
Quatro perfis e desenhos publicados fora dos almanaques
A pesquisa nas publicações do próprio #OcupaSacy e de O Colecionador de Sacis encontrou mais quatro personagens que aparecem na lista de 77. As postagens identificam cada desenho de Marcelo Bicalho e acrescentam texto atribuído ao inventário; resumimos os registros, sem transferir seus traços para outros Sacis. Quando a obra fala de altura, mutação genética ou planta de frutos misturados, trata-se da ficção artística.
Na mesma postagem de Saíçara, o projeto apenas menciona Sacy Salísio soprando para agitar as ondas e Sacy Dendê oferecendo pipoca ao mar. Essas duas frases permitem registrar a passagem dos nomes, mas não constituem fichas individuais nem identificam desenhos deles.
Quatro caracterizações breves documentadas pelo Sesc em 2024
Um documento oficial da exposição #OcupaSacy VIX situa outros quatro nomes da lista de 77. São descrições de uma linha, sem ficha completa ou retrato individual nessa fonte. Não ampliamos as pistas com atributos que o documento não traz.
- Sacy Brisa 07 · SESC ES, 2024
- Ligado ao vento, elemento que o documento relaciona à cidade de Vitória. Não informa aparência, medidas nem hábitos próprios.
- Sacya Arlequina 15 · SESC ES, 2024
- Apresentada junto de Momo como personagem carnavalesca. O texto não distingue sua roupa ou suas travessuras.
- Sacy Momo 16 · SESC ES, 2024
- Também descrito como personagem carnavalesco; não há nesse registro uma biografia separada da Arlequina.
- Sacya Atlânticacy 63 · SESC ES, 2024
- Associada à Mata Atlântica. A fonte não acrescenta características físicas ou uma história individual.
A mesma exposição menciona Sacy Café, Sacy Nóquio e Sacy Sururu. Esses nomes não constam da lista de 77 transcrita do almanaque da Tijuca; são registros de outra edição do projeto, e por isso não foram encaixados artificialmente na numeração de 2019–2020. O Sesc descreve Café junto aos cafezais, Nóquio como italiano e Sururu como uma variedade caiçara dos manguezais. Não há ali fichas completas desses três.
Uma ilustração a mais, ainda sem ficha localizada
O próprio #OcupaSacy publicou o desenho de Sacy Francisquinho, nome 50 do almanaque. A imagem o mostra cercado de pássaros e pipoca. Esses elementos podem ser vistos no papel, mas a postagem consultada não apresenta uma descrição narrativa individual; não presumimos dela um habitat ou poderes.

Por que ainda faltam fichas individuais? O almanaque da Tijuca transcreve os 77 nomes, mas publica só 12 fichas completas e cinco destaques; a edição de Taubaté permite acrescentar Safé. Quatro perfis vieram de postagens identificadas e outros quatro nomes ganharam apenas frases breves no documento do Sesc ES. O desenho de Francisquinho foi localizado sem sua ficha escrita. Não encontramos uma edição pública integral das outras fichas do livro original nem imagens confiáveis para cada personagem. Atribuir características pelo som do nome ou repetir a imagem de outro Sacy criaria informações falsas. O livro existe para consulta em registros da exposição, e o próprio autor ainda o apresenta como publicação futura.

Outra série de arte mostra como um nome ganha rosto: Odoberto Lino desenhou Sacis diferentes em 2017. Seu Saçurá abaixo tem olhos vermelhos e expressão ameaçadora. A imagem registra uma escolha estética do autor, sem funcionar como prova de uma descrição única para todas as comunidades.

O “Saci do Poá”: como nasceu um tipo que o documento não nomeia
O começo do livro conta que M. L. de Oliveira Filho modelou uma escultura de Saci com barro do Poá. Poá é o lugar de procedência do barro mencionado no texto. A foto e a descrição da peça saíram no jornal e ajudaram a provocar o inquérito. A descrição atribuía à figura, entre outros traços, uma perna, mão furada, orelha de morcego, espora de galo e fumaça pelos olhos.
Mais adiante, o depoimento de Nhô Vadô diz que ele discorda do Saci do Poá. A expressão aponta para aquela escultura e aquela concepção do personagem. Vadô contrapõe seus próprios olhos de fogo e suas marcas no chão. Quando uma lista extrai apenas “Poá” e o apresenta como um ser cujo poder é soltar fogo pelos olhos, troca o referente e mistura descrições opostas.
Material usado para modelar uma imagem concreta do Saci.
Nome tratado como espécie autônoma, sem que o livro faça essa classificação.
A correção foi demonstrada por Andriolli Costa. A leitura pode ser refeita diretamente no volume de 1918 digitalizado: primeiro a passagem da escultura, depois o testemunho de João B. de Andrade. É assim que se verifica a informação sem depender de uma lista copiada de outra.
O Saci pode ser pássaro, vento ou menino?
O canto de uma ave é uma das portas de entrada para as histórias. Miguel Milano, no inquérito, lembra o pássaro que parecia chamar “sa-cy” e associa a voz às travessuras atribuídas ao ser e à proteção dos ninhos. Isso não significa que cada narrador entendesse ave e menino como a mesma criatura literal. Em algumas narrativas, som e figura se aproximam; em outras, o pássaro anuncia, sugere ou empresta um nome.
Existe ainda uma ave real chamada saci, Tapera naevia, da família dos cucos, registrada em inventários ornitológicos como o WikiAves. Uma espécie de ave é uma classificação da zoologia; “tipos de Saci” nesta reportagem são versões culturais. Confundir as duas contagens criaria outro erro.
Redemoinho, assobio, fogo, cavalo cansado e comida desaparecida também funcionam como sinais do personagem em diferentes relatos. Quando algo estranho acontecia no caminho, na cozinha ou no trabalho, a narrativa oferecia uma forma de contá-lo. As versões refletem lugares concretos: ponte, roça, beira do rio, pouso de tropeiros, garimpo.
Da fala à imagem: por que o retrato mais famoso parece ser o único?
Fotografia de escultura, aquarela, capa de livro e televisão têm algo em comum: precisam mostrar uma figura. A tradição oral não precisa resolver cada detalhe do corpo. No papel e na tela, porém, alguém escolhe a cor, a roupa, a perna, o rosto. Uma imagem muito reproduzida acaba parecendo mais antiga e mais universal do que realmente é.
O Saci negro de uma perna, gorro vermelho e cachimbo é um retrato poderoso e importante. Não apaga a figura de pernas desiguais de Pires, o casaco vermelho do Trique nem a contradição da camisa do Taterê. As ilustrações desta matéria mostram interpretações identificadas de artistas; os fac-símiles mostram o que os depoentes registraram. Nem mesmo o Saci-Siriry, tão bem descrito no inquérito, ganhou aqui um retrato que possamos afirmar corresponder àquele relato.
Como pesquisar sem perder a voz de quem contou
- Anote a grafia exata. Sacy, Saci, Cerêrê, Siriry e Sadêrê podem trazer resultados diferentes no arquivo digital.
- Separe as pessoas. Quem viveu ou ouviu o caso? Quem o escreveu? Quem o editou ou citou décadas depois?
- Localize o trecho completo. Uma linha fora da página pode inverter uma descrição, como aconteceu com o barro do Poá.
- Respeite o limite da fonte. Se o registro dá somente um nome, ele não autoriza inventar vestimenta, poderes ou origem.
- Olhe a imagem pelo que ela é. Uma escultura contemporânea pode mostrar a força da tradição sem comprovar uma aparência de 1917.
Para continuar, o Sacip reúne os 73 depoimentos do inquérito, investiga as origens e transformações do personagem e descreve as características mais conhecidas do Saci. Este guia dá uma rota para comparar essas leituras sem reduzir o folclore a uma coleção de cartões.
Há um Saci para cada lugar — e uma responsabilidade para quem escreve
Quando a versão de uma ponte chega ao livro, ela não deixa de pertencer à memória de quem atravessava a ponte. O Saci do garimpo guarda marcas do trabalho de quem levava a matula. O casaco lembrado no interior paulista não precisa vestir todos os outros. Quanto mais atentos aos lugares e às vozes, mais completo fica o personagem.
O arquivo não pede que escolhamos entre um Saci “verdadeiro” e uma multidão de erros. Pede que leiamos com cuidado. O que tem nome, quem disse, onde foi impresso, o que foi acrescentado depois: é aí que as diferenças ficam interessantes. A maior variedade do Saci não cabe numa tabela de espécies. Está no modo como uma história segue viva ao mudar de boca, de paisagem e de época.
Fontes, documentos e créditos
- O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito (1918), fac-símile digitalizado. Consultar especialmente a abertura sobre o barro do Poá e os depoimentos de Carlos Silveira, João B. de Andrade, Miguel Milano, J. Pires, J. Pereira da Silva, André Capeta e a peça “Depoimento do próprio Sacy”. A edição digital disponibilizada no Internet Archive reproduz a publicação histórica.
- COUTO DE MAGALHÃES, José Vieira. O Selvagem (1876), p. 138. Registro anterior de Saci Cerêrê.
- COSTA, Andriolli. “Tipos de Saci?” (2018), Colecionador de Sacis. Investigação que identificou as leituras equivocadas sobre Poá e Teterê e reuniu nomes raros.
- SESC SÃO PAULO. “Sacys invadem o Sesc Interlagos” (2018). Apresentação da exposição #OcupaSacy e do inventário artístico com 77 personagens.
- SESC RIO DE JANEIRO. Almanaque #OcupaSacy: Os segredos dos Sacys, Sesc Tijuca (2019–2020). Página 14: relação integral dos 77 nomes. Página 15: destaques. Páginas 16–21: 12 fichas ilustradas. Exemplar digitalizado disponibilizado por terceiro no Scribd; a edição integral do livro da exposição não foi encontrada.
- SESC SÃO PAULO. Almanaque #OcupaSacy, Sesc Taubaté (2020). Publicação oficial no Flipsnack; página “Espécies de Sacys Taubateanos” com as fichas ilustradas de Fubá, Lombola e Safé, além dos destaques em página anterior. Ilustrações de Marcelo Bicalho, textos e curadoria de Rudá K. Andrade.
- #OCUPASACY. Ficha e imagem de Sacy Semeia (10 nov. 2020). Texto creditado a Rudá K. Andrade e arte a Marcelo Bicalho na própria publicação.
- #OCUPASACY. Ficha e imagem de Sacy Tietê (25 jan. 2021). Ilustração creditada a Marcelo Bicalho.
- #OCUPASACY. Ficha e imagem de Sacy Saíçara (2 fev. 2021). Ilustração creditada a Marcelo Bicalho; a mesma postagem menciona Salísio e Dendê em uma frase.
- O COLECIONADOR DE SACIS. Sacya Saçau (30 maio 2018). Breve apresentação da personagem e ilustração creditada a Marcelo Bicalho.
- SESC ESPÍRITO SANTO. Termo de referência para o catálogo #OcupaSacy VIX (2024). Resume Brisa, Momo, Arlequina e Atlânticacy; menciona personagens adicionais da edição de Vitória. É uma apresentação breve, não o catálogo completo.
- #OCUPASACY. Sacy Francisquinho (2019). Divulgação da ilustração de Marcelo Bicalho identificada como parte do Fabuloso Inventário dos 77 Sacys; sem ficha escrita na publicação consultada.
- ANDRADE, Rudá K. Página de publicações do autor. Apresenta O Fabuloso Inventário dos 77 Sacys como livro escrito para a exposição e ainda “a ser publicado”.
- BICALHO, Marcelo. Publicação sobre as ilustrações do Fabuloso Inventário dos 77 Sacys. O artista credita o texto a Rudá K. Andrade.
- LINO, Odoberto. Ilustrações de variantes do Saci apresentadas em 2017. As imagens nesta matéria são identificadas como interpretações do artista, e cada legenda aponta à publicação da respectiva obra.
- QUEIROZ, Renato da Silva. “Migração e metamorfose de um mito brasileiro: o saci, trickster da cultura caipira”, Revista do IEB (1995). Estudo sobre as transformações culturais do personagem.
- WikiAves. Saci (Tapera naevia). Consulta para distinguir a ave real das variantes narrativas.
Nota editorial: este guia dá prioridade às passagens que pudemos localizar e explicar. Os nomes raros reunidos em pesquisas secundárias são apresentados como pistas, sem perfis inventados. Na lista dos 77, as grafias acompanham o almanaque, inclusive as entradas distintas Sissiri e Siriri. Os 22 perfis resumem 12 fichas completas e cinco destaques da Tijuca, a ficha adicional de Safé em Taubaté e quatro perfis encontrados em publicações identificadas. Há ainda quatro caracterizações de uma linha num documento do Sesc ES. Salísio e Dendê aparecem apenas numa menção breve, e Francisquinho tem desenho publicado, mas sem ficha escrita localizada; esses três não entram na conta de perfis. A capa reúne sete ilustrações reais dos almanaques, sem personagens gerados; as imagens adicionais são desenhos de Marcelo Bicalho publicados com seus respectivos nomes. Os fac-símiles são registros de publicações de épocas diferentes e o inventário de 77 é uma criação artística posterior. As fichas individuais restantes não foram localizadas para conferência.







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