Uma investigação nos arquivos
Antes de aparecer nos livros de Monteiro Lobato, o Saci já assobiava em jornais, estudos, partituras e revistas ilustradas. Só que ele ainda não tinha uma aparência única — e alguns dos traços hoje considerados indispensáveis nem sempre estavam lá.
Esta reportagem abre os documentos publicados entre 1859 e 1917 para acompanhar essa transformação. Em vez de repetir uma origem pronta, vamos separar o que cada fonte realmente registra daquilo que foi interpretado depois.
O arquivo fala — mas precisa ser lido com cuidado
Foram cruzados periódicos digitalizados, livros em domínio público, catálogos de arquivos e estudos acadêmicos. Grafias antigas foram mantidas quando ajudam a identificar a fonte, mas explicadas em linguagem atual.
- Documento: informa o que está efetivamente impresso na página.
- Contexto: ajuda a entender época, autoria, circulação e vocabulário.
- Interpretação: é apresentada como hipótese, nunca como fato escondido no papel.
1859: o Saci entra no jornal — e o autor deixa apenas uma inicial
Na edição nº 1.034 do Correio Paulistano, a seção “Tradicções populares de Minas e S. Paulo” reserva parte de sua crônica ao “Saci Sererê”. O jornal circulava em São Paulo, mas o próprio título anuncia histórias relacionadas também a Minas Gerais.
O texto começa pelo canto de uma ave, ouvido como “sacy”, e passa para um ser misterioso capaz de mudar de forma. Segundo a versão atribuída a uma velha narradora, sua aparência preferida seria a de um menino negro usando carapuça e roupa vermelha. Ele frequentaria minas, cavernas, casas desertas, porteiras e caminhos percorridos por viajantes.
Menino negro, carapuça e roupa vermelhas, mudanças de forma, canto associado ao pássaro, viagens noturnas, cavalos, rosário, água benta e aprisionamento em uma garrafa.
Uma perna só, cachimbo, peneira lançada no redemoinho ou uma regra detalhada sobre rolha marcada com cruz.
Isso corrige uma repetição comum: o Saci de 1859 não é descrito ali como perneta. A perna ausente aparecerá com nitidez em outro documento, anos depois.
O texto também compara o personagem a Odin, figura da mitologia nórdica. Essa comparação pertence ao raciocínio do cronista — não é prova de que a tradição popular brasileira tivesse origem escandinava.
Ver a edição nº 1.034 completa em PDF na Biblioteca Nacional ↗
Onde o Saci aparece nessa linha do tempo
Os pontos indicam locais de publicação, apresentação ou guarda documental citados na reportagem — não o lugar de origem da tradição.
- São Paulo · SPCorreio Paulistano
- Rio de Janeiro · RJA corte na roça
- Ouro Preto · MGconcerto de Chiquinha Gonzaga
- Mogi Mirim · SPjornal O Sacy
Uma linha do tempo antes de Lobato
A crônica assinada “C.”
O Correio Paulistano apresenta um ser mutável, associado a um pássaro e a um menino negro de vermelho. O texto diz que a tradição já era contada pelas avós.
A perna aparece no papel
Em O Selvagem, Couto de Magalhães descreve um “pequeno Tapuio, manco de um pé”, com barrete vermelho e feridas nos joelhos.
O nome vira composição
Chiquinha Gonzaga compõe “Sacy-Pererê” em 1884. A obra integra A corte na roça, encenada e publicada em 1885.
O Saci chega ao título do jornal
O Sacy: bosina da mocidade usa o nome do personagem como identidade de uma publicação local.
O personagem ganha sequência visual
A Revista da Semana publica histórias em imagens nas quais o Saci assusta adultos e participa de perseguições.
Lobato chama os leitores
O jornal O Estado de S. Paulo convida o público a enviar relatos; parte do material será reunida em livro no ano seguinte.
1876: o documento que coloca a perna ausente na descrição
Dezessete anos depois da crônica do Correio Paulistano, o general e escritor José Vieira Couto de Magalhães publicou O Selvagem. Na página 138, o Saci Cererê é apresentado entre entidades relacionadas à lua e aos vegetais.
É um passo importante na formação visual do personagem, mas a fonte precisa de contexto. “Tapuio” é um termo histórico usado de maneiras diferentes — muitas vezes genéricas ou pejorativas — para povos indígenas. Além disso, a organização das entidades como uma espécie de sistema religioso é interpretação do autor, feita dentro das ideias de seu tempo.
“Manco de um pé”, barrete vermelho e feridas nos dois joelhos.
O trecho não traz cachimbo, redemoinho, peneira nem a fórmula popular completa da garrafa.
1884: o Saci também vira música
Antes de o personagem se consolidar na literatura infantil, seu nome já circulava nos palcos. Chiquinha Gonzaga compôs “Sacy-Pererê” em 1884 para a opereta A corte na roça, encenada no Rio de Janeiro em janeiro de 1885.
O acervo dedicado à compositora informa que a peça foi publicada provavelmente em 1885, reapareceu em outros espetáculos e recebeu gravações. Esse caminho mostra que o Saci não vivia apenas em relatos de medo: ele também entrava no repertório urbano, musical e teatral.
Consultar partitura, histórico e gravações no acervo oficial ↗
1899: quando “O Sacy” virou nome de jornal
O Arquivo Público do Estado de São Paulo guarda o terceiro número de O Sacy: bosina da mocidade, publicado em Mogi Mirim em 26 de março de 1899. O exemplar mostra algo diferente dos relatos anteriores: o nome do personagem já era reconhecível o bastante para batizar um periódico.
O catálogo, sozinho, não permite afirmar que a edição inteira tratava da lenda. A evidência segura é o título da publicação e sua existência material. Esse cuidado evita transformar um dado bibliográfico em uma história que o documento não conta.
Ver a ficha de O Sacy no Arquivo Público do Estado de São Paulo ↗
1909: o Saci é chamado — e assusta quem o invocou
Na edição de 3 de outubro de 1909, a Revista da Semana publicou a sequência “Um susto e uma carreira”. Uma mulher ameaça chamar papão, lobisomem e Saci para fazer uma criança parar de chorar. Quando o Saci aparece perguntando quem o chamou, é a adulta que foge.
A página é valiosa porque não apenas fala do personagem: ela o torna visível para um público amplo. Também revela estereótipos raciais presentes na imprensa da época. Reproduzir o documento exige reconhecer esse contexto, não normalizá-lo.
1910: uma perseguição em seis quadros
No ano seguinte, a mesma revista publicou “O Sacy Pererê”. A história mostra Chico Perigo construindo uma engenhoca para se livrar do Saci. O plano dá errado, o personagem aparece e a confusão lança o homem pelos ares.
As duas páginas antecipam uma característica decisiva da cultura de massa: texto e imagem começam a fixar gestos, roupas e situações. Ainda assim, as representações são diferentes entre si — prova de que não havia um modelo único.
O Saci era igual ao de hoje?
| Fonte | Como é descrito | O que faz | O que ainda não aparece |
|---|---|---|---|
| 1859 Correio Paulistano | Ser mutável; prefere a forma de menino negro com carapuça e roupa vermelhas. | Assobia, aparece em caminhos e porteiras, mexe com viajantes e cavalos; pode ser preso em garrafa. | Uma perna só e cachimbo. |
| 1876 O Selvagem | Pequeno “Tapuio”, manco de um pé, barrete vermelho e feridas nos joelhos. | É colocado entre entidades ligadas à lua e aos vegetais. | Cachimbo, redemoinho e peneira. |
| 1909 Revista da Semana | Figura negra e pequena, desenhada como assombração popular. | Surge quando é chamado e provoca uma fuga. | Uma explicação extensa sobre poderes. |
| 1910 Revista da Semana | Personagem visual de chapéu/gorro, corpo escuro e movimento ágil. | Escapa de uma armadilha e derruba o perseguidor. | Uma biografia fixa ou origem única. |
Por que o nome muda tanto?
Nos arquivos aparecem formas como Saci, Sacy, Saci Sererê, Saci Cererê e Sacy Pererê. Parte da variação vem das antigas regras ortográficas; parte nasce da oralidade e do modo como diferentes pessoas escutavam e escreviam o nome.
As grafias são pistas de pesquisa. Procurar apenas “Saci-Pererê” em um acervo digital pode esconder páginas catalogadas como “Sacy”, “Cererê” ou “Sererê”. Por isso, a investigação combinou várias formas.
Relato popular, literatura, crônica ou notícia?
Nem tudo que sai em jornal é reportagem no sentido atual. A crônica de 1859 mistura memória popular, comentário do autor e comparação mitológica. As páginas de 1909 e 1910 são narrativas humorísticas ilustradas. O Selvagem é um estudo do século XIX atravessado pelas ideias e limitações de seu autor.
Para não colocar documentos diferentes no mesmo saco, usamos quatro perguntas:
- Quem fala? Um informante identificado, o autor, a redação ou um personagem?
- Qual é o gênero? Relato, crônica, ficção, anúncio, partitura ou estudo?
- O que está literalmente registrado? Aparência, ação, lugar e nome.
- O que foi acrescentado depois? Interpretações, sínteses e imagens popularizadas em outras épocas.
1917: Monteiro Lobato encontra um personagem que já circulava
Quando Monteiro Lobato lançou seu inquérito no Estadinho, em 1917, ele não descobriu nem criou o Saci. Encontrou um personagem que já aparecia na imprensa havia pelo menos 58 anos e que circulava, pela própria declaração da fonte de 1859, desde antes daquela publicação.
O mérito documental do inquérito está em reunir muitas versões enviadas por leitores. Em 1918, 73 depoimentos foram publicados em O Sacy-Pererê: resultado de um inquérito. O conjunto ampliou a visibilidade nacional do personagem e ajudou a consolidar traços que seriam retomados em obras posteriores.
Mas a linha do tempo muda a pergunta. Em vez de “como Lobato inventou o Saci?”, a investigação histórica pergunta: quais versões já existiam, quais foram selecionadas e o que ganhou força depois?
Para conhecer o passo seguinte, leia a reportagem do Sacip sobre os 73 depoimentos do inquérito de 1918. Para uma visão mais ampla, consulte também as origens e transformações do Saci-Pererê.
O arquivo não encerra a história
A primeira página localizada não é o nascimento do Saci. Quando “C.” escreveu que aquela era uma tradição das avós, reconheceu que o personagem já vinha de longe — pela voz, pela memória e por caminhos que o papel nunca registrou por inteiro.
O que os documentos permitem enxergar é a mudança: um ser de muitas formas em 1859; um pequeno personagem manco de um pé em 1876; nome de música, de jornal e de histórias ilustradas nas décadas seguintes; centro de um grande inquérito em 1917.
Antes de caber numa imagem conhecida, o Saci foi movimento. E talvez seja justamente por isso que continua tão difícil prendê-lo numa única versão.
Fontes e documentos consultados
- Correio Paulistano, edição nº 1.034, 22 set. 1859, p. 2–3 — Hemeroteca Digital Brasileira.
- COUTO DE MAGALHÃES, José Vieira. O Selvagem, 1876, p. 138 — Internet Archive.
- Acervo Digital Chiquinha Gonzaga. “Sacy-Pererê”, composição de 1884 e primeira edição de 1885.
- O Sacy: bosina da mocidade, Mogi Mirim, 26 mar. 1899 — Arquivo Público do Estado de São Paulo.
- Revista da Semana, nº 490, 3 out. 1909 — Internet Archive.
- Revista da Semana, nº 542, 2 out. 1910 — Internet Archive.
- COSTA, Andriolli. “Saci centenário: uma análise mitocrítica de Saci Pererê — resultado de um inquérito”, Boitatá, 2021.
Transparência: esta reportagem distingue fonte primária, contexto e interpretação. Caso um documento anterior ou uma atribuição comprovada para “C.” seja localizado, a linha do tempo será atualizada e a correção ficará registrada.




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