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História

O Saci antes de Monteiro Lobato: o que os jornais antigos contavam

Uma investigação em documentos de 1859 a 1917 revela um Saci mutável, um autor conhecido apenas como “C.” e detalhes que surgiram aos poucos.

Por · Publicado em · 12 min de leitura
Montagem editorial com páginas históricas sobre o Saci publicadas antes de Monteiro Lobato

Uma investigação nos arquivos

Antes de aparecer nos livros de Monteiro Lobato, o Saci já assobiava em jornais, estudos, partituras e revistas ilustradas. Só que ele ainda não tinha uma aparência única — e alguns dos traços hoje considerados indispensáveis nem sempre estavam lá.

Esta reportagem abre os documentos publicados entre 1859 e 1917 para acompanhar essa transformação. Em vez de repetir uma origem pronta, vamos separar o que cada fonte realmente registra daquilo que foi interpretado depois.

1859primeiro registro jornalístico localizado
5 grafiasSaci, Sacy, Sererê, Cererê e Pererê
58 anosaté o inquérito lançado por Lobato
COMO PESQUISAMOS

O arquivo fala — mas precisa ser lido com cuidado

Foram cruzados periódicos digitalizados, livros em domínio público, catálogos de arquivos e estudos acadêmicos. Grafias antigas foram mantidas quando ajudam a identificar a fonte, mas explicadas em linguagem atual.

  • Documento: informa o que está efetivamente impresso na página.
  • Contexto: ajuda a entender época, autoria, circulação e vocabulário.
  • Interpretação: é apresentada como hipótese, nunca como fato escondido no papel.

1859: o Saci entra no jornal — e o autor deixa apenas uma inicial

Na edição nº 1.034 do Correio Paulistano, a seção “Tradicções populares de Minas e S. Paulo” reserva parte de sua crônica ao “Saci Sererê”. O jornal circulava em São Paulo, mas o próprio título anuncia histórias relacionadas também a Minas Gerais.

O texto começa pelo canto de uma ave, ouvido como “sacy”, e passa para um ser misterioso capaz de mudar de forma. Segundo a versão atribuída a uma velha narradora, sua aparência preferida seria a de um menino negro usando carapuça e roupa vermelha. Ele frequentaria minas, cavernas, casas desertas, porteiras e caminhos percorridos por viajantes.

O QUE O DOCUMENTO REALMENTE DIZCorreio Paulistano · 22 set. 1859
Está na fonte

Menino negro, carapuça e roupa vermelhas, mudanças de forma, canto associado ao pássaro, viagens noturnas, cavalos, rosário, água benta e aprisionamento em uma garrafa.

Não aparece nesse trecho

Uma perna só, cachimbo, peneira lançada no redemoinho ou uma regra detalhada sobre rolha marcada com cruz.

Isso corrige uma repetição comum: o Saci de 1859 não é descrito ali como perneta. A perna ausente aparecerá com nitidez em outro documento, anos depois.

O texto também compara o personagem a Odin, figura da mitologia nórdica. Essa comparação pertence ao raciocínio do cronista — não é prova de que a tradição popular brasileira tivesse origem escandinava.

GEOGRAFIA DOS DOCUMENTOS

Onde o Saci aparece nessa linha do tempo

Os pontos indicam locais de publicação, apresentação ou guarda documental citados na reportagem — não o lugar de origem da tradição.

Mapa do Brasil com registros históricos do Saci no SudesteSão Paulo, Mogi Mirim, Rio de Janeiro e Ouro Preto aparecem destacados.
  1. São Paulo · SPCorreio Paulistano
  2. Rio de Janeiro · RJA corte na roça
  3. Ouro Preto · MGconcerto de Chiquinha Gonzaga
  4. Mogi Mirim · SPjornal O Sacy
O livro O Selvagem foi publicado no Rio de Janeiro em 1876 e também integra a cronologia.

Uma linha do tempo antes de Lobato

SÃO PAULO · JORNAL

A crônica assinada “C.”

O Correio Paulistano apresenta um ser mutável, associado a um pássaro e a um menino negro de vermelho. O texto diz que a tradição já era contada pelas avós.

RIO DE JANEIRO · LIVRO

A perna aparece no papel

Em O Selvagem, Couto de Magalhães descreve um “pequeno Tapuio, manco de um pé”, com barrete vermelho e feridas nos joelhos.

RIO DE JANEIRO · MÚSICA E TEATRO

O nome vira composição

Chiquinha Gonzaga compõe “Sacy-Pererê” em 1884. A obra integra A corte na roça, encenada e publicada em 1885.

MOGI MIRIM · IMPRENSA

O Saci chega ao título do jornal

O Sacy: bosina da mocidade usa o nome do personagem como identidade de uma publicação local.

RIO DE JANEIRO · REVISTA ILUSTRADA

O personagem ganha sequência visual

A Revista da Semana publica histórias em imagens nas quais o Saci assusta adultos e participa de perseguições.

SÃO PAULO · INQUÉRITO

Lobato chama os leitores

O jornal O Estado de S. Paulo convida o público a enviar relatos; parte do material será reunida em livro no ano seguinte.

1876: o documento que coloca a perna ausente na descrição

Dezessete anos depois da crônica do Correio Paulistano, o general e escritor José Vieira Couto de Magalhães publicou O Selvagem. Na página 138, o Saci Cererê é apresentado entre entidades relacionadas à lua e aos vegetais.

Página 138 de O Selvagem, de 1876, com a descrição do Saci Cererê
Na página 138, o Saci é descrito como um pequeno “Tapuio”, “manco de um pé”, com barrete vermelho.FONTE: O SELVAGEM, 1876 · INTERNET ARCHIVE · DOMÍNIO PÚBLICO

É um passo importante na formação visual do personagem, mas a fonte precisa de contexto. “Tapuio” é um termo histórico usado de maneiras diferentes — muitas vezes genéricas ou pejorativas — para povos indígenas. Além disso, a organização das entidades como uma espécie de sistema religioso é interpretação do autor, feita dentro das ideias de seu tempo.

O QUE MUDA EM 1876Comparação com 1859
Entra na descrição

“Manco de um pé”, barrete vermelho e feridas nos dois joelhos.

Ainda não é o retrato atual

O trecho não traz cachimbo, redemoinho, peneira nem a fórmula popular completa da garrafa.

1884: o Saci também vira música

Antes de o personagem se consolidar na literatura infantil, seu nome já circulava nos palcos. Chiquinha Gonzaga compôs “Sacy-Pererê” em 1884 para a opereta A corte na roça, encenada no Rio de Janeiro em janeiro de 1885.

O acervo dedicado à compositora informa que a peça foi publicada provavelmente em 1885, reapareceu em outros espetáculos e recebeu gravações. Esse caminho mostra que o Saci não vivia apenas em relatos de medo: ele também entrava no repertório urbano, musical e teatral.

Interpretação da composição “Sacy-Pererê”, ligada à opereta A corte na roça.FONTE: ACERVO DIGITAL CHIQUINHA GONZAGA / YOUTUBE

1899: quando “O Sacy” virou nome de jornal

O Arquivo Público do Estado de São Paulo guarda o terceiro número de O Sacy: bosina da mocidade, publicado em Mogi Mirim em 26 de março de 1899. O exemplar mostra algo diferente dos relatos anteriores: o nome do personagem já era reconhecível o bastante para batizar um periódico.

O catálogo, sozinho, não permite afirmar que a edição inteira tratava da lenda. A evidência segura é o título da publicação e sua existência material. Esse cuidado evita transformar um dado bibliográfico em uma história que o documento não conta.

1909: o Saci é chamado — e assusta quem o invocou

Na edição de 3 de outubro de 1909, a Revista da Semana publicou a sequência “Um susto e uma carreira”. Uma mulher ameaça chamar papão, lobisomem e Saci para fazer uma criança parar de chorar. Quando o Saci aparece perguntando quem o chamou, é a adulta que foge.

Página ilustrada Um susto e uma carreira, publicada na Revista da Semana em 1909
A graça nasce da inversão: o Saci atende ao chamado, mas quem o invocou sai correndo.FONTE: REVISTA DA SEMANA, Nº 490, 1909 · INTERNET ARCHIVE

A página é valiosa porque não apenas fala do personagem: ela o torna visível para um público amplo. Também revela estereótipos raciais presentes na imprensa da época. Reproduzir o documento exige reconhecer esse contexto, não normalizá-lo.

1910: uma perseguição em seis quadros

No ano seguinte, a mesma revista publicou “O Sacy Pererê”. A história mostra Chico Perigo construindo uma engenhoca para se livrar do Saci. O plano dá errado, o personagem aparece e a confusão lança o homem pelos ares.

Página O Sacy Pererê, publicada na Revista da Semana em 1910
Em 1910, o Saci já protagonizava uma narrativa visual completa na imprensa carioca.FONTE: REVISTA DA SEMANA, Nº 542, 1910 · INTERNET ARCHIVE

As duas páginas antecipam uma característica decisiva da cultura de massa: texto e imagem começam a fixar gestos, roupas e situações. Ainda assim, as representações são diferentes entre si — prova de que não havia um modelo único.

O Saci era igual ao de hoje?

FonteComo é descritoO que fazO que ainda não aparece
1859
Correio Paulistano
Ser mutável; prefere a forma de menino negro com carapuça e roupa vermelhas.Assobia, aparece em caminhos e porteiras, mexe com viajantes e cavalos; pode ser preso em garrafa.Uma perna só e cachimbo.
1876
O Selvagem
Pequeno “Tapuio”, manco de um pé, barrete vermelho e feridas nos joelhos.É colocado entre entidades ligadas à lua e aos vegetais.Cachimbo, redemoinho e peneira.
1909
Revista da Semana
Figura negra e pequena, desenhada como assombração popular.Surge quando é chamado e provoca uma fuga.Uma explicação extensa sobre poderes.
1910
Revista da Semana
Personagem visual de chapéu/gorro, corpo escuro e movimento ágil.Escapa de uma armadilha e derruba o perseguidor.Uma biografia fixa ou origem única.

Por que o nome muda tanto?

Nos arquivos aparecem formas como Saci, Sacy, Saci Sererê, Saci Cererê e Sacy Pererê. Parte da variação vem das antigas regras ortográficas; parte nasce da oralidade e do modo como diferentes pessoas escutavam e escreviam o nome.

As grafias são pistas de pesquisa. Procurar apenas “Saci-Pererê” em um acervo digital pode esconder páginas catalogadas como “Sacy”, “Cererê” ou “Sererê”. Por isso, a investigação combinou várias formas.

Nem tudo que sai em jornal é reportagem no sentido atual. A crônica de 1859 mistura memória popular, comentário do autor e comparação mitológica. As páginas de 1909 e 1910 são narrativas humorísticas ilustradas. O Selvagem é um estudo do século XIX atravessado pelas ideias e limitações de seu autor.

Para não colocar documentos diferentes no mesmo saco, usamos quatro perguntas:

  1. Quem fala? Um informante identificado, o autor, a redação ou um personagem?
  2. Qual é o gênero? Relato, crônica, ficção, anúncio, partitura ou estudo?
  3. O que está literalmente registrado? Aparência, ação, lugar e nome.
  4. O que foi acrescentado depois? Interpretações, sínteses e imagens popularizadas em outras épocas.

1917: Monteiro Lobato encontra um personagem que já circulava

Quando Monteiro Lobato lançou seu inquérito no Estadinho, em 1917, ele não descobriu nem criou o Saci. Encontrou um personagem que já aparecia na imprensa havia pelo menos 58 anos e que circulava, pela própria declaração da fonte de 1859, desde antes daquela publicação.

O mérito documental do inquérito está em reunir muitas versões enviadas por leitores. Em 1918, 73 depoimentos foram publicados em O Sacy-Pererê: resultado de um inquérito. O conjunto ampliou a visibilidade nacional do personagem e ajudou a consolidar traços que seriam retomados em obras posteriores.

Mas a linha do tempo muda a pergunta. Em vez de “como Lobato inventou o Saci?”, a investigação histórica pergunta: quais versões já existiam, quais foram selecionadas e o que ganhou força depois?

Para conhecer o passo seguinte, leia a reportagem do Sacip sobre os 73 depoimentos do inquérito de 1918. Para uma visão mais ampla, consulte também as origens e transformações do Saci-Pererê.

O arquivo não encerra a história

A primeira página localizada não é o nascimento do Saci. Quando “C.” escreveu que aquela era uma tradição das avós, reconheceu que o personagem já vinha de longe — pela voz, pela memória e por caminhos que o papel nunca registrou por inteiro.

O que os documentos permitem enxergar é a mudança: um ser de muitas formas em 1859; um pequeno personagem manco de um pé em 1876; nome de música, de jornal e de histórias ilustradas nas décadas seguintes; centro de um grande inquérito em 1917.

Antes de caber numa imagem conhecida, o Saci foi movimento. E talvez seja justamente por isso que continua tão difícil prendê-lo numa única versão.


Fontes e documentos consultados

Transparência: esta reportagem distingue fonte primária, contexto e interpretação. Caso um documento anterior ou uma atribuição comprovada para “C.” seja localizado, a linha do tempo será atualizada e a correção ficará registrada.

RESPOSTAS DIRETAS

Perguntas frequentes

Qual é o primeiro registro do Saci em jornal?

O registro jornalístico mais antigo localizado nesta pesquisa é uma crônica publicada no Correio Paulistano em 22 de setembro de 1859. Novas digitalizações podem revelar documentos anteriores, por isso a formulação correta é “primeiro localizado”, não “primeiro de todos”.

Quem escreveu a crônica de 1859?

O texto termina apenas com “C.”. Não encontramos, nas fontes consultadas, uma atribuição documental segura para essa inicial. A identidade do autor permanece desconhecida.

O Saci de 1859 já tinha uma perna só?

Não nessa fonte. A crônica fala em um menino negro de carapuça e roupa vermelhas, capaz de mudar de forma, mas não registra uma perna só. A descrição “manco de um pé” aparece claramente em O Selvagem, de 1876.

Monteiro Lobato criou o Saci?

Não. Documentos de 1859, 1876, 1885, 1899, 1909 e 1910 mostram que o personagem já circulava. Lobato organizou um inquérito em 1917 e publicou parte das respostas em 1918, contribuindo para ampliar e fixar sua presença na cultura brasileira.

Por que existem tantas grafias?

Porque a ortografia mudou e porque o nome circulava oralmente em diferentes regiões. Saci, Sacy, Sererê, Cererê e Pererê podem levar a registros distintos nos acervos.

Os documentos provam que o Saci existe?

Eles provam que pessoas escreviam, contavam, temiam, desenhavam e cantavam histórias sobre o Saci. São evidências históricas de uma crença e de uma tradição cultural, não uma comprovação científica de um ser sobrenatural.

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SOBRE O AUTOR

Felipe

Felipe Rodrigues Adão é escritor amador, observador de Saci e um dos idealizadores do Sacip — Sociedade dos Observadores de Saci de Pontal. Migrante do Vale do Jequitinhonha, hoje mora em Pontal, no interior de São Paulo, e é apaixonado pela cultura popular brasileira e pelas histórias, tradições e saberes transmitidos entre gerações. No projeto, contribui para a valorização do folclore, da memória local e da identidade cultural brasileira, ajudando a construir um espaço dedicado à preservação de lendas, causos, personagens e manifestações populares.

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