OPINIÃO · APURAÇÃO EM 8 DE OUTUBRO DE 2026
Em 17 de abril de 2016, na votação do impeachment de Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro homenageou Carlos Alberto Brilhante Ustra e o chamou de “o pavor de Dilma Rousseff”. A frase está na transcrição da Câmara. Meses depois, o Conselho de Ética rejeitou, por 11 votos a 1, o parecer favorável à abertura de um processo contra o deputado por aquela homenagem. [1, 2]
Esse episódio ajuda a localizar uma responsabilidade que costuma desaparecer da discussão. O autoritarismo ganhou espaço porque teve defensores, mas também porque encontrou instituições e aliados dispostos a tolerá-lo. Exaltar um agente da repressão diante de uma mulher que foi presa e torturada pela ditadura era uma escolha política. Tratar essa escolha como detalhe aceitável ajudou a torná-la parte do cotidiano parlamentar.
Minha posição é que o crescimento da extrema direita brasileira exige uma explicação que leve a sério tanto os sofrimentos sociais quanto quem os transformou em poder. Desemprego, medo da violência e descrença nos partidos abriram oportunidades. Organizações, lideranças, redes digitais e setores das elites trabalharam para ocupá-las. Nada disso tornou inevitável a adesão a um projeto autoritário.
O que cresceu: votos, organização e influência
A pergunta do título precisa de uma primeira precisão: o crescimento não foi contínuo, nem ocorreu da mesma maneira em todas as eleições. Bolsonaro venceu em 2018 e perdeu em 2022. O movimento que se organizou em torno dele, porém, continuou capaz de disputar a Presidência e de influenciar o debate público. Perder o governo não desfez suas redes de apoio.
Os resultados oficiais ajudam a dimensionar essa permanência. Eles medem votos em candidatos, e não a quantidade de brasileiros que apoiam uma ditadura. [3–5]
| Eleição e turno | Candidato | Votos válidos | Situação |
|---|---|---|---|
| 2018 · segundo turno | Jair Bolsonaro | 55,13% | Eleito |
| 2022 · segundo turno | Jair Bolsonaro | 49,10% | Derrotado por Lula |
| 2026 · primeiro turno | Flávio Bolsonaro | 47,03% | Classificado ao segundo turno |
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral. O dado de 2026 é o divulgado com 99,99% das urnas totalizadas, na madrugada de 5 de outubro; Lula tinha 45,16%. O segundo turno está previsto para 25 de outubro. Turnos distintos não formam uma série diretamente comparável. A tabela mostra a competitividade eleitoral de candidaturas desse campo, sem prever o resultado final de 2026.

Direita e extrema direita não são a mesma coisa
Uma pessoa pode defender propriedade privada, valores religiosos ou políticas econômicas conservadoras e aceitar plenamente eleições livres, oposição, liberdade de imprensa e direitos iguais. Isso faz parte da disputa democrática. O problema começa quando o adversário passa a ser tratado como inimigo que deve perder direitos, ou quando a vitória de um líder é apresentada como condição para reconhecer a legitimidade da eleição.
A literatura distingue diferentes direitas e debate a fronteira entre direita radical e extrema direita. Neste artigo, uso “extrema direita” para discutir o campo que normaliza o autoritarismo, hostiliza o pluralismo e admite a exclusão política de adversários e minorias. O rótulo descreve orientações, discursos e práticas; não substitui o exame do que cada pessoa faz. [7, 25]
O bolsonarismo também reúne correntes que não pensam da mesma forma sobre tudo. André Kaysel e Alvaro Bianchi o analisam como uma coalizão discursiva: tradições ultraliberais, conservadoras cristãs, autoritárias militares e neofascistas encontraram pontos de união, especialmente no anticomunismo e no antipetismo. É uma interpretação acadêmica dessa composição, não uma pesquisa que classifique individualmente todos os seus eleitores. [8]
Essa distinção torna a crítica mais responsável. Um voto pode expressar identificação, rejeição ao outro candidato, cálculo econômico ou lealdade partidária. As responsabilidades de uma liderança que promove rupturas democráticas precisam ser examinadas por seus atos. Confundir tudo impede entender por que pessoas diferentes acabam sustentando o mesmo projeto.
O autoritarismo brasileiro não começou no WhatsApp
A Comissão Nacional da Verdade documentou tortura, mortes, desaparecimentos e perseguições durante a ditadura, incluindo violações contra trabalhadores e povos indígenas. Esse passado ajuda a compreender o peso de uma homenagem como a feita a Ustra. Há vítimas, documentos e responsabilidades por trás de uma frase pronunciada no plenário. [9]
A Constituição de 1988 ampliou direitos e estabeleceu a democracia como compromisso institucional. Sua promulgação, porém, não eliminou automaticamente práticas violentas, hierarquias sociais ou a ideia de que determinadas pessoas merecem menos proteção do Estado. A minha leitura é que o bolsonarismo conseguiu apresentar parte dessa herança como solução para os problemas do presente.
Quando alguém promete ordem por meio da humilhação de adversários, da repressão indiscriminada ou da glorificação da ditadura, oferece uma resposta conhecida a uma angústia real. Ela parece simples porque apaga o custo: quem poderá falar, quem será acusado, quem terá defesa e quais limites o poder deverá respeitar.

Também houve resistência: movimentos de trabalhadores, organizações negras, mulheres, comunidades religiosas, artistas e estudantes disputaram o direito de participar da vida pública. A história brasileira contém projetos autoritários e lutas contra eles. Tratar o autoritarismo como uma característica natural do povo brasileiro apaga justamente essas lutas.
No Sacip, o artigo A cultura popular que incomodava a ditadura acompanha essa relação entre repressão, expressão cultural e organização social. Ela ajuda a entender por que liberdade política também significa poder criar, reunir pessoas e contar a própria história.
Junho de 2013 abriu uma disputa, não um destino
As manifestações de junho de 2013 reuniram insatisfações diferentes. André Singer examinou a combinação de classes e ideologias presente nos protestos, com atenção aos limites das pesquisas disponíveis. A heterogeneidade é fundamental: demandas por transporte, serviços públicos e participação não podem ser transformadas retrospectivamente num programa único da extrema direita. [10]
Junho tornou visível uma crise de representação. Muita gente queria ser ouvida e desconfiava dos canais existentes. Esse espaço foi disputado. A capacidade de uma corrente ocupar as ruas e organizar a indignação não significa que ela tenha criado todas as reivindicações que ali apareceram.
Há outro dado que complica a explicação baseada apenas na crise: a pesquisa de Camila Rocha localiza a organização da nova direita em redes e grupos anteriores a 2013, incluindo o período de expansão do lulismo. Seu trabalho acompanha a construção de espaços de debate, vínculos e organizações entre 2006 e 2018. A oportunidade política encontrou gente que já vinha se preparando. [6]

Minha conclusão é que a extrema direita conseguiu ligar parte da insatisfação a um projeto próprio. Para isso, precisou de organização, linguagem e alianças. A passagem de um protesto por direitos para uma política de exclusão resulta de uma disputa; não pode ser tratada como evolução obrigatória de quem saiu à rua.
Crise econômica e antipetismo deram força à promessa de ruptura
A recessão de 2015 e 2016 aprofundou a insegurança. Os registros do IBGE mostram a contração da economia nos dois anos. Para quem perdeu trabalho, viu a renda diminuir ou passou a temer o mês seguinte, a insatisfação com o governo tinha razões materiais. [11]
Essa experiência, entretanto, não trazia uma instrução política pronta. Poderia alimentar a defesa de serviços públicos, de proteção trabalhista, de uma mudança de governo ou de um líder autoritário. O que precisa ser explicado é como certas respostas ganharam mais força que outras.
Pesquisas sobre a eleição de 2018 identificam o peso do antipetismo e da rejeição aos partidos no voto em Bolsonaro. Os trabalhos de Oswaldo do Amaral e de Mario Fuks, Ednaldo Ribeiro e Julian Borba permitem enxergar tanto a rejeição específica ao PT quanto uma hostilidade mais ampla à política partidária. São estudos sobre associações e comportamento eleitoral; não reduzem milhões de decisões a uma motivação única. [12, 13]
Bolsonaro se apresentou como possibilidade de ruptura. A imagem de alguém que enfrentaria todo o sistema tornou secundária, para parte do público, a pergunta sobre o que faria com o poder. O desejo de punir os responsáveis por uma crise passou a conviver com a tolerância a ameaças contra direitos e instituições.
A corrupção precisava ser combatida; os processos também precisavam ser legais
A discussão exige precisão sobre a Lava Jato. Em 2021, o STF confirmou a anulação das condenações de Lula julgadas em Curitiba por incompetência daquele juízo. O tribunal também examinou, em decisão distinta, a suspeição de Sergio Moro no caso do tríplex. Essas decisões dizem respeito às garantias do processo; não permitem concluir que nunca houve corrupção no país nem que qualquer acusação seja verdadeira. [16]
Na minha avaliação, um combate à corrupção que admite abandonar regras conforme o acusado enfraquece a própria democracia que diz proteger. O eleitor tem direito de cobrar governos e partidos. Uma liderança não ganha autorização para ameaçar opositores só porque se apresenta como inimiga da corrupção.
Votar em Bolsonaro não prova concordância com todas as suas ideias
Mark Setzler examinou a relação entre o voto em Bolsonaro e algumas de suas posições controversas. Seu estudo encontrou maior capacidade explicativa em fatores como identificação ideológica e sentimentos partidários do que numa simples coincidência entre todas as opiniões do candidato e do eleitor. Isso ajuda a explicar a amplitude da coalizão, sem tornar irrelevantes os discursos autoritários. [14]
Também há pesquisas que investigam o sentido inverso dessa relação: apoiar uma liderança pode levar alguém a se identificar como de direita. Experimentos realizados em São Paulo em 2019 encontraram evidências compatíveis com esse mecanismo. Como o estudo tem recorte específico, ele não demonstra a causa de todos os votos brasileiros. Mostra que identidade política também pode ser construída durante a adesão a um líder. [15]
As redes digitais organizaram uma comunidade política
O celular aproximou propaganda política, conversa familiar, amizade e informação cotidiana. Uma mensagem encaminhada por alguém conhecido chega com a confiança daquela relação. O formato torna menos visível a distância entre quem produziu o conteúdo e quem o recebeu.
Victor Piaia e Marcelo Alves estudaram 194.710 mensagens em 21 grupos públicos de WhatsApp favoráveis a Bolsonaro durante a campanha de 2018 e seu desfecho. Encontraram concentração de participação e circulação articulada com outras plataformas. Esses grupos não representam toda a população, mas ajudam a entender como a mobilização funcionava em espaços organizados de apoio. [17]
O estudo de Letícia Cesarino sobre populismo digital também chama atenção para a construção de vínculos e para o ataque a mediadores da informação. A disputa não se limita à verdade de uma postagem: envolve definir quem merece confiança e quem será previamente desqualificado. É uma análise qualitativa, não uma contagem de votos produzidos por mensagens. [18]
Quando a crítica ao líder vira prova de que jornalistas, professores ou pesquisadores fazem parte de uma conspiração, fica difícil corrigir uma informação. Uma comunidade política pode passar a proteger a própria crença contra qualquer evidência. A minha crítica é a esse fechamento, que permite à liderança escapar de prestar contas.
Seria cômodo explicar tudo pela ingenuidade de quem usa o celular. Essa resposta absolve quem produz campanhas, organiza a circulação e se beneficia delas. Também ignora que pessoas escolarizadas e poderosas podem aceitar uma falsidade porque ela favorece suas preferências. O direito à informação exige transparência e responsabilidade de quem exerce influência.
Religião e disputa por valores: fé não é sinônimo de extremismo
O Censo de 2022 registrou 26,9% de evangélicos e 56,7% de católicos entre as pessoas de 10 anos ou mais. Esses números descrevem pertencimento religioso. O levantamento não informa como essas pessoas votaram, nem mede adesão à extrema direita. [19]
A pesquisa de Leonardo Luz sobre religião, ideologia e antipetismo na eleição de 2018 examina justamente a combinação desses fatores. Ela ajuda a evitar uma explicação que faça da fé uma causa automática do voto. Há diferenças entre igrejas, lideranças, experiências individuais e posições políticas. [20]
Minha leitura é que lideranças da extrema direita conseguiram apresentar disputas políticas como ameaças à família, à educação dos filhos e à liberdade religiosa. Isso pode transformar uma decisão pública em dever moral: discordar do candidato passa a parecer abandonar a própria comunidade. A força dessa linguagem depende das relações e dos interesses presentes em cada espaço.
A fé também sustenta acolhimento, solidariedade e defesa de direitos. Há religiosos que enfrentam o racismo, protegem pessoas perseguidas e criticam o autoritarismo. A política democrática precisa reconhecer essa diversidade e preservar a liberdade de crença, inclusive a de quem não professa religião.
Quando a igualdade é apresentada como ameaça
A ampliação dos direitos de mulheres, da população negra e de pessoas LGBTQIA+ pode ser atacada como uma perda para outras pessoas. Estudos sobre direitas radicais discutem a contestação de políticas de igualdade e de direitos de minorias. A pesquisadora Beatriz Besen examina esses conflitos e a necessidade de distinguir correntes e contextos. [25]
Na minha avaliação, o bolsonarismo encontrou força ao apresentar hierarquias sociais como ordem a ser restaurada. Uma trabalhadora que exige respeito, uma pessoa negra que denuncia discriminação ou uma família que pede proteção passa a ser descrita como problema. Quem busca direitos é colocado no lugar de quem estaria destruindo a sociedade.
Essa inversão precisa ser enfrentada com clareza. Direitos iguais ampliam a proteção disponível a todos. A liberdade religiosa não autoriza perseguir outra religião; a defesa da família não autoriza humilhar famílias diferentes; a liberdade de expressão não dispensa responsabilidade por ameaças.
O medo da violência merece resposta, não exploração
Quem teme um assalto, perde alguém para um homicídio ou vive sob ameaça quer segurança. Essa demanda é legítima. O Atlas da Violência 2026 informa 42.590 homicídios registrados em 2024 e alerta para problemas de subnotificação. A redução de um indicador não elimina a experiência concreta de quem convive com a violência. [21]
A promessa de uma solução imediata por meio da força tem apelo porque oferece um responsável visível e uma ação aparentemente simples. Mas a autorização para agir sem limites também atinge inocentes e permite que o Estado esconda seus próprios erros. Quem tem menos recursos para se defender costuma ficar mais exposto.
Defendo uma política de segurança que investigue crimes, proteja vítimas, previna violência e cobre resultados das autoridades. Uma polícia capaz de trabalhar com provas e controle público tem mais condições de proteger a população. O medo de um trabalhador não deve virar licença para tratar outro trabalhador como alguém sem direitos.
A esquerda também precisa falar de segurança com seriedade, incluindo quem vive longe dos espaços protegidos e quem trabalha à noite. Responder a essa angústia com desprezo deixa uma necessidade real sem atendimento. O autoritarismo se fortalece quando consegue ocupar sozinho uma conversa que diz respeito a todos.
As elites que normalizaram o bolsonarismo precisam responder
O crescimento da extrema direita também passa por quem dispõe de dinheiro, acesso institucional e capacidade de legitimar lideranças. Rodrigo Cantu estudou apoiadores e críticos da extrema direita no mundo empresarial brasileiro, identificando diferenças entre atores que se posicionaram publicamente. Seu recorte não autoriza tratar todo empresário como bolsonarista. Permite discutir alianças concretas e interesses distintos. [22]
A cobrança política, porém, é necessária. Na minha avaliação, quem aceitou ameaças à democracia como um custo tolerável de uma agenda econômica participou da normalização dessas ameaças. Um programa de redução de direitos trabalhistas ou de benefícios ao capital não torna menos grave a defesa da tortura ou o ataque a eleições.
Há responsabilidade quando uma liderança é recebida como parceira confiável enquanto suas agressões são tratadas como excentricidades. Há responsabilidade quando o poder público premia quem transforma o adversário em inimigo. O episódio de 2016, que abre este artigo, mostra como uma escolha institucional pode ajudar a estabelecer o limite do que será tolerado.
A crítica precisa alcançar políticos tradicionais, dirigentes empresariais e outras figuras públicas que fizeram essa escolha. A influência do bolsonarismo não veio apenas de uma indignação popular espontânea. Quem abriu portas e ofereceu respeitabilidade deve explicar por que considerou aceitável o risco imposto aos direitos de outras pessoas.
Bolsonaro ofereceu identidade, pertencimento e um inimigo
Uma corrente política cresce também quando oferece às pessoas um lugar no mundo. Bandeiras, roupas, slogans, encontros e narrativas compartilhadas ajudam a produzir esse pertencimento. O bolsonarismo associou a figura do líder à ideia de representar o Brasil verdadeiro e de enfrentar inimigos apresentados como ameaça permanente.
A identificação torna a crítica pessoalmente dolorosa: questionar o dirigente pode parecer questionar a família, os amigos e a trajetória de quem o apoia. Minha interpretação é que isso ajuda a explicar por que um escândalo ou uma derrota eleitoral nem sempre rompe a adesão. O vínculo pode ter se tornado maior que a avaliação de um governo.

A bandeira, a religião e o amor pelo país pertencem a uma sociedade plural. Nenhum dirigente pode se declarar seu proprietário e transformar todos os críticos em inimigos da nação. O Brasil inclui quem trabalha, quem protesta, quem vota diferente e quem precisa que seus direitos sejam reconhecidos.
Esse uso político dos símbolos tem antecedentes e ganha novas formas. O artigo do Sacip sobre jingles, santinhos e carros de som acompanha a cultura material das eleições. A política se faz também por objetos, sons e encontros; a internet reorganizou essa experiência, sem eliminar sua presença nas ruas.
Por que a derrota de 2022 não encerrou esse movimento
Uma eleição decide quem governa naquele período. Ela não desfaz automaticamente organizações, vínculos religiosos, interesses econômicos ou comunidades digitais. Rachel Meneguello discute a combinação de desgaste democrático e avanço da direita, chamando atenção para as condições políticas que sustentam esse processo. A permanência do movimento exige olhar além da popularidade de uma única pessoa. [24]
Os ataques de 8 de janeiro de 2023 tornaram material a hostilidade às instituições: prédios públicos foram invadidos e depredados. A fotografia de abertura mostra danos registrados no dia seguinte. Ela documenta esse acontecimento; não identifica todos os responsáveis nem transforma cada eleitor de Bolsonaro em participante do ataque.
Em 2025, o STF condenou Jair Bolsonaro no processo sobre a tentativa de golpe de Estado; a pena fixada foi de 27 anos e 3 meses. A corte registrou o trânsito em julgado da condenação em novembro daquele ano. Esses são marcos judiciais específicos, que devem ser distinguidos da interpretação política sobre o conjunto do movimento. [23]
A presença de Flávio Bolsonaro no segundo turno de 2026 mostra que a competitividade desse campo pode continuar com outra candidatura. Isso não prova que todas as suas posições sejam idênticas às do pai, nem transfere a ele responsabilidades criminais pessoais. Impõe, porém, uma cobrança política: quais práticas e alianças dessa trajetória ele mantém, e como responde ao legado autoritário do movimento que o sustenta?
Uma liderança que recebe essa herança precisa prestar contas dela. Na minha avaliação, tratar o autoritarismo como um problema encerrado seria um erro grave. A continuidade deve ser examinada em discursos, programas, alianças e atos concretos, preservando a precisão necessária para cobrar cada responsável.
Marcos para situar a discussão
Período estudado por Camila Rocha para compreender a organização da nova direita. [6]
Manifestações heterogêneas ampliam a disputa por representação política. [10]
Homenagem de Bolsonaro a Ustra no impeachment e rejeição do parecer de abertura de processo no Conselho de Ética. [1, 2]
Bolsonaro vence e depois perde a eleição presidencial; o apoio eleitoral permanece amplo. [3, 4]
Ataques às sedes dos Três Poderes, com danos documentados na fotografia de abertura.
Condenação de Bolsonaro no processo sobre a tentativa de golpe. [23]
Flávio Bolsonaro e Lula são classificados para o segundo turno; resultado final ainda não conhecido na data desta apuração. [5]
A esquerda também precisa encarar seus limites
A defesa da democracia perde força quando parece uma conversa distante da vida. Quem espera meses por atendimento, enfrenta transporte ruim ou trabalha sem segurança precisa de respostas concretas. Direitos políticos e condições materiais devem ser apresentados como partes da mesma responsabilidade pública.
Minha crítica à esquerda é que ela precisa demonstrar, na experiência cotidiana, o valor da participação e da igualdade. Uma melhora em um indicador pode ser importante e ainda não responder ao sentimento de abandono de uma pessoa. Um discurso correto sobre direitos pode fracassar quando não vem acompanhado de escuta, organização e resultados.
Isso não distribui igualmente a responsabilidade por ataques à democracia. Os responsáveis por ameaças e crimes devem responder por seus atos. A cobrança feita aqui é outra, necessária a quem afirma defender os trabalhadores: conhecer seus problemas, disputar soluções e manter presença para além das campanhas.
O balanço do Sacip sobre emprego, renda, fome e meio ambiente de Bolsonaro a Lula permite examinar indicadores concretos. Este artigo trata de uma questão complementar: por que resultados e argumentos, sozinhos, podem não romper uma identidade política já organizada.
Também é preciso abandonar o desprezo por quem pensa diferente. Ouvir uma pessoa não obriga a aceitar racismo, misoginia ou perseguição. Permite distinguir a necessidade que ela expressa da solução autoritária que alguém lhe vendeu. Uma conversa pública que só humilha acaba reforçando os vínculos que pretendia questionar.
Democracia precisa significar proteção e participação
A extrema direita cresceu porque conseguiu combinar ressentimentos, interesses, organizações e promessas. Sua força revela problemas reais, mas as respostas que normalizam violência e exclusão impõem novos problemas a quem já vive em condições difíceis.
Para mim, uma democracia que mereça ser defendida precisa proteger quem trabalha, assegurar serviços públicos, enfrentar a violência e ampliar a capacidade de participação. Precisa de instituições que investiguem crimes sem escolher quem merece direitos. E precisa de comunidades capazes de agir juntas sem entregar sua autonomia a um líder.
Há dimensão cultural nessa disputa. Poder organizar uma associação, contar a memória do bairro, praticar uma religião, defender um território ou celebrar uma festa sem perseguição é parte da liberdade. A discussão do Sacip sobre cultura popular e luta por terra mostra como direitos e modos de vida podem se encontrar. Essa ligação não explica sozinha o voto; ajuda a tornar concreto o que se perde quando a diversidade é tratada como inimiga.
O bolsonarismo deve ser criticado com firmeza por normalizar o autoritarismo e transformar o adversário em ameaça à nação. Seus aliados precisam responder pelo que toleraram e ajudaram a legitimar. A gravidade dessa cobrança exige fatos corretos: uma crítica que inventa perde a capacidade de exigir verdade.
O crescimento da extrema direita foi construído historicamente. Sua permanência também depende de escolhas atuais. Defender direitos, organizar solidariedade e cobrar poder público são formas de ampliar a liberdade para quem nunca teve proteção suficiente. É esse compromisso, vivido no cotidiano e sustentado por instituições, que considero capaz de enfrentar o autoritarismo.
Fontes e documentos para conferir
Apuração encerrada em 8 de outubro de 2026. Resultados eleitorais, datas e decisões judiciais aparecem com seus recortes. Pesquisas observacionais indicam associações, não uma causa automática; estudos de grupos digitais e experimentos locais têm limites de generalização. As avaliações introduzidas como minha posição ou leitura são a opinião de Felipe. As fontes abaixo permitem conferir os documentos e as interpretações acadêmicas utilizadas.
- Câmara dos Deputados. Transcrição da intervenção de Jair Bolsonaro na sessão de 17/04/2016.
- Câmara dos Deputados. Conselho de Ética rejeita processo por homenagem a Ustra, 09/11/2016.
- TSE. Totalização do segundo turno de 2018.
- TSE. Totalização do segundo turno de 2022.
- TSE. Flávio Bolsonaro e Lula no segundo turno de 2026, 05/10/2026.
- Camila Rocha. “Menos Marx, mais Mises”: uma gênese da nova direita brasileira (2006–2018). Tese, USP.
- André Borges. As duas faces da nova direita brasileira: antipolítica e reação conservadora. Opinião Pública, 2024.
- André Kaysel e Alvaro Bianchi. Bolsonarismo como coalizão discursiva de extrema-direita. Caderno CRH, 2025.
- Comissão Nacional da Verdade. Relatório final, volumes e capítulos, 2014. Violações de direitos, trabalhadores e povos indígenas.
- André Singer. Brasil, junho de 2013, classes e ideologias cruzadas. Novos Estudos CEBRAP, 2013.
- IBGE. Divulgação das contas nacionais de 2016, 07/03/2017. Registra a recessão de 2015–2016; percentuais históricos passaram por revisões.
- Oswaldo E. do Amaral. The Victory of Jair Bolsonaro According to the Brazilian Electoral Study of 2018. Brazilian Political Science Review, 2020.
- Mario Fuks, Ednaldo Ribeiro e Julian Borba. From Antipetismo to Generalized Antipartisanship. Brazilian Political Science Review, vol. 15, n. 1.
- Mark Setzler. Did Brazilians Vote for Jair Bolsonaro Because They Share his Most Controversial Views?. Brazilian Political Science Review, vol. 15, n. 1.
- Guilherme Azzi Russo, Jairo Pimentel Junior e George Avelino. O crescimento da direita e o voto em Bolsonaro: causalidade reversa?. Opinião Pública, 2022. Experimentos realizados em São Paulo em 2019.
- STF. Anulação das condenações julgadas em Curitiba e decisão sobre a suspeição de Moro, 2021.
- Victor Piaia e Marcelo Alves. Abrindo a caixa preta: análise exploratória da rede bolsonarista no WhatsApp. Intercom, 2020.
- Letícia Cesarino. Como vencer uma eleição sem sair de casa: a ascensão do populismo digital no Brasil, 2019.
- IBGE. Apresentação dos resultados do Censo 2022: religiões. Percentuais para pessoas de 10 anos ou mais.
- Leonardo Luz. Religião, ideologia e antipetismo nas eleições presidenciais brasileiras de 2018. Revista de Sociologia e Política, 2025.
- Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Atlas da Violência 2026: homicídios registrados em 2024 e subnotificação. Divulgação do Ministério do Planejamento.
- Rodrigo Cantu. Clivagens emergentes no mundo empresarial brasileiro: apoiadores e críticos da extrema direita. Tempo Social, 2024.
- STF. Balanço dos julgamentos sobre a tentativa de golpe e registro do trânsito em julgado da condenação de Bolsonaro, 2025.
- Rachel Meneguello. Retrocesso democrático e o avanço da direita: perspectivas políticas. Estudos Avançados, 2026.
- Beatriz Besen. Direitas Radicais: bases para uma categoria hermenêutica de análise. Revista Brasileira de Ciência Política, 2026.



A conversa começa aqui. Seja a primeira pessoa a comentar este artigo.