Em 2022, último ano de Jair Bolsonaro na Presidência, uma pesquisa estimou 33,1 milhões de brasileiros em insegurança alimentar grave. No mesmo ano, o Prodes mediu 11.594 km² de floresta derrubada na Amazônia Legal. O país não chegou a esse ponto por obra de um homem só. Mas governar é responder pelo que se escolhe fazer diante de uma mesa sem comida e de uma floresta sob ataque.
Em 2025, já sob Lula, o desemprego médio estava em 5,6% e o desmatamento amazônico, em 5.731 km². Houve mudança de rumo e de prioridades. Ela merece ser reconhecida com a mesma franqueza com que se deve dizer que ainda há fome, trabalho precário e destruição ambiental. Esta é uma análise de opinião baseada em documentos: pandemia, Congresso, inflação mundial e condições herdadas entram na conta; nenhum presidente liga ou desliga a economia por vontade própria.
Emprego: a recuperação começou antes de Lula e continuou depois
A PNAD Contínua do IBGE registrou 9,3% de desemprego médio em 2022, uma queda diante dos 13,2% de 2021. O mercado de trabalho já se recuperava do choque da pandemia no último ano de Bolsonaro. Apagar essa melhora anterior faria a comparação começar no lugar errado.
Na média de 2025, o desemprego caiu para 5,6%. A subutilização, que inclui desempregados, pessoas que gostariam de trabalhar mais horas e parte das que deixaram de procurar vaga, recuou de 20,8% em 2022 a 14,5% em 2025. É um ganho mais amplo do que sugere uma manchete sobre desemprego.
O IBGE também mostra o limite: 38,1% dos ocupados estavam na informalidade em 2025, ante 39,6% em 2022. Uma pessoa que vive de serviços instáveis entra na conta de ocupados e pode continuar sem proteção, férias ou renda previsível. Ainda assim, tratar a queda do desemprego como detalhe seria desprezar quem voltou a procurar uma vaga e encontrou trabalho. O mérito político de Lula está em não aceitar que a recuperação depois da pandemia dispensava uma agenda de renda e proteção social; o dado, sozinho, não mede quanto cada decisão contribuiu para o resultado.

Renda maior não significa a mesma renda para todos
O rendimento real habitual do trabalho chegou a R$ 3.560 na média anual de 2025, segundo a mesma PNAD. “Real” quer dizer corrigido pela inflação. A comparação com 2022 na série revisada aponta ganho, mas esse valor médio não é o contracheque típico de toda família: salários altos puxam a média, e quem está fora do emprego não entra nessa conta.
O IBGE registrou desigualdade persistente e pequena elevação do índice de Gini dos rendimentos de trabalho entre 2024 e 2025. O governo Lula fez uma escolha que vai além de anunciar um número: a Lei 14.663, de 2023 restabeleceu a política de valorização do salário mínimo com inflação e crescimento do PIB, sujeita às restrições fiscais posteriores. O salário mínimo também serve de referência para benefícios previdenciários e assistenciais. É uma forma de disputar quem recebe parte do crescimento do país; aluguel, transporte e alimentos ainda podem consumir esse ganho antes do fim do mês.
Fome: uma melhora real que não autoriza declarar vitória
O 2º Inquérito da Rede PENSSAN estimou 33,1 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave em 2022. Foi o retrato de uma sociedade que saía da fase aguda da pandemia com comida cara e trabalho desigual. O governo Bolsonaro pagou auxílio emergencial e instituiu o Auxílio Brasil, que chegou a R$ 600 no segundo semestre eleitoral de 2022. Esses pagamentos existiram; também existiu a fome captada pela pesquisa.
A pandemia não foi uma decisão do presidente. A resposta federal a ela, sim, era responsabilidade de governo. O relatório aprovado pela CPI da Pandemia em 26 de outubro de 2021 apontou ações e omissões da gestão Bolsonaro, inclusive na negociação de vacinas. A comissão não proferiu sentença criminal. Produziu, porém, um documento público que impede tratar as mortes e a desorganização da resposta como simples fatalidade. Na avaliação do Sacip, foi uma falha de governo da maior gravidade: quando a população precisava de coordenação, o Planalto lhe devia mais do que disputa política.
Na pesquisa de segurança alimentar do IBGE, domicílios em insegurança grave passaram de 4,1% em 2023 a 3,2% em 2024. Ainda eram cerca de 2,5 milhões de lares. Algum grau de insegurança atingia 27,6% dos domicílios em 2023 e 24,2% em 2024.
Os 33,1 milhões de pessoas da Rede PENSSAN e os 3,2% de domicílios do IBGE não são os dois extremos de uma mesma série: mudam pesquisa, ano e unidade contada. Um gráfico que os unisse como se fossem comparáveis enganaria o leitor. A FAO voltou a situar o Brasil fora do Mapa da Fome, limiar estatístico trienal de subalimentação. Sair desse mapa não significa que todos os brasileiros estejam alimentados.
Lula recuperou o Bolsa Família em 2023, preservando o piso de R$ 600 por família que o Auxílio Brasil atingira em 2022 e acrescentando parcelas conforme a composição da casa, entre elas um adicional para crianças pequenas. Não seria correto dizer que inventou sozinho a transferência de renda ou que Bolsonaro não pagou auxílio. A diferença que defendemos é política: uma renda contínua, ligada à proteção de crianças e ao acompanhamento público, vale mais do que tratar a fome como inconveniente de campanha.
No cálculo do IBGE, a pobreza caiu de 31,6% em 2022 para 23,1% em 2024. Sem contar as transferências na renda de 2024, a simulação estática da pesquisa levaria a taxa a 28,7%; a extrema pobreza, de 3,5% a 10%. Não é previsão de como a economia inteira reagiria se os programas desaparecessem. Mostra o peso direto do dinheiro na renda das famílias. Quem chama esse gasto de supérfluo precisa explicar de onde viria a comida no dia seguinte.
O que Lula colocou de pé — e o que cada política tenta resolver
O elogio a um governo só interessa se apontar decisões verificáveis. Lula assinou, em 2023, o Plano Brasil Sem Fome, que reúne acesso à renda, produção e acesso a alimentos e acompanhamento das ações. O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional voltou a funcionar, abrindo espaço para a sociedade civil cobrar e participar dessa política. Um plano não põe comida na mesa por si; sem coordenação e controle social, porém, a fome fica mais fácil de esconder.
O Bolsa Família foi redesenhado; o Minha Casa, Minha Vida voltou com nova lei; o Pé-de-Meia, criado em 2024, paga incentivo para estudantes elegíveis permanecerem e concluírem o ensino médio público. Em 2025, a Farmácia Popular passou a oferecer gratuitamente os 41 itens de sua lista, incluindo medicamentos, fraldas geriátricas e absorventes. São programas diferentes; nenhum resolve sozinho a desigualdade. Juntos, revelam a prioridade de usar o Estado para aliviar custos que esmagam a vida cotidiana.
Há uma razão para elogiar Lula por isso. Um estudante que deixa a escola para completar a renda doméstica precisa de uma política diferente da família que paga aluguel ou de quem interrompe tratamento porque não consegue comprar remédio. Criar ou retomar instrumentos para cada situação é trabalho de governo, aprovado em leis, executado por equipes e sujeito a orçamento e fiscalização. O presidente não faz isso sozinho; sua liderança e suas prioridades contam. Celebrar essas escolhas não obriga ninguém a fingir que toda fila acabou.
Na Amazônia, a direção da curva mudou
O Prodes do INPE registrou 11.594 km² de desmatamento na Amazônia Legal em 2022. Em 2025, a taxa consolidada foi de 5.731 km², cerca de 50,6% abaixo daquela referência. O primeiro ciclo vai de agosto de 2021 a julho de 2022; o segundo, de agosto de 2024 a julho de 2025. Não atribuímos todo o Prodes 2023 a Lula, porque começou ainda em 2022.
Não é preciso adivinhar a relação do governo Bolsonaro com a fiscalização. Em auditoria publicada em 2021, o TCU apontou problemas de coordenação, redução da participação social, mensagens de autoridades federais que desqualificavam os órgãos de controle e queda na aplicação de sanções pelo Ibama apesar do avanço do desmatamento. O tribunal também registrou ameaças e violência contra fiscais. É um diagnóstico institucional, não uma frase de oposição. Na avaliação do Sacip, enfraquecer quem tem de impedir a derrubada da floresta foi uma escolha política indefensável.
Lula retomou o plano federal de prevenção e controle do desmatamento, articulando órgãos e metas para a Amazônia. Não se pode atribuir a queda do Prodes inteira a uma assinatura: fiscalização em campo, estados, mercados e clima também importam. Mas governar em favor da floresta começa por devolver à proteção ambiental o lugar de política de Estado. O corte raso ainda é enorme; a mudança de direção é real.
O Prodes contabiliza a perda completa de cobertura florestal detectada no ciclo anual. Alertas em tempo mais próximo da fiscalização, queimadas, degradação e conflitos no campo têm métodos próprios. A estimativa para o Cerrado em 2025 ainda superava 7 mil km². A melhora amazônica não protege automaticamente as nascentes e comunidades desse outro bioma.

A emergência Yanomami decretada em 2023 revelou como garimpo ilegal, floresta e saúde se encontram. O MPF situa a crise humanitária já em 2022; em fiscalização posterior, o TCU registrou postos fechados pelo avanço do garimpo e falhas na assistência. Esse quadro não nasceu no dia da troca de faixa. O decreto de janeiro de 2023 determinou medidas emergenciais sob Lula. Reconhecer a resposta não encerra a obrigação de impedir o retorno da crise.
Soberania não cabe em um discurso: energia, território e pressão estrangeira
Em 2021, Jair Bolsonaro sancionou a lei de desestatização da Eletrobras. O modelo de aumento de capital retirou da União o controle acionário de voto. Não se vendeu tudo: Itaipu e Eletronuclear permaneceram sob controle público e a lei reservou uma ação especial com poderes de veto delimitados. Esses detalhes não apagam a decisão principal. O país abriu mão de comandar diretamente uma empresa essencial para gerar e transmitir energia. Para o Sacip, foi uma entrega de poder estratégico. Soberania medida em bandeiras e discursos vale pouco quando se transfere a capacidade pública de decidir sobre infraestrutura vital.
Essa posição teve apoio documentado de outro Bolsonaro: o mapa nominal do Congresso registra o voto “sim” de Flávio Bolsonaro ao texto principal da MP da Eletrobras, em 17 de junho de 2021. Trata-se de ato legislativo dele, diferente da sanção do pai. Não permite adivinhar todas as suas posições futuras; permite cobrar coerência e explicações por aquela escolha.
Houve também venda de ativos da Petrobras e perda de seu controle da BR Distribuidora no período Bolsonaro. A Agência Senado reúne as operações e os argumentos divergentes: críticos temem perder instrumentos de coordenação da cadeia de combustíveis; defensores invocam competição e eficiência. Não se pode deduzir o preço do combustível de uma venda isolada. A estrutura de propriedade e quem pode tomar decisões estratégicas mudaram.
Na votação nominal do texto principal da MP 1.031/2021, procure “Flávio Bolsonaro”: a coluna registra “Sim”. O texto da lei mostra o que permaneceu público e o que saiu do controle da União.
Consultar a votação no Congresso →Em 2025, o governo dos Estados Unidos impôs tarifas adicionais a produtos brasileiros. Seu decreto citou o processo contra Jair Bolsonaro entre as justificativas. Essa é a alegação do governo americano, não uma conclusão nossa sobre a Justiça brasileira. A tarifa foi decisão americana. Eduardo Bolsonaro se mudou para os EUA e anunciou que buscava sanções contra um ministro do STF. O simples encadeamento de fatos não prova que ele, sozinho, tenha produzido a medida comercial.
O juízo editorial é direto: solicitar pressão externa sobre instituições brasileiras enquanto uma potência impõe tarifas ao país agride o sentido concreto de soberania, ainda que não se possa atribuir a Eduardo, sozinho, a decisão americana. A crítica ao Judiciário pode e deve ser feita dentro das regras democráticas. Quem coloca sua disputa familiar no centro de uma relação que atinge trabalhadores e exportadores deve responder politicamente por essa prioridade.
O que é condenação e o que continua sob investigação?
Há decisões judiciais, denúncias e investigações envolvendo integrantes da família. Essas palavras indicam estágios distintos. Parentesco não transfere culpa; citar uma notícia antiga sem dizer que provas foram anuladas também distorce a história.
O STF condenou Jair Bolsonaro na Ação Penal 2668 por tentativa de golpe de Estado e outros crimes, com pena de 27 anos e três meses. A Corte informa que a pena começou a ser cumprida em novembro de 2025. Separadamente, o TSE o declarou inelegível por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação ao reunir embaixadores no Palácio da Alvorada em 2022. A defesa pediu revisão da condenação criminal.
Em junho de 2026, a Primeira Turma do STF condenou Eduardo Bolsonaro a quatro anos e dois meses por coação no processo da tentativa de golpe. Segundo a PGR, a acusação tratou da articulação de sanções americanas para pressionar o julgamento do pai. Recursos e execução devem ser acompanhados pelo andamento processual; a condenação não pode ser apresentada como mera suspeita.
O Ministério Público do Rio denunciou Flávio por suspeitas de apropriação de parte dos salários de assessores quando era deputado estadual. O STF considerou ilegais provas financeiras usadas na apuração e, em 2025, rejeitou recursos do MP-RJ. A Corte observou que provas anuladas não impedem eventual nova apuração com elementos válidos. Não houve condenação de Flávio nesse caso. A denúncia original não pode ser narrada como crime provado.
Relatórios da Polícia Federal divulgados em setembro de 2026, examinados pela Agência Brasil, descrevem mensagens e cobranças de Flávio ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, filme sobre Jair. Segundo a PF, foram pedidos R$ 131 milhões e parte dos valores teria sido paga. A polícia apura origem, trânsito e destino dos recursos, inclusive remessas aos Estados Unidos. Uma operação autorizada pelo STF investiga suspeitas de desvio de emendas relacionadas à produção. Flávio e Eduardo negam irregularidades. As diligências não são condenação deles; a prisão preventiva de Vorcaro em outra frente do caso Master não se transfere por associação.
Em outra decisão específica, o TSE multou Flávio e Eduardo em 2023 por compartilharem vídeo desinformativo e ofensivo à honra de Lula durante a campanha de 2022. É uma decisão sobre propaganda, não uma condenação criminal por corrupção. Exigir apuração rigorosa inclui nomear exatamente o que cada tribunal decidiu. O conjunto de fatos permite uma crítica dura à atuação política da família; não autoriza atribuir a cada integrante os crimes imputados aos outros.
Reconhecer o que Lula fez também é cobrar o que falta
Lula merece reconhecimento por ter recolocado no centro do governo a renda de quem trabalha, a alimentação, o acesso a medicamentos, a moradia, a permanência dos jovens na escola e a proteção da Amazônia. O Bolsa Família redesenhado, a regra do mínimo, a Farmácia Popular ampliada, o Pé-de-Meia e a retomada do PPCDAm são decisões identificáveis, com leis, orçamento e instituições responsáveis. Em um país que havia naturalizado a fome e tratado fiscais ambientais como obstáculo, essa reconstrução tem valor político e humano.
O elogio é mais sério quando não esconde a conta aberta. A informalidade ainda alcança mais de um terço dos ocupados. Milhões seguem abaixo da linha de pobreza do IBGE. Cerca de 2,5 milhões de lares viviam com insegurança alimentar grave em 2024. E 5.731 km² de Amazônia derrubada num ciclo ainda são uma perda enorme. Cabe ao governo Lula responder por quem as políticas não alcançaram e pela pressão sobre outros biomas, como o Cerrado.
A diferença entre projetos aparece em atos: um governo sancionou a perda de controle da Eletrobras enquanto a fiscalização ambiental era criticada pelo TCU; o outro voltou a organizar proteção social e ambiental. Não é uma absolvição automática de Lula nem uma explicação mágica para cada indicador. É o juízo editorial do Sacip sobre prioridades verificáveis. Trabalho, comida, remédio e floresta preservada tornam a palavra soberania concreta. O Sacip tratou da ligação entre cultura popular e território em “Folclore também é luta por terra?”. A melhora precisa durar, alcançar mais gente e poder ser cobrada por qualquer pessoa.
Fontes e critérios para conferir
Trabalho: PNAD 2022 e PNAD 2025. Pobreza: IBGE. Fome: Rede PENSSAN, IBGE e FAO. Floresta: Prodes 2022 e Prodes 2025.
Políticas públicas: Bolsa Família, Brasil Sem Fome, Minha Casa, Minha Vida, Pé-de-Meia e auditoria ambiental do TCU. Os atos de soberania estão na lei da Eletrobras, no mapa do Congresso e no decreto americano. Os processos estão vinculados a decisões do STF, do TSE e aos relatórios da PF em investigação. Fotografias de 2014, 2019 e 2020 são identificadas por seus próprios anos; não servem como prova visual de índices posteriores.



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