Na madrugada de 20 de fevereiro de 1964, policiais entraram numa gráfica da Lapa, no Rio de Janeiro. Saíram com cerca de três mil exemplares de Viver é Lutar, cartilha destinada a escolas de trabalhadores rurais. As caixas seguiriam para Belém. Para os agentes do Departamento de Ordem Política e Social da Guanabara, um livro que convidava adultos a pensar na própria vida já merecia investigação.
O golpe militar ainda não tinha acontecido. A apreensão veio semanas antes, por ordem do governo estadual de Carlos Lacerda. A distinção importa: seria errado apresentar o episódio como uma operação da ditadura já instalada. Mas ele mostra a desconfiança que cercava projetos de educação popular no momento em que se preparava o golpe. Uma pesquisa baseada em jornais e documentos do próprio movimento recompõe a sequência.
Depois de 1964, a perseguição alcançaria escolas, filmes, canções e organizações. Nem toda festa popular foi proibida; nem toda instituição cultural agiu da mesma maneira. As fontes mostram uma disputa concreta: quem podia ensinar, narrar a própria experiência e transformar um público em gente organizada?
Uma cartilha, um rádio e as perguntas que incomodavam
Viver é Lutar foi produzida pelo Movimento de Educação de Base, o MEB, ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e financiado por convênio com o governo federal. Em muitas comunidades rurais, o ensino chegava pelo rádio. Moradores acompanhavam as transmissões com ajuda de monitoras e monitores; a cartilha permitia continuar a conversa depois da aula.
A educação precisava de coisas prosaicas: pilhas, lampião, mesa emprestada, bancos, caderno, antena. Um manual do MEB preservado pelo CEDIC/PUC-SP descreve esses preparativos e pede que a comunidade participe da montagem da escola. Era também um modo de fazê-la sentir que aquele lugar lhe pertencia.
As lições falavam do trabalho e das condições de vida no campo. Parte dos educadores buscava incentivar a participação social, em diálogo com setores da esquerda católica. Isso não transforma cada bispo, monitora ou estudante em integrante de um mesmo partido. Mostra por que uma aula de leitura podia esbarrar no conflito pela terra, pelo salário e por voz política.
O estudo de Isabel Bilhão e Kelly Alves apurou que a polícia encontrou os exemplares numa gráfica já vigiada. As autoras consideram provável que a busca mirasse inicialmente outras publicações. Essa hipótese ajuda a reconstruir a operação; não é prova de que a cartilha tenha sido seu alvo desde o começo. A apreensão deu origem a um inquérito e a uma disputa pública sobre o caráter do material.
Viver é Lutar: cartilha de 1963
Digitalização original do Fundo MEB/CEDIC-PUC-SP. Arquivo PDF grande; a leitura pode consumir muitos dados móveis.
Abrir cartilha no CEDIC ↗Em abril, já após o golpe, a apreensão se misturou a boatos e ordens locais para recolher livros. Numa carta de 18 de abril de 1964, a monitora Luzinete Cordeiro Oliveira contou que “os alunos estão assombrados”; alguns tinham deixado de ir às aulas. Em outra escola, a falta de pilhas para o rádio dividia espaço com o medo de perder os livros. São cartas preservadas e analisadas na pesquisa, não uma lembrança inventada para esta reportagem.
O MEB não desapareceu por completo: continuou depois do golpe, reorganizado, e distribuiu outra cartilha em 1965. O que as cartas deixam à vista é o custo da suspeita para quem tentava manter a escola aberta.
Recife: quando a cultura ocupou a praça
No Recife, o Movimento de Cultura Popular, criado em 1960 na gestão de Miguel Arraes, reuniu professores, artistas, estudantes e moradores em torno de alfabetização, bibliotecas, teatro, cinema e praças de cultura. Sua sede ficava no Sítio da Trindade, no bairro de Casa Amarela. Um estudo acadêmico sobre o movimento examina sua aproximação com as camadas populares e as tensões internas dessa proposta.
Não se tratava de decorar um repertório que alguém de fora julgava “autêntico”. Nas atividades do MCP, cultura popular era uma prática capaz de reunir pessoas e produzir debate público. O que se ensinava, quem ensinava e quem tinha acesso ao espaço cultural eram também decisões políticas.
Depois do golpe, tanques avançaram sobre os jardins do Sítio da Trindade, e o casarão foi invadido. A Prefeitura do Recife registra a ocupação e o fim das atividades do MCP. Um prédio pode continuar de pé quando a rede de encontros que lhe dava sentido é desfeita.
Natal: uma escola que os pescadores ajudaram a erguer
Na cidade de Natal, a campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, ligada à prefeitura de Djalma Maranhão e ao trabalho do educador Moacyr de Góes, começou em 1961. A falta de edifícios escolares não paralisou a iniciativa: surgiram acampamentos de ensino com chão de barro batido e cobertura de palha. O nome “acampamento” designava essas escolas abertas à vizinhança.
Um detalhe guardado no relatório municipal de 1963 merece atenção. Para erguer a primeira estrutura, a prefeitura chamou pescadores do Canto do Mangue, que conheciam a técnica de armar a palha. A pesquisa de Fernanda Mayara Sales de Aquino e Rosa Aparecida Pinheiro recupera a informação e mostra que os galpões também recebiam festas e apresentações culturais. Saber construir a escola era conhecimento da própria população.
A campanha abriu bibliotecas e praças de cultura e relacionou aprendizado à vida do bairro. Estudos da UFRN mostram esse elo entre alfabetização, formação política e atividades artísticas. Após o golpe, a experiência foi interrompida. O ensino podia ser precário em materiais e ambicioso em participação; as duas coisas faziam parte de sua história.
Em quatro pontos: antes do golpe, a polícia apreendeu cartilhas do MEB; após o golpe, monitoras relataram medo e livros recolhidos; o MCP do Recife foi encerrado; a campanha de Natal também foi interrompida. São processos relacionados, com agentes e datas diferentes.
Datas que ajudam a ler os documentos
- 1958Criação da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro.
- 1960O Movimento de Cultura Popular inicia atividades no Recife.
- 1961O MEB nacional e a campanha de Natal articulam ensino e participação.
- Fev. 1964Polícia apreende a cartilha Viver é Lutar, antes do golpe.
- Após o golpeProjetos populares são interrompidos; monitoras relatam medo e recolhimento de livros.
- 1969O Império Serrano desfila com Heróis da Liberdade.
- 1971–1979O País de São Saruê permanece proibido pela censura.
- 1978Grupos negros protestam publicamente contra o racismo em São Paulo.
- 1984É lançado o filme retomado Cabra marcado para morrer.
Dois filmes e o direito de mostrar o campo
Em 1964, Eduardo Coutinho filmava Cabra marcado para morrer, sobre o líder camponês João Pedro Teixeira. Camponeses do Engenho Galileia e Elizabeth Teixeira, viúva de João Pedro, participaram das cenas. O projeto tinha ligação com o Centro Popular de Cultura da UNE e apoio do MCP pernambucano. O golpe interrompeu as filmagens.
Coutinho voltou ao material em 1981 e reencontrou participantes. O filme lançado em 1984 mudou de forma: tornou-se também uma investigação sobre as vidas atravessadas pelo tempo perdido. O Instituto Moreira Salles conserva e disponibiliza o roteiro original, testemunho de como seria a obra de 1964.
Há outro filme que liga diretamente a poesia popular ao conflito político. O País de São Saruê, de Vladimir Carvalho, toma como referência Viagem a São Saruê, do poeta de cordel Manuel Camilo dos Santos. O título aponta para um lugar imaginado de fartura; na tela, o diretor registrou trabalho, terra e desigualdade no sertão. A Cinemateca Brasileira relaciona o filme ao poema e documenta a proibição pela censura federal depois de concluído, em 1971. A liberação só veio em 1979.
Nesse caso, a intervenção da censura está registrada. Um registro do Arquivo Nacional conserva uma foto das filmagens e informa o motivo oficial alegado para o veto: o filme feriria a dignidade e os interesses nacionais. Mostrar a desigualdade rural foi tratado como ameaça à imagem do país.
O País de São Saruê: registro das filmagens
Fotografia histórica e referência arquivística do fundo Correio da Manhã, no Arquivo Nacional.
Consultar registro no Arquivo Nacional ↗Em 1969, a liberdade entrou no desfile
Poucos meses depois do Ato Institucional nº 5, o Império Serrano desfilou no Rio de Janeiro com Heróis da Liberdade. O samba foi composto por Silas de Oliveira, Mano Décio e Manoel Ferreira. A escola apresentou o enredo em 16 de fevereiro de 1969. A súmula distribuída na avenida permite olhar para o desfile sem depender apenas de lembranças posteriores.
O documento descreve um percurso histórico que passa por Palmares, rebeliões coloniais, Independência, abolição e República. Ganga Zumba foi representado pelo artista e dirigente religioso Joãozinho da Goméia; Zumbi também estava entre os personagens. Ao levar esses nomes à avenida, uma escola de samba fazia da história do Brasil uma história narrada com presença negra.
A memória desse samba inclui um caso célebre: uma reportagem de 2018 conta que os compositores tiveram de trocar “revolução” por “evolução”. A letra preservada na ficha do desfile traz “evolução”. Não localizamos, porém, a ordem original do censor que provaria a exigência e seus termos. O desfile e sua letra estão documentados; a narrativa sobre a troca deve continuar atribuída a relatos posteriores.
É possível admirar a coragem do desfile sem transformá-lo em obra sem contradições. Na própria súmula, uma alegoria da abolição colocava um homem escravizado de joelhos ao lado de Castro Alves, imagem que hoje pede leitura crítica. A presença de Zumbi na mesma avenida ajuda a perceber que a memória pública da liberdade estava — e está — em disputa.
Para entender como o samba-enredo se liga a outras práticas feitas pelas comunidades cariocas, veja a ficha do Sacip sobre as Matrizes do Samba no Rio de Janeiro.
O panfleto contra o racismo que a vigilância guardou
Em 1978, um panfleto convocou a população negra de São Paulo para protestar contra a morte de Robson Silveira da Luz após violência policial e contra a discriminação sofrida por quatro meninos negros num clube. O texto pedia mobilização para 7 de julho. Foi parar entre documentos da vigilância estatal; hoje, é possível lê-lo no Arquivo Nacional.
A convocatória anunciava o Viaduto do Chá; o ato ocorreu nas escadarias do Teatro Municipal. Esse pequeno desencontro entre o local anunciado e o lugar onde a manifestação ficou conhecida ilustra por que convém ler o documento e a notícia do acontecimento lado a lado.
O panfleto falava de desemprego, moradia, perseguição policial e união das entidades afro-brasileiras. Entre os signatários estavam o Grupo de Artistas Negros e uma associação cultural recreativa. Aqui, cultura popular não é um espetáculo separado da vida de quem o produz: os próprios grupos culturais participavam da organização contra o racismo.
Documentos do Serviço Nacional de Informações examinados pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo tratavam a denúncia do racismo como invenção da esquerda. É um registro de como a vigilância interpretava o movimento; não é uma descrição verdadeira da experiência das pessoas negras. O ato de 1978 impulsionou o movimento que viria a ser conhecido como Movimento Negro Unificado.
Convocação contra o racismo, 1978
Transcrição e identificação do panfleto BR DFANBSB Z4.DHU.0.49, guardado no Arquivo Nacional.
Ler a convocatória no Arquivo Nacional ↗Por que o Estado registrava folclore e reprimia gente organizada?
É tentador dizer que a ditadura proibiu o folclore brasileiro. Os arquivos contam outra história. A Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro existia desde 1958; em 1976, foi incorporada à Funarte como Instituto Nacional do Folclore, segundo a história institucional do atual Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. O Saci, aliás, aparecia na televisão a partir de 1977, como registra a Memória Globo.
Há pesquisadores e acervos que fizeram trabalho importante de documentação nesse período. Os exemplos reunidos aqui mostram outra linha de conflito: uma coisa é registrar uma dança, um conto ou um objeto; outra é aceitar que trabalhadores criem sua escola, que um filme mostre desigualdade, que sambistas narrem a liberdade ou que associações negras denunciem a polícia. Essa comparação é uma interpretação do conjunto das fontes, não uma afirmação de que todo órgão de folclore servia à repressão.
Quem decide quais manifestações recebem o selo de patrimônio — e quem conserva o direito de contar sua história? Essa pergunta continua aberta. O Sacip a explora também em Quem decide o que vira patrimônio cultural no Brasil?.
O que ficou, apesar da tentativa de calar
Ficaram caixas de cartilhas, cartas de monitoras, um casarão no Recife, a memória de pescadores que fizeram uma escola, películas retomadas, fotos de desfile e um panfleto preservado pelo próprio arquivo da vigilância. Cada peça exige cuidado: uma imagem de 2015 não retrata a invasão de 1964; uma história repetida sobre censura não equivale a um despacho assinado; um ato anunciado em um lugar pode acabar lembrado por outro.
O lado que este texto assume é o de quem defendia escola acessível, direito à terra, liberdade para criar e o fim da violência racista. O registro histórico é forte o bastante para sustentar essa posição sem precisar transformar toda festa em ato de resistência ou todo folclorista em censor.
Quando essas pessoas fizeram um livro circular, ergueram uma escola, ocuparam a avenida ou convocaram um protesto, disputaram uma pergunta que não envelheceu: quem tem o direito de dizer o que é o Brasil?
Para seguir pensando a cultura popular como criação coletiva e posição no mundo, leia O manifesto do Saci, um texto do Sacip escrito no presente, sem confundi-lo com um documento da ditadura.
Fontes e documentos consultados
Documentos e acervos:
- CEDIC/PUC-SP, exposição do Movimento de Educação de Base e área das salas de aula, com manual e cartilha original.
- Galeria do Samba, Império Serrano 1969, que reproduz a súmula distribuída no desfile e registra a letra apresentada. Reprodução de documento de época, mediada pelo acervo do site.
- Cinemateca Brasileira, ficha de O País de São Saruê; Arquivo Nacional, fotografia das filmagens.
- Arquivo Nacional, transcrição da carta convocatória de julho de 1978, com identificação do fundo original.
- Instituto Moreira Salles, roteiro de 1964 de Cabra marcado para morrer.
Pesquisa histórica e contextualização:
- Isabel Aparecida Bilhão; Kelly Ludkiewicz Alves, “MEB sob suspeita: a apreensão da cartilha Viver é Lutar e o golpe de 1964”, Educação & Realidade, 2024. Pesquisa com jornais de 1964 e cartas das monitoras; base para separar fevereiro e abril.
- Fernanda Mayara Sales de Aquino; Rosa Aparecida Pinheiro, “A materialidade dos acampamentos escolares e a cultura popular…”, History of Education in Latin America, 2018, com referência ao relatório da Prefeitura de Natal de 1963.
- Fernanda Mayara Sales de Aquino; Rosa Aparecida Pinheiro, “Campanha de Pé no Chão Também se Aprende a Ler: um contexto de comunidade de aprendizagem”, Revista Educação em Questão, 2019.
- Fabio Silva de Souza, O Movimento de Cultura Popular do Recife (1959–1964), dissertação USP, 2014; Prefeitura do Recife, Sítio da Trindade e MCP.
- Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, relatório sobre população e movimento negros, com discussão de documentação SNI/DOPS.
- Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, história institucional; Memória Globo, primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo.
- Adriano de Freixo, relato publicado em 2018 sobre Heróis da Liberdade. Usado apenas com atribuição para a alegação posterior sobre a troca de palavra, não como despacho original do censor.



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