ARTIGO DE OPINIÃO · EDUARDO
Em 2023, pesquisadores da Universidade do Estado do Amazonas apresentaram um Curupira que cabe numa pequena caixa. O projeto foi pensado para reconhecer ruídos de máquinas na floresta e emitir alertas. O nome foi escolhido pela função de guardião atribuída ao personagem, explicou seu coordenador ao jornal A Crítica. Uma história passou a orientar a imagem de uma ferramenta. [1]
Esse caminho aparece também num gibi, numa composição de concerto, num jogo de terror ou num estádio. O folclore brasileiro inspirou criações bastante diferentes entre si. Algumas transformam uma narrativa em aventura; outras aproveitam um personagem para expressar proteção, esperteza ou pertencimento.
Mas, quando uma história chega à capa de um livro ou ao catálogo de uma plataforma, uma pergunta precisa acompanhá-la: o que aconteceu com as pessoas que a contavam antes? A obra nova pode torná-las conhecidas. Também pode ocupar tanto espaço que o leitor passa a confundir a adaptação com a tradição inteira.
Minha posição é que devemos incentivar essas criações e cobrar delas curiosidade, pesquisa e reconhecimento. O problema começa quando o folclore serve como uma etiqueta de brasilidade, enquanto os narradores, os povos e os lugares que lhe dão sentido desaparecem.
O Saci: primeiro o inquérito, depois a aventura
Dois livros de Monteiro Lobato ajudam a perceber a diferença entre reunir relatos e criar uma história com eles. O Sacy-Pererê: resultado de um inquérito, publicado em 1918, nasceu de uma consulta feita pelo escritor aos leitores de jornal. O volume reúne respostas e imagens que registram versões do personagem. [2]
Já O Saci, de 1921, leva o personagem para a ficção infantil. Pedrinho sai à sua procura e entra numa aventura. A Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos, da Universidade Federal de Santa Catarina, registra essa publicação na produção do escritor. [3]
Para entender o que foi criado, é útil separar as camadas. O personagem circulava antes do escritor. O livro, sua organização e o encontro com Pedrinho são uma criação literária. Confundir uma coisa com a outra entrega a um nome famoso a autoria de uma história construída por muita gente.
O Sacip já percorreu o inquérito de 1918 e seus documentos. Aqui, interessa o passo seguinte: uma tradição passou a integrar um universo com personagens recorrentes, capítulos e leitores que podiam reencontrá-la em outras obras.
Isso permite admirar a invenção literária sem aceitar a ideia de que Lobato inventou o Saci. Também permite examinar criticamente como o escritor retratava personagens negros. O próprio portal discute as relações entre sua literatura, o folclore e o racismo. Reconhecer influência não exige transformar um autor em alguém acima de crítica.
Até a publicidade de máquinas de escrever entrou nessa história
Há outra criação nas páginas do inquérito de 1918: um anúncio de máquinas Remington, da Casa Pratt, em São Paulo. O desenho assinado por Voltolino mostra o Saci diante de máquinas viradas e associa o personagem à preferência pela marca. É publicidade, não um relato de alguém que teria encontrado a criatura. [2]
O documento mostra que o uso comercial dessas referências não começou com o streaming ou com os videogames. Um anúncio já podia aproveitar um personagem reconhecível para vender outro produto. Conhecer esse caso ajuda a formular melhor a crítica: precisamos observar como cada criação usa a referência e quais interesses estão envolvidos.
Macunaíma: o livro famoso não encerrou a história
Macunaíma, publicado por Mário de Andrade em 1928, é outro caso em que uma criação ganhou enorme visibilidade sem ser o ponto de nascimento de todas as suas referências. A pesquisadora Telê Ancona Lopez estudou as leituras e anotações do escritor nas páginas do etnógrafo alemão Theodor Koch-Grünberg. O trabalho permite acompanhar a passagem de narrativas registradas para a composição literária. [4]
A viagem de Koch-Grünberg ao norte do Brasil e à Venezuela ocorreu entre 1911 e 1913. O Instituto de Estudos Brasileiros da USP situa os relatos recolhidos nessa viagem entre as referências para o livro. Isso já impede tratar sua origem como uma invenção exclusivamente paulista ou como um passado limitado pelas fronteiras brasileiras. [5]
A presença de relatos indígenas numa obra modernista, porém, não autoriza a chamar todas essas referências de material disponível para qualquer uso. Um registro escrito é uma forma de acesso. Ele não substitui as relações que as pessoas mantêm com aquilo que foi registrado.
Jaider Esbell mudou o lugar de quem fala
Em 2018, o artista Makuxi Jaider Esbell publicou o ensaio Makunaima, o meu avô em mim!. Nele, apresenta Makunaima como ancestral e parte de uma relação viva. Reivindica que esse vínculo seja compreendido a partir de sua própria experiência, e questiona a colocação de Makunaima numa classificação genérica de folclore. [6]
O texto acompanha também sua criação artística. No acervo do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, Makunaima 04 é descrito como uma animação ligada à série de pinturas de Esbell. O movimento foi acrescentado à imagem por um processo de vetorização. A referência ancestral continuou gerando obra pelas mãos de um artista indígena. [7]
Esse é um ponto decisivo para nossa pauta. O livro de Mário e a criação de Esbell podem ser estudados em relação. Seus sentidos, entretanto, não são intercambiáveis. Uma coisa é um personagem num romance; outra é a relação ancestral que um artista reivindica. Não cabe ao leitor de fora reduzir a segunda à primeira.
Por isso, Macunaíma entra aqui como um caso que exige ressalva. A expressão “inspirado no folclore” funciona para muitas obras, mas fica insuficiente quando apaga a presença de povos que mantêm suas próprias interpretações. A cultura indígena também cria no presente. Não precisa esperar que outro autor a transforme em assunto.
Uirapuru: a mesma referência produziu músicas diferentes
Um pássaro associado a narrativas de encantamento também chegou às salas de concerto. Em Uirapuru, Heitor Villa-Lobos construiu uma obra orquestral e um bailado. O catálogo do Museu Villa-Lobos registra a primeira apresentação em 25 de maio de 1935, no Teatro Colón, em Buenos Aires, com o compositor na regência. [8]
O mesmo registro guarda um detalhe que costuma desaparecer das listas de curiosidades: o manuscrito traz a data de 1917 e uma anotação de reforma em 1934. É mais preciso mostrar essas marcas do documento do que anunciar uma única data sem explicar o que ela significa.
Segundo a apresentação da obra feita pelo museu, o canto utilizado por Villa-Lobos se baseia num registro do botânico Richard Spruce, publicado em Notes of a Botanist on the Amazon and Andes, em 1908. Seu roteiro liga a ave a transformações e a um poço encantado. [9]
A transcrição de um canto, o enredo e a escolha dos instrumentos são caminhos distintos dentro de uma mesma composição. O público ouve uma obra organizada pelo compositor. Não está diante de uma gravação que possa representar todas as histórias contadas sobre a ave.
Waldemar Henrique levou a referência para a canção
Uirapuru também é o nome de uma canção de Waldemar Henrique, de 1934. Márcia Jorge Aliverti a estudou entre suas composições para canto e piano num artigo publicado em Estudos Avançados. O título compartilhado não torna a canção e o bailado a mesma obra. [10]
Essa comparação ajuda a sair da pergunta “qual é a versão certa?” quando estamos falando de criações artísticas. Uma canção tem voz, palavras e duração próprias. Uma peça orquestral pode desenvolver uma cena com timbres, pausas e movimentos. Cada formato abre possibilidades e deixa outras de lado.
Vale ouvir essas obras como respostas de autores a referências que já existiam. Chamar tudo de “música do folclore” sem apresentar os compositores encobre o trabalho de composição. Chamar tudo apenas de obra de Villa-Lobos ou de Waldemar, sem perguntar de onde vieram as referências, apaga o caminho anterior.
Pererê: o Saci ganhou uma vida de personagem de gibi
Em outubro de 1960, começou a circular a revista colorida Pererê, de Ziraldo, publicada por O Cruzeiro. Essa fase foi até abril de 1964. O perfil do desenhista no Itaú Cultural registra ainda relançamentos posteriores. É a história de uma publicação específica, não a origem do Saci. [11]
Um detalhe torna essa criação menos abstrata. Segundo o mesmo perfil, nomes de personagens da turma, como a onça Galileu, o jabuti Moacir e o macaco Allan, foram baseados em amigos de infância de Ziraldo em Caratinga. A adaptação juntou referências populares à memória pessoal do autor.
No gibi, reencontrar um personagem depende de continuidade: ele tem nome, relações e um mundo reconhecível. Essa é uma mudança importante em relação a relatos que podem variar de narrador para narrador. A revista produz uma versão que pode ser repetida, colecionada e reconhecida pelo traço.
Isso não diminui o trabalho de Ziraldo. Permite descrevê-lo com mais justiça. Ele deu forma a uma criação própria, em vez de simplesmente desenhar uma suposta versão oficial do Saci. Também nos convida a procurar o personagem fora do gibi, onde sua aparência e seu comportamento podem ser outros.
A força de um desenho muito conhecido pode virar uma armadilha: achar que qualquer diferença é um erro. O Sacip mostrou, em seu artigo sobre os tipos de Saci, por que documentos e relatos exigem uma leitura mais aberta. Um personagem de autoria identificada e uma tradição com variações pedem cuidados diferentes.
O Saci chegou ao cinema — e a data merece atenção
O filme O Saci, dirigido por Rodolfo Nanni, fornece uma ligação documentada entre livro e tela. A Cinemateca Brasileira registra que sua história se baseia no livro de Lobato e identifica Paulo Matozinho no papel do Saci. A ficha inclui Cláudio Santoro como responsável pela música. [12]
A produção começou em 1951 e terminou em 1953. O lançamento registrado ocorreu em São Paulo, em 10 de setembro de 1953. Por isso, a data de início das filmagens não deve ser apresentada como se fosse a da chegada às salas.
Essa ficha também muda a maneira de olhar uma adaptação. Entre a narrativa escrita e a imagem projetada, entram atuação, fotografia, som, figurino e montagem. O Saci visto na tela resulta dessas escolhas. A música de Santoro pertence a essa produção; não é a trilha sonora de todos os relatos de Saci.
Quando dizemos que um filme foi inspirado no folclore, portanto, precisamos perguntar se a relação foi direta ou passou por outra obra. Neste caso, existe uma ponte identificada: a literatura de Lobato. Uma adaptação pode carregar tanto a referência popular quanto as decisões de um autor anterior.
Juro Que Vi: crianças participaram da criação da animação
Na série Juro Que Vi, da MultiRio, o ponto de partida para nossa leitura é o processo de produção. A empresa municipal descreve os desenhos como realizados em colaboração com alunos da rede pública do Rio de Janeiro. Crianças participaram da construção das versões que chegariam à tela. [13]
Uma revista da própria MultiRio, publicada em 2004, apresenta O Curupira, O Boto e Iara entre os filmes já lançados. O documento relaciona a série ao trabalho de recontar narrativas a partir do ponto de vista das crianças e registra depoimentos dos responsáveis pela produção. [14]
Aqui há uma mudança que importa tanto quanto o desenho final: o público infantil não foi considerado apenas o destino de um produto. Sua participação entrou no processo. Isso oferece uma resposta concreta a quem imagina que folclore e criação atual precisam ficar em lados separados.
O vídeo acima é uma obra da série, não uma prova de que o acontecimento narrado ocorreu. Essa distinção parece simples, mas deve acompanhar materiais usados na escola ou apresentados num site cultural. O nome Juro Que Vi participa da linguagem do relato; não transforma animação em documento de uma aparição.
Cidade Invisível: o folclore entrou numa investigação urbana
A Netflix apresentou Cidade Invisível, criada por Carlos Saldanha, como uma série em que referências das lendas brasileiras se encontram com suspense e questões ambientais. A primeira temporada estreou em 5 de fevereiro de 2021. Seu anúncio reúne um policial, um incêndio e um boto-cor-de-rosa numa praia carioca. [15]
Esse deslocamento tem consequências para a história. O personagem passa a dividir espaço com a cidade e com uma investigação. A produção constrói suas próprias relações entre as entidades. O espectador deve poder reconhecer esse conjunto como uma escolha de ficção, sem concluir que toda comunidade conta os relatos daquela maneira.
A segunda temporada, lançada em 22 de março de 2023, levou a trama para a região de Belém. O anúncio oficial registra Graciela Guarani entre os responsáveis pela direção e Zahy Tentehar e Kay Sara no elenco. A sinopse inclui um santuário natural e a ameaça de garimpeiros ilegais. [16]
Conhecer uma entidade por uma série pode abrir uma pesquisa. Pode também encerrá-la cedo demais. Basta procurar apenas o nome e repetir o enredo televisivo como se ele fosse o relato original. Uma boa leitura começa quando o espectador pergunta o que a produção transformou e quais outras versões ficaram de fora.
Nos jogos, quem ouvia a história passa a tomar decisões
Um livro pode contar uma perseguição. Um jogo pode pedir que você escolha para onde fugir. Essa diferença muda a função de uma referência popular: ela entra nos caminhos, nos obstáculos e nas ações de quem joga. Dois títulos brasileiros mostram possibilidades bem distintas.
The Last NightMary: uma lenda piauiense virou terror
The Last NightMary — A Lenda do Cabeça de Cuia, do Submersivo Game Studio, foi lançado em 2 de novembro de 2015. Sua página oficial no Steam o apresenta como um jogo de terror e sobrevivência baseado numa lenda regional piauiense. Maria precisa escapar de Crispim num labirinto de mata. [17]
O gênero é point-and-click: o jogador aponta e clica para interagir. A apresentação informa ainda que o trabalho nasceu como conclusão de curso de Artes Visuais na Universidade Federal do Piauí. Uma referência regional chegou a um jogo por meio de uma criação vinculada à universidade.
O mérito desse exemplo é ampliar o mapa da pauta. Folclore brasileiro não se resume ao pequeno grupo de personagens que costuma aparecer em atividades escolares. Uma criação pode chamar a atenção para uma narrativa regional e levar o jogador a procurar sua história fora da tela.
Tropicalia: Curupiras e Boitatás num RPG
Tropicalia: a Brazilian Game, criado por Paulo Henrique Franqueira, foi lançado em 28 de fevereiro de 2023. O autor o descreve como um RPG inspirado na mitologia tupi-guarani, com Curupiras e Boitatás entre os seres encontrados. Sua apresentação faz referência aos jogos de RPG do Super Nintendo. [18]
RPG é um jogo em que você assume um personagem, desenvolve habilidades e toma decisões numa aventura. Neste caso, há batalhas por turnos e exploração. A relação com as referências populares participa do mundo jogável, e não apenas do título na capa.
É preciso preservar a diferença entre a descrição de um jogo e uma afirmação sobre povos reais. “Mitologia tupi-guarani” é a expressão usada na divulgação do autor. Ela não deve servir para apresentar diferentes povos, línguas e tradições como uma coisa só, nem para tratar o enredo como uma reconstrução histórica.
Também não há motivo para exigir que toda criação inspirada nessas referências seja infantil. O terror de The Last NightMary e a aventura de Tropicalia mostram escolhas de gênero. Para avaliá-las, vale perguntar que papel o personagem ganhou, como foi representado e que fontes o criador oferece para quem deseja saber mais.
No Internacional, o Saci virou pertencimento
Um mascote não precisa recontar uma aventura completa. Ele representa um grupo e participa de seus símbolos. No Internacional, o Saci ocupa esse lugar. A história apresentada pelo clube liga sua presença ao período do Rolo Compressor, nos anos 1940. [19]
A cronologia oficial informa que o personagem entrou no estatuto como mascote em 2016, depois de décadas entre os torcedores. A formalização é uma etapa diferente da adoção popular. Não se deve usar a data do estatuto como se ninguém reconhecesse o Saci antes dela. [20]
Nessa passagem, atributos atribuídos ao personagem encontram o vocabulário do futebol. O clube apresenta sua versão como alguém jovem, habilidoso e ligado à brincadeira. É a maneira pela qual o Inter explica seu próprio símbolo; não uma descrição que sirva para todas as versões de Saci. [21]
O caso ajuda a entender por que um personagem pode sobreviver fora de uma narrativa com começo e fim. Ele também pode ser reconhecido num gesto, numa imagem ou na relação de alguém com seu time. A tradição oferece referências; o clube organiza uma identidade própria a partir delas.
A meu ver, isso mostra um erro de quem coloca o folclore apenas na infância. O personagem participa de um pertencimento adulto. Não deixou de ter origem em histórias populares porque passou a ocupar outro lugar social.
O Curupira da UEA mostra outra forma de inspiração
Voltemos à pequena caixa da abertura. Na entrevista de agosto de 2023, o coordenador Raimundo Cláudio Souza Gomes relacionou o nome Curupira à proposta de proteger a floresta. A reportagem situava o sistema em desenvolvimento, com testes e etapas futuras. Aqui, o exemplo é essa escolha documentada de nome e função. [1]
O nome não comprova, por si, a eficácia de um sistema. Tampouco um alerta substitui a ação necessária para impedir a destruição. Ainda assim, a referência é clara: a criação aproveita uma ideia de proteção, em vez de transformar o personagem num protagonista de filme ou jogo.
O Sacip já investigou os registros do Curupira anteriores aos livros infantis. A comparação entre esses relatos e a ferramenta atual é um convite à pesquisa. Não autoriza afirmar que todos os narradores atribuíam ao personagem exatamente o mesmo papel.
O que muda quando a tradição vira uma criação?
Comparar os formatos ajuda a perceber o trabalho de adaptação. Em cada um, a referência passa a obedecer também às necessidades de uma obra ou de um uso particular.
| Formato | Exemplo | Transformação em destaque |
|---|---|---|
| Livro | O Saci | O personagem participa de uma aventura organizada pelo escritor. |
| Música | Uirapuru | A referência ganha forma na composição, no canto ou na orquestra. |
| Quadrinhos | Pererê | Traço, relações e continuidade tornam uma versão reconhecível. |
| Jogo | The Last NightMary | Quem joga precisa agir diante da ameaça criada pelo enredo. |
| Futebol | Mascote do Inter | O personagem passa a representar pertencimento a um clube. |
| Tecnologia | Projeto Curupira | Uma ideia de proteção orienta a escolha do nome da ferramenta. |
Minha opinião: criar a partir de uma história exige reconhecer quem a mantém viva
Não vejo sentido em tratar as tradições como peças que só podem ser admiradas atrás de um vidro. Os exemplos deste artigo mostram possibilidades: uma aventura literária, uma canção, uma animação feita com participação de crianças, uma lenda regional num jogo. Podemos acolher a criação e examiná-la com atenção ao mesmo tempo.
Meu incômodo está na facilidade com que a palavra “brasileiro” encerra a conversa. Dizer que algo veio da cultura brasileira explica pouco quando ainda podemos identificar um lugar, um povo, uma família de narradores ou uma fonte. A expressão deveria abrir essas perguntas, não dar licença para ignorá-las.
Reconhecer o caminho de uma referência não reduz a autoria da obra nova. Pelo contrário: permite ver suas decisões com mais clareza. Lobato organizou uma aventura; Ziraldo criou uma versão de gibi; um estúdio transformou uma lenda piauiense num jogo de sobrevivência. Há trabalho autoral nesses passos, e há histórias anteriores que não devem desaparecer sob sua assinatura.
Acredito que uma produção cultural cuidadosa deve tornar esse caminho visível. Pode apresentar os livros consultados, os registros utilizados e, quando houver, as pessoas que participaram da pesquisa. Quando trabalha com tradições vivas de uma comunidade, deve ouvi-la e respeitar os limites que ela estabelece para o que deseja compartilhar.
Essa cobrança precisa ter consequência prática. Não basta usar a imagem de uma comunidade para dar autenticidade a uma obra e deixá-la sem voz nas escolhas que a atingem. Defendo participação e remuneração justa de quem colabora, inclusive narradores, pesquisadores locais, tradutores e artistas. Também defendo espaço de publicação para que contem suas próprias histórias.
O ensaio de Jaider Esbell torna impossível esquecer esse último ponto. Sua criação não deve aparecer apenas como uma nota que melhora a leitura de Mário de Andrade. Ela merece leitura por seus próprios sentidos. Para quem conhece primeiro o romance modernista, encontrá-la pode mudar a pergunta: em vez de procurar só a origem de um personagem famoso, passa-se a ouvir alguém que fala de uma relação ancestral.
Há responsabilidade também de quem divulga. Um portal cultural não pode chamar um roteiro de “a verdadeira lenda”, nem apresentar uma imagem recente como se tivesse sido encontrada num documento antigo. Deve identificar data, autor, fonte e situação do material. Sem isso, a divulgação fabrica uma aparência de pesquisa que o leitor não consegue conferir.
O mesmo cuidado vale para nós, do Sacip. Ao publicar uma fotografia ou um desenho, precisamos distinguir a autoria daquela imagem da história que ela representa. Ao comentar uma série, precisamos distinguir o que a produção mostra do que os registros dizem. Nosso artigo sobre quem decide o que deve ser preservado amplia esse debate sobre reconhecimento e participação.
Gostaria de ver cada descoberta de uma obra funcionar como uma porta de entrada. Quem encontrou o Cabeça de Cuia num jogo pode procurar registros do Piauí. Quem conheceu o Saci num gibi pode ler relatos diferentes. Quem chegou a Makunaima pela literatura pode dar tempo e atenção à obra de Esbell.
A pequena caixa chamada Curupira fecha bem esse percurso. Uma referência popular ajudou a nomear uma ferramenta pensada para a floresta. O passo que defendo para a cultura é parecido: fazer a criação circular e usar essa atenção para reconhecer os lugares e as pessoas que continuam produzindo suas histórias. Um personagem pode ganhar o mundo sem que seus narradores sejam deixados para trás.
Fontes e documentos para continuar a pesquisa
As fontes abaixo sustentam as datas e os vínculos apresentados. As comparações entre formatos e as propostas da seção de opinião são interpretações editoriais. A data de consulta é 8 de outubro de 2026.
- Karol Rocha / A Crítica: entrevista com os pesquisadores do Projeto Curupira, 19/08/2023.
- Monteiro Lobato: O Sacy-Pererê, obra de 1918 em fac-símile de 1998, Biblioteca Digital Curt Nimuendaju / Internet Archive.
- Universidade Federal de Santa Catarina: registro de O Saci (1921), Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos.
- Telê Ancona Lopez: O Macunaíma de Mário de Andrade nas páginas de Koch-Grünberg, Manuscrítica, n. 24, 2013.
- Instituto de Estudos Brasileiros / USP: Um Ensaio para Makunaîma, programa de Silvana de Souza Ramos, 2024.
- Jaider Esbell: Makunaima, o meu avô em mim!, Iluminuras, v. 19, n. 46, p. 11–39, 2018. Registro DOI.
- Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul: registro de Makunaima 04.
- Museu Villa-Lobos: manuscrito e histórico de apresentações de Uirapuru, registro 1990.21.0172.
- Museu Villa-Lobos / Google Arts & Culture: apresentação do roteiro e da referência ao canto do pássaro.
- Márcia Jorge Aliverti: Uma visão sobre a interpretação das canções amazônicas de Waldemar Henrique, Estudos Avançados, v. 19, n. 54, 2005.
- André Bernardo / Itaú Cultural: perfil de Ziraldo, 2022.
- Cinemateca Brasileira: ficha filmográfica de O Saci, código 013907.
- MultiRio: apresentação oficial de Juro Que Vi.
- MultiRio: revista Nós da Escola, n. 23, 2004, p. 21–24 e 28.
- Netflix: anúncio e trailer da primeira temporada de Cidade Invisível, 2021.
- Netflix: anúncio da segunda temporada de Cidade Invisível, 2023.
- Submersivo Game Studio / Steam: The Last NightMary — A Lenda do Cabeça de Cuia.
- Paulo Henrique Franqueira / Steam: Tropicalia: a Brazilian Game.
- Sport Club Internacional: Rolo Compressor, cronologia do mascote.
- Sport Club Internacional: formalização do mascote no estatuto.
- Sport Club Internacional: apresentação de sua versão do Saci.



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