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Cultura

A desigualdade brasileira escondida nas histórias populares

O Negrinho do Pastoreio e o bumba meu boi guardam disputas por trabalho, infância e voz. Uma leitura com páginas de 1913 e 1840, variantes do boi e dados do Brasil atual.

Por · Publicado em · 12 min de leitura
Brincantes tocam grandes pandeirões durante apresentação do bumba meu boi no Maranhão.
Brincantes com pandeirões do bumba meu boi no Maranhão, série Retratos de Pai Francisco (2021). Foto: Tairo Lisboa / EXUBERANTES / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Redimensionamento e conversão para WebP pelo Sacip.

Na primeira página de “O Negrinho do Pastoreio” em Lendas do Sul, publicado em 1913, João Simões Lopes Neto apresenta um estancieiro que tinha dinheiro, prata, cavalo e água. Aos viajantes, negava pouso; a quem trabalhava para ele, dava comida ruim. Havia ainda uma criança escravizada. O livro descreve o filho do homem, o cavalo de confiança e o menino. Este último é identificado apenas pelo diminutivo racial com que todos o chamavam: Negrinho.

É uma entrada incômoda para uma história conhecida hoje por velas, promessas e objetos perdidos. Antes do milagre, existe uma relação de poder: um adulto rico pode ordenar, castigar e dispor do tempo de uma criança. A tradição guarda também uma resposta a essa violência, mas as versões que chegaram ao papel deixam ver quem tinha voz e quem era tratado como propriedade.

O menino sem nome e o cavalo com lugar na casa

Na narrativa impressa por Simões Lopes Neto, o estancieiro aposta numa corrida com o vizinho e põe o menino para conduzir o cavalo. A perda da corrida vira motivo de punição. Depois, o filho do proprietário solta os animais; a culpa recai outra vez sobre a criança. O castigo chega a uma crueldade extrema. Quem conhece somente a parte em que o Negrinho ajuda a encontrar coisas talvez não saiba que o livro também conta essa violência.

O texto não é uma ata sobre uma fazenda identificável. É a versão literária de uma lenda, escrita por um autor gaúcho no começo do século XX. Seria impróprio usar cada detalhe como prova de que um episódio ocorreu exatamente assim. O que podemos afirmar, lendo a edição, é que a história atribui ao senhor o controle da terra, dos animais e do trabalho de uma criança escravizada. O menino sofre as consequências de decisões tomadas por outros.

Há uma escolha de linguagem que pesa: o cavalo é descrito com características próprias; o menino, embora central, fica reduzido a um apelido. Isso não apaga sua presença na cultura popular. Pelo contrário, torna mais visível o contraste entre a importância que a narrativa lhe dá e a condição que lhe é imposta dentro dela. A violência da escravidão não deveria virar mero cenário pitoresco para chegar depressa ao milagre.

Página de 1913 de Lendas do Sul com o início da lenda O Negrinho do Pastoreio em grafia da época.
Primeira página da narrativa “O Negrinho do Pastoreio” na edição de 1913 de Lendas do Sul. É o registro impresso de uma versão, não a certidão de nascimento da lenda. Obra de João Simões Lopes Neto, fac-símile no Wikimedia Commons — domínio público. Página convertida para WebP pelo Sacip.

O fim dessa versão muda a sorte do personagem: depois da aparição de Nossa Senhora, o menino passa a ser invocado por quem perdeu algum objeto; acender uma vela faz parte da devoção narrada. O consolo é real como experiência cultural de quem conta e acredita. Ele não desfaz o que veio antes. Se lemos só o final, o patrão violento sai de cena sem que a pergunta sobre o poder que exercia tenha sido feita.

O Sacip já apresentou a edição de 1913 em seu mapa de lendas. Aqui, a página funciona de outro modo: ela é uma pista para observar como uma sociedade narrava trabalho, infância, riqueza e violência.

Quando o boi entrou no jornal, quem falou?

Em 11 de janeiro de 1840, O Carapuceiro, jornal publicado no Recife, dedicou um texto ao bumba meu boi. O título já anunciava a reprovação: “A estultice do bumba meu boi”. O redator achou a brincadeira sem graça, descreveu personagens como o boi, a caipora, o cavalo marinho e Matheus, e se indignou especialmente com a sátira de um padre.

O registro interessa por dois motivos. É uma descrição antiga de uma prática popular em movimento, com música, personagens e irreverência. E é também um documento do olhar de quem escrevia para julgar essa prática. O autor não entrevistou ali os brincantes para lhes perguntar o que significava a apresentação. Defendeu a respeitabilidade da religião e chegou a discutir a intervenção da polícia contra a encenação que o ofendia.

Isso não autoriza imaginar que todo espectador de 1840 pensasse igual ao jornal. Tampouco transforma a crítica do redator em descrição neutra do boi. O que a página prova é que um homem com acesso à imprensa tratou a festa como alvo de censura moral. Os artistas, neste documento, aparecem pela pena de outra pessoa.

DOCUMENTO · RECIFE, 1840

A crítica ao bumba meu boi no original

A edição nº 2 de O Carapuceiro, datada de 11 de janeiro de 1840, está digitalizada. Leia o texto a partir da primeira página e observe como o redator descreve a brincadeira e a figura do sacerdote. O PDF pode demorar a abrir no acervo.

Abrir o jornal na Hemeroteca da Biblioteca Nacional →

Há um detalhe que impede uma simplificação muito repetida na internet. O Carapuceiro fala em Matheus e em outros personagens; não apresenta o enredo fechado de Pai Francisco, Catirina e o boi preferido do fazendeiro como se essa fosse a única forma da festa. Quem junta automaticamente os dois documentos — o jornal de 1840 e uma versão posterior do enredo — cria uma continuidade que não está demonstrada na página.

Quem manda na história do boi?

Em uma narrativa bastante conhecida, Catirina deseja comer a língua do boi favorito do patrão. Pai Francisco atende ao pedido, o animal adoece ou morre, e o fazendeiro exige uma solução. São relações que cabem em poucas linhas, mas carregam uma pergunta difícil: por que o desejo de uma família pobre põe seus integrantes diante da ameaça de um proprietário?

A antropóloga Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti estudou variantes desse enredo. Em algumas, o patrão mostra consideração por Francisco; em outras, ameaça castigo, ordena violência ou efetivamente o agride. A diferença importa. Se a figura do patrão muda de uma narrativa para outra, não existe uma fala única que possamos atribuir a todos os grupos de boi.

Há outra cautela. Cavalcanti mostra que o chamado “auto” — entendido como roteiro fixo e original da festa — ganhou força na escrita de estudiosos sobretudo a partir de meados do século XX. Isso não quer dizer que alguém inventou do nada Pai Francisco ou Catirina, nem que as histórias orais sejam falsas. Quer dizer que escrever uma versão como a origem definitiva de uma tradição viva pode congelar o que os brincantes continuam transformando.

Boi bordado com cores vivas e brincantes reunidos em celebração junina do bumba meu boi no Maranhão.
Boi e brincantes em celebração junina no Maranhão, fotografados em 2023. A foto mostra uma apresentação contemporânea; não ilustra o episódio de 1840. Foto: Salomao96 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Recorte e conversão para WebP pelo Sacip.

O bumba meu boi do Maranhão é hoje um complexo cultural registrado como patrimônio brasileiro pelo Iphan. O dossiê de registro reúne sotaques, grupos, modos de fazer, personagens e ocasiões de apresentação. Há trabalho na costura, nos bordados, nos instrumentos, nos ensaios e no cuidado com a continuidade da festa. Quando o boi vira somente uma foto bonita, quem faz tudo isso some outra vez.

A foto da capa mostra mãos e corpos atrás de grandes pandeirões. Não há ali uma legenda que identifique cada pessoa ou diga o que recebe por seu trabalho. Por isso, a imagem não prova uma condição social específica. Ela ajuda a lembrar algo mais simples: nenhuma manifestação acontece sem gente que a sustente.

O que o arquivo mostra — e o que deixa de fora

Temos a página de um livro assinado e a página de um jornal. Sabemos os nomes dos autores. Sabemos menos sobre as pessoas que contavam o Negrinho fora do livro, sobre a criança real cuja experiência pode ter alimentado relatos parecidos, ou sobre os integrantes do boi que o jornalista viu ou ouviu mencionar. Essa diferença não é uma licença para inventar vozes. É um limite do arquivo.

O silêncio também é histórico. Ter acesso a tipografias, editores e leitores exigia recursos distribuídos de maneira desigual. A lembrança oral podia atravessar gerações sem que o nome de quem contou entrasse na capa de um volume. O escritor ou o pesquisador não precisava ter más intenções para produzir esse desequilíbrio; bastava que o sistema de publicação reconhecesse melhor sua assinatura do que a de seus interlocutores.

Por isso a pergunta “quem contou?” é tão útil quanto “de onde veio?”. Uma lenda pode ter muitas famílias de narradores, circular em lugares diferentes e mudar de sentido conforme a situação. O próprio boi não tem uma única biografia nacional: nomes, datas festivas e personagens variam entre regiões. Na pesquisa do Sacip sobre os primeiros registros do folclore brasileiro, a diferença entre manifestação vivida e anotação escrita também ajuda a ler os documentos sem confundir o coletor com o criador da tradição.

O que isso tem a ver com o Brasil de hoje?

Um número atual não demonstra que uma lenda do século XIX “previu” o presente. É outro tipo de fonte, produzida com outro método. Ainda assim, colocar a história ao lado de dados sociais impede que a violência contra uma criança ou a distância entre patrão e trabalhador sejam tratadas como curiosidades de uma época encerrada.

Na pesquisa do IBGE referente a 2024, 1,65 milhão de pessoas de 5 a 17 anos estavam em situação de trabalho infantil. Entre elas, 66% eram pretas ou pardas, proporção acima da participação desse grupo no total de crianças e adolescentes da mesma faixa etária. Já o rendimento médio por hora de trabalho em 2024 foi de R$ 24,60 para pessoas brancas e R$ 15,00 para pessoas pretas ou pardas. São medidas contemporâneas de problemas contemporâneos, não a continuação automática de personagens fictícios.

A escolha editorial aqui é direta: uma sociedade que aplaude o trabalho cultural de gente pobre e negra precisa também levar a sério seus direitos fora do palco. Respeitar o boi inclui respeitar seus brincantes como trabalhadores e autores; contar o Negrinho com cuidado inclui recusar a naturalização da violência contra crianças. Patrimônio e igualdade não se resolvem por uma legenda bem escrita, mas uma legenda pode ao menos não esconder quem fez a festa.

Há conflitos em que o espaço para trabalhar e transmitir uma tradição entra em disputa. O artigo do Sacip “Folclore também é luta por terra?” examina casos documentados de fandango caiçara, quebradeiras de coco e jongo quilombola. É uma leitura complementar: ali o território é o centro; aqui, a questão é a desigualdade que aparece na narrativa e também no modo como ela foi registrada.

Voltar ao menino

Quando alguém acende uma vela para o Negrinho do Pastoreio, a história não termina no livro de 1913. Ela continua na memória de quem a conta, com afetos, crenças e variantes que este texto não pretende substituir. Mas podemos voltar à primeira página e reparar no que talvez passasse despercebido: o proprietário tem riqueza e autoridade; a criança tem uma tarefa, uma punição e nenhum nome próprio.

O milagre devolve esperança à narrativa. A leitura da desigualdade devolve responsabilidade a quem a escuta. Não precisamos escolher entre as duas. Precisamos saber em que página começa a história antes de dizer que conhecemos seu final.

Fontes e método

Esta leitura combina documentos de época, um estudo acadêmico, registro de patrimônio e estatísticas atuais. Os documentos demonstram o que foi publicado; não representam sozinhos todos os narradores ou brincantes. A avaliação sobre desigualdade e direitos é interpretação editorial de Felipe para o Sacip.

Pesquisa e revisão editorial: 1º de outubro de 2026. Fotografias de acervos identificados; nenhuma imagem gerada por IA.

RESPOSTAS DIRETAS

Perguntas frequentes

O Negrinho do Pastoreio foi uma criança que existiu de verdade?

A lenda não identifica uma pessoa cuja vida possa ser comprovada por este relato. A edição de 1913 é uma versão literária de uma tradição anterior. A violência escravista que ela evoca foi histórica, mas isso não transforma cada cena da narrativa em ocorrência documentada.

O bumba meu boi sempre conta a história de Pai Francisco e Catirina?

Não. Há variantes regionais e de grupo, com personagens e enredos diferentes. A pesquisa de Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti mostra que a ideia de um roteiro original e fixo foi fortalecida também pela maneira como estudiosos escreveram sobre o folguedo.

Uma lenda pode revelar desigualdade mesmo sem ser um documento factual?

Sim, desde que se diga o que está sendo observado: relações de poder representadas na narrativa e escolhas de quem a registrou. Para afirmar algo sobre uma época ou sobre o presente, é preciso cruzar a história com documentos e pesquisas de natureza diferente.

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SOBRE O AUTOR

Felipe

Felipe Rodrigues Adão é escritor amador, observador de Saci e um dos idealizadores do Sacip — Sociedade dos Observadores de Saci de Pontal. Migrante do Vale do Jequitinhonha, hoje mora em Pontal, no interior de São Paulo, e é apaixonado pela cultura popular brasileira e pelas histórias, tradições e saberes transmitidos entre gerações. No projeto, contribui para a valorização do folclore, da memória local e da identidade cultural brasileira, ajudando a construir um espaço dedicado à preservação de lendas, causos, personagens e manifestações populares.

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