Há um Brasil que quase nunca aparece inteiro nos livros didáticos. Ele vive nas conversas de varanda, nos avisos dos pescadores, nas lembranças de quem cresceu perto de um rio e nas histórias que os mais velhos contavam quando a noite chegava.
Nesse Brasil, uma mulher encantada protege uma ilha no meio do Atlântico. Um menino amaldiçoado atravessa o interior de Goiás pregando peças. Uma criatura recebe fumo dos barqueiros para não perturbar a viagem. Há também uma assombração que cresce até alcançar um lampião, um monstro cujo nome nasceu da memória de um militar e uma coruja real transformada em anúncio sobrenatural. Em outro extremo do país, uma princesa convertida em pequena lagartixa guarda uma caverna entre as pedras do pampa.
O Saci, a Iara, o Curupira e a Mula sem Cabeça se tornaram conhecidos em todo o país. Mas o folclore brasileiro é muito maior do que esse pequeno grupo de personagens. Existem lendas profundamente ligadas a cidades, rios, ilhas e comunidades específicas. Algumas são famosas em sua região e quase desconhecidas fora dela.
Conhecer essas histórias não é apenas procurar criaturas assustadoras. É observar como diferentes comunidades aprenderam a explicar a natureza, ensinar limites, dar forma aos medos e manter vivas as lembranças de um lugar.
Antes de seguir, vale um aviso importante: uma lenda nunca possui uma única versão. A tradição oral muda cada vez que alguém conta. Um nome pode variar, um personagem pode ganhar outra aparência e o final pode ser mais sombrio ou mais leve. As versões reunidas aqui são caminhos de entrada, não respostas definitivas.
Foto de destaque: Rapa23 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Pôr do sol visto do Forte dos Remédios, em Fernando de Noronha.
Alamoa: a encantada de Fernando de Noronha
Imagem de contexto: o entardecer em Fernando de Noronha, território onde circula a lenda da Alamoa. Foto: Rapa23 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
Em Fernando de Noronha, Pernambuco, a beleza da paisagem convive com histórias criadas durante séculos de isolamento, ocupações estrangeiras e funcionamento do antigo presídio. Entre elas, nenhuma se tornou tão conhecida na ilha quanto a Alamoa.
Uma das versões apresenta a personagem como uma mulher loira de beleza extraordinária. Nas noites de lua cheia, ela apareceria perto do Morro do Pico e atrairia homens para regiões afastadas. O encontro, porém, podia terminar de maneira terrível. Em certos relatos, a bela mulher revelava uma aparência assustadora depois de conquistar a confiança da vítima.
O próprio nome costuma ser relacionado a “alemã”, palavra que teria mudado na fala popular. Mas, como acontece com boa parte das narrativas orais, a origem exata não está fechada.
A memória local também transformou a personagem. Segundo a Administração de Fernando de Noronha, houve versões nas quais ela atacava homens por acreditar que eles destruíam a natureza. Com o passar do tempo, o lado sombrio perdeu força e a Alamoa passou a ser lembrada como protetora da ilha.
Essa mudança diz muito sobre o folclore. A lenda não ficou congelada no passado. Ela acompanhou novas preocupações da comunidade e ganhou uma leitura ligada à defesa ambiental. A antiga assombração tornou-se também guardiã da paisagem.
Cabeça de Cuia: o encantado dos rios Poti e Parnaíba
Imagem de contexto: encontro dos rios Poti e Parnaíba, cenário central das narrativas sobre o Cabeça de Cuia. Foto: Gerda Arendt / Wikimedia Commons, CC0.
No Piauí, especialmente em Teresina, a história do Cabeça de Cuia faz parte da identidade local. A lenda tornou-se tão importante que foi reconhecida, em 2023, como Patrimônio Cultural Imaterial do estado.
Na versão mais difundida, Crispim era um jovem pescador que vivia com a mãe às margens do rio. Depois de um dia ruim de pesca, voltou para casa e encontrou uma refeição muito simples. Tomado pela raiva, atirou um osso contra a mãe e a feriu mortalmente.
Antes de morrer, ela lançou uma maldição. Crispim se transformaria em uma criatura de cabeça enorme, parecida com uma cuia, e passaria a vagar pelas águas dos rios Poti e Parnaíba. Alguns relatos dizem que ele só seria libertado depois de devorar sete mulheres chamadas Maria. Outras versões diminuem ou retiram essa parte da narrativa.
O Cabeça de Cuia passou a ser associado a embarcações viradas, desaparecimentos e perigos enfrentados por quem entra no rio sem cuidado. A história pode ser lida como um aviso sobre a força das águas e também como uma narrativa sobre culpa, violência e consequências que não podem ser desfeitas.
Hoje, o personagem está presente em monumentos, livros, quadrinhos, músicas, eventos e produções audiovisuais. O que nasceu e circulou pela oralidade tornou-se um dos maiores símbolos culturais do Piauí.
Num-se-Pode: a mulher que crescia sob os lampiões de Teresina
Imagem de contexto: Praça Saraiva, no centro de Teresina, região associada às histórias do Num-se-Pode. Foto: Moacir Ximenes / Wikimedia Commons, CC0.
Nem toda lenda regional nasce no fundo de uma mata ou às margens de um rio. A Num-se-Pode pertence à noite urbana de Teresina, quando os lampiões a gás ainda eram novidade e as ruas iluminadas produziam, ao mesmo tempo, sensação de progresso e novos lugares para o medo.
Segundo registros reunidos a partir do Dicionário do Folclore Brasileiro, a assombração aparecia perto da Praça Conselheiro Saraiva, também conhecida como Praça Saraiva. Era vista por soldados de ronda, boêmios e outros homens que atravessavam a cidade tarde da noite. Parecia uma mulher alta e triste, com rosto comprido e olheiras profundas.
Na versão que se tornou mais lembrada, ela ficava sob um poste e pedia cigarro ou fogo a quem se aproximava. Assim que recebia, seu corpo começava a se alongar até alcançar o lampião. Enquanto crescia, repetia: “num-se-pode”. O susto fazia até os homens considerados mais valentes fugirem.
A figura possui parentesco com narrativas de seres que crescem e diminuem, conhecidas em outras regiões por nomes como Cresce-Míngua. Em Teresina, porém, ganhou cenário, nome e memória próprios. A lenda também foi recriada pela música. Em 1986, o Grupo Candeia gravou uma canção sobre a Num-se-Pode e sugeriu que ela talvez fosse uma mulher encantada, não apenas uma ameaça.
Essa mudança de ponto de vista é reveladora. A assombração que punia a curiosidade masculina passou a ser imaginada também como alguém presa a um destino. A cidade mudou, os lampiões desapareceram, mas a personagem continuou habitando a arte e a memória piauiense.
Comadre Fulozinha: respeito pedido por quem guarda a mata
Imagem de contexto: mata pernambucana, paisagem onde histórias sobre a guardiã Comadre Fulozinha continuam vivas. Foto: Pato Novoa / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.
Na Paraíba, em Pernambuco e em outras áreas do Nordeste, muitas pessoas conhecem a Comadre Fulozinha. Fora desses lugares, porém, ela ainda recebe menos atenção do que personagens como o Curupira e a Caipora.
As descrições variam bastante. Ela pode aparecer como uma menina de cabelos muito longos, uma mulher pequena ou uma presença invisível denunciada por assobios e ruídos. Há relatos em que seus cabelos cobrem o corpo e outros nos quais os fios são tão compridos que servem para chicotear quem a desrespeita.
Seu território é a mata. Caçadores, lenhadores e pessoas que entram na floresta podem tentar conquistar sua simpatia deixando fumo, mel ou outros agrados. Quem maltrata animais, destrói plantas ou zomba da encantada corre o risco de se perder, levar uma surra invisível ou passar por sustos difíceis de explicar.
Um estudo da Universidade Federal da Paraíba sobre a comunidade do Porto do Capim chama atenção para algo essencial: para moradores, figuras como a Comadre Fulozinha e o Pai do Mangue podem ser mais do que simples “mitos”. Elas participam da maneira como crianças e adultos compreendem o ambiente, o território e a obrigação de respeitar a natureza.
Por isso, reduzir a Comadre Fulozinha a uma personagem assustadora empobrece seu sentido. Ela é também uma regra narrada em forma de encantamento: a mata não é um espaço sem dono onde tudo pode ser retirado.
Quibungo: o monstro baiano com raízes africanas
Imagem de contexto: uma gruta na Bahia, paisagem simbólica para uma narrativa que ganhou formas próprias no estado. Foto: Boa Viagem Tropical / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
Entre as figuras do folclore da Bahia, o Quibungo é uma das mais inquietantes e menos divulgadas fora do estado. Seu nome e muitas características são associados a matrizes africanas, especialmente bantas, que foram transformadas no Brasil pela experiência da escravização, pela oralidade e pelo contato com outras tradições.
As versões descrevem um ser enorme, peludo e difícil de classificar. Ele pode reunir traços humanos e animais, mas seu detalhe mais marcante é uma grande abertura nas costas. Em muitos contos, é por essa abertura que o Quibungo captura crianças e pessoas desobedientes.
A história foi usada como narrativa de medo para manter crianças perto de casa, afastá-las de caminhos perigosos e fazê-las obedecer aos adultos. No entanto, tratá-la apenas como um “bicho-papão” esconde uma camada importante. Estudos sobre o personagem mostram que o Quibungo também preserva marcas de imaginários africanos que sobreviveram e foram reorganizados em território brasileiro.
Folcloristas registraram diferentes grafias e descrições, como Kibungo e Tchibungo. Nem toda versão possui a mesma aparência ou o mesmo comportamento. Essa instabilidade é parte da riqueza da narrativa: o Quibungo não veio de uma biografia única, mas de histórias contadas, adaptadas e recriadas por muitas vozes.
Hoje, livros infantis e atividades de leitura recuperam a personagem para discutir cultura negra e representatividade. A passagem do monstro oral para a literatura não elimina seu lado assustador; ela acrescenta novas perguntas sobre quem pôde contar sua própria história e quais memórias ficaram fora dos repertórios escolares.
Labatut: quando um homem da história vira monstro no sertão
Retrato de Pedro Labatut, figura histórica cujo nome foi transformado pela tradição oral em personagem assustador. Obra de Oscar Pereira da Silva, Acervo do Museu Paulista da USP / Wikimedia Commons, domínio público.
Na região da Chapada do Apodi, entre o Ceará e o Rio Grande do Norte, o nome Labatut deixou os livros de história e entrou no território das assombrações.
Pedro Labatut foi um militar francês que participou das lutas ligadas à Independência do Brasil. A memória de sua passagem pelo Nordeste ficou associada à dureza, à violência e ao medo. Com o tempo, o sobrenome teria se transformado no nome de uma criatura muito pior do que um lobisomem.
O Monstro Labatut costuma ser descrito como um gigante coberto de pelos, com braços longos, pés redondos e apenas um olho no meio da testa. Algumas versões acrescentam dentes grandes e uma fome especialmente ameaçadora. Ele rondaria estradas desertas e povoados em noites de vento ou de lua clara.
É difícil separar com precisão o personagem histórico da criatura criada pela tradição oral. Esse é justamente o ponto mais interessante da lenda. Uma comunidade pode condensar a experiência de guerra e brutalidade em uma imagem sobrenatural que continua compreensível mesmo quando os detalhes políticos já foram esquecidos.
Ao contrário de monstros sem tempo definido, Labatut carrega uma pista no próprio nome. A narrativa mostra como a memória popular não repete a história oficial: ela julga, exagera, mistura e transforma. O homem desaparece; fica a lembrança de que sua presença causou medo.
Romãozinho: uma travessura que nasce de uma tragédia
Imagem de contexto: anoitecer no interior de Goiás, região onde diferentes versões de Romãozinho são contadas. Foto: Pwoli / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
Romãozinho pertence principalmente ao imaginário de Goiás e de partes do Centro-Oeste. À primeira vista, ele lembra um menino travesso como o Saci. A origem de sua condenação, no entanto, é muito mais pesada.
Em uma versão conhecida, o garoto come a carne que deveria levar ao pai e acusa injustamente a mãe. Convencido pela mentira, o homem mata a própria esposa. Antes de morrer, ela amaldiçoa o filho, que passa a caminhar pelo mundo sem envelhecer e sem encontrar descanso.
Depois disso, Romãozinho aparece nas estradas, nos quintais e nas áreas rurais. Ele assusta viajantes, espanta animais, faz barulhos, esconde objetos e cria confusão entre as pessoas. Dependendo do contador, pode ser apenas um moleque sobrenatural ou uma presença realmente perigosa.
O interesse da história está na mistura entre brincadeira e crueldade. A travessura deixa de ser inocente quando destrói uma família. A lenda fala de mentira, irresponsabilidade e da dificuldade de reparar um dano depois que ele foi causado.
Em 2024, pesquisadoras da Universidade Estadual de Goiás apresentaram um trabalho sobre uma fotonovela dedicada ao personagem. O estudo observou justamente como Romãozinho permanece pouco conhecido no país e como linguagens digitais podem ajudar a apresentar narrativas regionais às novas gerações.
Pai do Mato ou Pé de Garrafa: uma presença que deixa marcas diferentes
Imagem de contexto: vegetação do Cerrado, uma das paisagens associadas às histórias do Pai do Mato e do Pé de Garrafa. Foto: C2rik / Wikimedia Commons, domínio público.
O nome Pé de Garrafa aparece em diferentes pontos do Brasil, com destaque para o Centro-Oeste. A aparência, os hábitos e até a identidade da criatura mudam conforme a comunidade.
Alguns relatos falam de um ser coberto de pelos que vive em regiões de mata e emite gritos capazes de confundir quem passa. O apelido viria das pegadas redondas deixadas no chão, semelhantes ao fundo de uma garrafa. Em certas versões, seguir esses rastros é uma armadilha, porque eles não conduzem facilmente ao verdadeiro caminho da criatura.
Entre os Balatiponé-Umutina, povo indígena de Mato Grosso, a narrativa do Pai do Mato ou Pé de Garrafa permanece na memória dos anciãos e das novas gerações. Um estudo publicado por pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso analisou quatro narrativas ligadas à personagem e mostrou como uma história oral pode ser registrada e ganhar novos sentidos sem deixar de pertencer ao imaginário situado de uma comunidade.
Esse caso exige cuidado. Não existe um “Pé de Garrafa oficial” que represente todas as versões. Colocar lado a lado relatos indígenas, rurais e urbanos não significa que todos contam exatamente a mesma história. O mais interessante é perceber como cada grupo reconhece a mata, o medo e a memória por meio de detalhes próprios.
Chibamba: folhas de bananeira, dança e medo em Minas Gerais
Imagem de contexto: bananal brasileiro. As folhas secas aparecem em muitas descrições da roupa e do movimento do Chibamba. Foto: José Reynaldo da Fonseca / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.
O Chibamba pertence a um grupo de personagens usados para assustar crianças, mas sua aparência o torna diferente dos bichos-papões mais conhecidos. No sul de Minas Gerais, ele é lembrado como uma figura coberta por folhas de bananeira, que avança fazendo barulho, ronca como um porco e dança com passos lentos e giros.
O nome é relacionado a línguas e práticas culturais bantas. Pesquisadores e divulgadores do folclore enxergam na roupa de folhas e na dança possíveis lembranças de tradições africanas trazidas ao Brasil. Ao longo do tempo, símbolos que podiam fazer parte de festas ou rituais foram reorganizados pela sociedade escravista e pelo cotidiano doméstico até se tornarem a imagem de um ser que viria buscar a criança teimosa ou fazê-la dormir.
Essa origem não deve ser resumida como uma linha reta. O Chibamba brasileiro também recebeu influências locais e pode ter sido associado a figuras indígenas ou a outros seres de medo. A tradição oral aproxima elementos sem pedir autorização a uma classificação acadêmica.
Uma antiga cantiga anunciava sua chegada para a criança que não parava de chorar. Mais importante do que repetir os versos é perceber a função da cena: o som, a dança e as folhas transformavam uma recomendação dos adultos em presença quase visível.
O Chibamba lembra que o folclore também guarda relações de poder. A história ensinava obediência, mas carregava, mesmo deformadas pelo medo, referências culturais africanas. Recuperá-la hoje exige contar a assombração sem apagar a história das pessoas cujas tradições ajudaram a formá-la.
Corpo-Seco: o morto que nem a terra aceitou
Imagem de contexto: vegetação da Caatinga durante a estiagem. A paisagem seca ajuda a visualizar o aspecto ressequido atribuído ao Corpo-Seco, sem pretender retratar literalmente o personagem. Foto: A. Duarte / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.
O Corpo-Seco não pertence a um único estado. Registros folclóricos localizam versões em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e em áreas do Nordeste. O núcleo comum é perturbador: depois da morte, uma pessoa tão cruel ou tão desrespeitosa seria rejeitada pela própria terra.
O cadáver não se decompõe como deveria. Torna-se ressequido, duro e preso entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Em algumas histórias, fica imóvel em um lugar afastado; em outras, caminha à noite, agarra-se a árvores ou pede ajuda para concluir uma promessa.
A causa da condenação muda. O personagem pode ter maltratado os pais, negado auxílio a quem precisava, quebrado uma promessa religiosa ou recebido um enterro considerado inadequado. Todas essas versões organizam a mesma ideia: certos atos romperiam de modo tão grave a ordem moral que nem a morte conseguiria encerrá-los.
Um estudo publicado na Revista Brasileira de História das Religiões mostra que a narrativa está ligada a crenças católicas sobre almas penadas, ritos funerários e “má morte”. Também registra uma diferença importante: em alguns lugares, o corpo que não se desfaz pode indicar santidade; em outros, é sinal de castigo. A aparência pode ser parecida, mas o sentido é oposto.
Há ainda variantes muito locais. Em Cambira, no Paraná, o Corpo-Seco aparece numa estrada pedindo que alguém complete uma viagem religiosa. Em Dois Córregos, São Paulo, aproxima-se da figura do Unhudo, guardião assustador de uma mata. A lenda se espalhou porque cada comunidade a amarrou a um caminho, uma família ou uma regra própria.
Caboclo d’Água: o dono inquieto das águas mineiras
Imagem de contexto: margens do Rio São Francisco em Januária, Minas Gerais, um dos territórios onde o Caboclo d’Água integra a cultura ribeirinha. Foto: Luiz Claudio Rios Pecoraro / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
Em comunidades ribeirinhas do rio São Francisco e em cidades mineiras como Mariana, Nova Era e Barra Longa, o Caboclo d’Água ganha muitas formas.
Uma versão o descreve como um gigante que vive no ponto mais fundo do rio, dentro de uma gruta de ouro. Ele persegue barqueiros, atrapalha embarcações e afugenta os peixes. Para acalmá-lo, pescadores deixariam um pedaço de fumo como oferta.
Em outras regiões, o personagem aparece menor, escuro, forte e com características de diferentes animais. Há quem diga que ele protege o rio; há quem o trate como uma ameaça a pescadores e animais. Essa variedade mostra que seu corpo muda junto com o lugar onde a narrativa circula.
No começo da década de 2010, relatos publicados pela imprensa de Barra Longa renovaram o interesse pela criatura. A cidade ganhou uma estátua de dois metros, moradores organizaram buscas e a história passou a circular em jornais e programas de televisão.
Pesquisadoras da Universidade Federal de Ouro Preto estudaram esse processo e mostraram que a mídia não apenas divulga uma lenda: ela também participa de sua transformação. O Caboclo d’Água contado na beira do rio não é exatamente o mesmo que aparece em uma reportagem. Um alimenta o outro, e a narrativa continua mudando.
Imagem: Luiz Claudio Rios Pecoraro / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Margens do rio São Francisco em Januária, Minas Gerais.
Matinta Pereira: o assobio que atravessa a noite amazônica
Imagem de contexto: o entardecer na floresta amazônica, quando o assobio atribuído à Matinta Pereira ganha força nas narrativas. Foto: flowcomm / Wikimedia Commons, CC BY 4.0.
Na Amazônia, especialmente no Pará, poucas coisas anunciam uma presença com tanta força quanto o assobio da Matinta Pereira.
Em muitas versões, ela é uma mulher que assume a forma de uma ave durante a noite. Seu assobio agudo ronda as casas e incomoda os moradores até que alguém prometa oferecer fumo, café ou outro agrado na manhã seguinte.
Quando o dia amanhece, uma mulher aparece para cobrar a promessa. Descobrir quem pediu o presente seria também descobrir quem carrega o encantamento.
Mas a Matinta não cabe em uma descrição única. Ela pode ser uma velha, uma feiticeira, um pássaro ou uma presença sem forma definida. Em certos relatos, a condição é transmitida pouco antes da morte, como se alguém precisasse aceitar o destino para que a antiga Matinta finalmente descansasse.
Uma pesquisa da Universidade Federal do Pará dedicada às variantes do mito em Curuçambaba, no município de Bujaru, reforça justamente essa diversidade. Em vez de uma narrativa fixa, há formas locais que se aproximam, se afastam e revelam como a comunidade reorganiza a história ao contá-la.
O medo provocado pelo assobio é importante, mas não explica tudo. A lenda também envolve palavra dada, troca e compromisso. Quem promete precisa cumprir.
Capelobo: um ser de muitas formas entre o Pará e o Maranhão
Imagem de referência: tamanduá-bandeira, animal cujo focinho ajuda a explicar algumas das formas atribuídas ao Capelobo. A fotografia não representa literalmente a criatura. Foto: Anagoria / Wikimedia Commons, CC BY 3.0.
O Capelobo — chamado também de Cupelobo em alguns registros — circula principalmente em narrativas do Pará e do Maranhão. É uma criatura de mata fechada, escutada antes de ser vista e descrita de maneiras tão diferentes que qualquer retrato definitivo seria enganoso.
Em certas versões, possui corpo grande e peludo, postura quase humana e um focinho comprido parecido com o de um tamanduá. Em outras, aproxima-se de uma anta, de um cão ou de um ser semelhante ao Mapinguari. Seus pés podem deixar marcas arredondadas no chão, e sua presença costuma ser anunciada por gritos, ruídos ou pelo desaparecimento de pequenos animais perto de acampamentos.
Há relatos em que o Capelobo é um animal fantástico e outros em que seria o destino de um ser humano transformado. A figura do tamanduá pode ter contribuído para sua aparência: quando se defende apoiado nas patas traseiras, o animal real ergue o corpo e abre os braços, formando uma silhueta impressionante. Isso é uma possibilidade de leitura, não uma explicação capaz de encerrar o mito.
Registros associados à obra de Câmara Cascudo situam a criatura no Maranhão e na região do Xingu. Como ocorre com outras lendas amazônicas, versões recentes acrescentaram detalhes violentos e uma anatomia cada vez mais precisa. Convém desconfiar dessa falsa exatidão. O Capelobo da oralidade é poderoso justamente porque quase nunca pode ser observado por inteiro.
Sua história transforma os sons e rastros da floresta em aviso. Entrar sozinho na mata, dormir longe do grupo ou ignorar sinais dos animais deixa de ser apenas imprudência e passa a significar aproximar-se de uma presença cujo nome já era suficiente para interromper a caminhada.
Rasga-Mortalha: quando o grito de uma coruja vira presságio
A suindara é uma ave real e recebe o nome popular de rasga-mortalha em diferentes regiões. Seu voo silencioso e seu chamado ajudaram a alimentar o presságio. Foto: Leosanchezbr / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
Em várias áreas do Norte e do Nordeste, ouvir a Rasga-Mortalha passar sobre uma casa seria anúncio de doença ou morte. O som agudo parece rasgar o silêncio da noite e ajudou a dar à ave um nome carregado de medo.
Ao contrário da maioria dos seres deste artigo, a Rasga-Mortalha existe fisicamente. É um nome popular da suindara, coruja da espécie Tyto furcata. Ela possui o rosto claro em forma de coração, hábitos noturnos e pode viver tanto em áreas rurais quanto em cidades, onde se abriga em torres, forros e construções abandonadas.
A lenda nasce do encontro entre uma ave silenciosa, um chamado incomum e a antiga associação da noite com o desconhecido. Para quem não vê a coruja, o grito parece vir de lugar nenhum. A imaginação completa o que os olhos não alcançam e converte o voo em mensagem.
Esse é também um caso em que a crença pode produzir dano real. A Universidade Federal Rural da Amazônia alerta que suindaras são atingidas por pedras e tiros porque algumas pessoas as consideram portadoras de mau agouro. Na prática, elas ajudam a controlar populações de roedores, insetos e outros pequenos animais.
Preservar a narrativa não exige perseguir a espécie. Pelo contrário: conhecer a origem do som permite admirar a ave e, ao mesmo tempo, compreender por que tantas gerações sentiram medo. A Rasga-Mortalha ensina que folclore e natureza não precisam ser inimigos. Uma boa história pode sobreviver sem transformar um animal em culpado.
Salamanca do Jarau: o encantamento guardado no pampa
Imagem de contexto: formação rochosa do Cerro do Jarau, em Quaraí, território inseparável da Salamanca do Jarau. Foto: Odacir Blanco / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
No Cerro do Jarau, em Quaraí, no Rio Grande do Sul, pedras, cavernas e campos abertos formam o cenário de uma das narrativas mais complexas do folclore gaúcho.
A Salamanca do Jarau reúne elementos indígenas, ibéricos e missioneiros. Uma figura central é a Teiniaguá, apresentada em muitas versões como uma princesa moura transformada em pequena lagartixa ou salamandra. Na cabeça, ela carregaria uma pedra preciosa de brilho intenso.
Um sacristão encontra a criatura, apaixona-se por ela e rompe suas obrigações religiosas. A relação termina em punição e encantamento. Os dois passam a permanecer ligados à caverna do Cerro do Jarau, onde riquezas, provas e perigos aguardam quem se aproxima.
A versão literária mais conhecida foi registrada por João Simões Lopes Neto em Lendas do Sul, publicado no início do século XX. Nela, o gaúcho Blau Nunes entra na Salamanca, enfrenta provas e recebe um objeto capaz de lhe trazer sorte. A verdadeira libertação, porém, não depende apenas de riqueza, mas das escolhas feitas diante dela.
Pesquisadores da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul compararam diferentes versões da lenda e observaram que elas mudam em pontos importantes, embora mantenham um fio comum. Isso ajuda a entender por que a Salamanca continua tão rica: ela é resultado de encontros culturais e de muitas camadas de recontagem.
Imagem sugerida: Cerro do Jarau / Wikimedia Commons. Usar uma fotografia cuja página individual confirme autor e licença antes da publicação.
Barba Ruiva: uma vida inteira em um único dia
Imagem de contexto: Lagoa de Parnaguá, no sul do Piauí, cenário central da lenda do Barba Ruiva. Foto reproduzida pela Revista Xapuri, a partir de registro identificado no arquivo como “Parnagua-Ibama”.
Na Lagoa de Parnaguá, no sul do Piauí, vive outra figura pouco conhecida fora da região: o Barba Ruiva.
Conta-se que um bebê foi abandonado nas águas e acolhido pela Iara. Depois disso, uma grande enchente teria formado ou ampliado a lagoa. O menino passou a viver encantado naquele lugar.
Sua característica mais curiosa é a mudança de idade. Pela manhã, ele aparece como criança. Ao meio-dia, torna-se um homem jovem com barba avermelhada. No fim da tarde, já é um velho de barba branca. Em poucas horas, atravessa simbolicamente uma vida inteira.
Ele pode aproximar-se de mulheres que trabalham ou caminham perto da água, assustando-as ou buscando alguém capaz de quebrar o encantamento. A forma de libertá-lo também varia, e algumas versões mencionam água benta.
A narrativa mistura elementos indígenas ligados às águas com imagens do cristianismo popular. Também transforma a lagoa em espaço de memória: quem conhece a lenda não enxerga apenas uma paisagem, mas um lugar habitado por acontecimentos antigos, perdas e presenças encantadas.
O que essas histórias têm em comum?
As dezesseis narrativas reunidas aqui parecem muito diferentes. Algumas apresentam encantados ligados às águas e às matas; outras falam de monstros, almas penadas, personagens históricos transformados pela memória ou animais reais cercados por presságios. Mesmo assim, suas histórias se encontram em alguns pontos.
O primeiro é a ligação com a paisagem. Não seria possível retirar a Alamoa de Fernando de Noronha, o Cabeça de Cuia dos rios de Teresina ou a Salamanca das pedras do Jarau sem perder parte importante de cada narrativa.
O segundo é a função de ensinar. As lendas falam sobre respeito à mata, prudência diante das águas, cumprimento da palavra, consequências da mentira e perigos de agir movido apenas pela ganância ou pela raiva.
O terceiro é a mudança. Nenhuma dessas histórias chegou até o presente exatamente como começou. Elas foram alteradas por famílias, comunidades, escritores, escolas, jornais, filmes, festas e redes sociais.
Essa transformação não é necessariamente um defeito. É um sinal de que a narrativa continua em uso. O problema aparece quando uma versão comercial apaga a comunidade de origem, trata crenças vivas como simples curiosidade ou apresenta como definitivo aquilo que sempre foi plural.
Por que algumas lendas ficam conhecidas e outras quase desaparecem?
Nem toda tradição possui livros, filmes, personagens licenciados ou espaço constante nas escolas. Muitas histórias dependem de poucas pessoas que ainda se lembram de contá-las.
Quando moradores deixam uma região, narradores envelhecem sem encontrar novos ouvintes ou uma paisagem é destruída, a lenda perde parte do ambiente que a sustenta. Registrar ajuda, mas um arquivo sozinho não mantém uma tradição viva.
É preciso criar oportunidades de escuta. Escolas podem entrevistar moradores. Famílias podem identificar quem aparece em fotografias antigas. Museus e universidades podem trabalhar com as comunidades, respeitando suas escolhas. Sites, podcasts e vídeos podem ampliar o alcance sem esconder a origem da história.
Em 2026, o Instituto Federal de Santa Catarina apresentou um acervo digital construído com estudantes para reunir lendas, contos e causos de municípios do litoral sul catarinense. O projeto combina pesquisa bibliográfica, trabalho de campo, depoimentos de moradores e produção audiovisual. É um bom exemplo de tecnologia usada não para substituir a tradição oral, mas para abrir novos caminhos para ela.
Folclore regional não é folclore menor
Chamar essas lendas de “pouco conhecidas” não significa dizer que elas tenham pouca importância. Muitas são centrais para as comunidades onde nasceram e continuam presentes em monumentos, nomes de estabelecimentos, festas, obras de arte, medos de infância e maneiras de reconhecer a paisagem.
Talvez o desconhecimento esteja do lado de fora. O Brasil costuma repetir um pequeno grupo de símbolos nacionais, enquanto centenas de narrativas permanecem ligadas a territórios específicos.
Observar essas histórias é descobrir que o folclore brasileiro não forma uma coleção organizada de personagens com biografias fixas. Ele se parece mais com um mapa cheio de caminhos que se cruzam. Em cada parada, alguém conta de outro jeito.
E é justamente aí que mora sua força.
Fontes para continuar observando
- Administração de Fernando de Noronha — Noronha: um paraíso cheio de lendas
- Governo do Piauí — documentários sobre lendas piauienses
- Lei Estadual nº 8.189/2023 — reconhecimento da lenda do Cabeça de Cuia
- Universidade Federal da Paraíba — Comadre Fulozinha e Pai do Mangue
- Intercom/Universidade Estadual de Goiás — Romãozinho em uma fotonovela contemporânea
- Universidade do Estado de Mato Grosso — Pai do Mato ou Pé de Garrafa entre os Balatiponé
- Universidade Federal de Ouro Preto — a trajetória da lenda do Caboclo d’Água
- Universidade Federal do Pará — variantes do mito da Matinta Pereira em Bujaru
- Geleia Total — as manifestações da lenda da Num-se-Pode em Teresina
- Universidade Federal de Campina Grande — O Quibungo e a representação do mal
- Revista Educação Pública — repertório de mitos e lendas, incluindo o Chibamba
- Cultura à Milanesa — Capelobo, com referência a Geografia dos Mitos Brasileiros
- Revista Brasileira de História das Religiões — assombrações e “não morte” nas narrativas do Corpo-Seco
- Universidade Federal Rural da Amazônia — a coruja suindara e a lenda da Rasga-Mortalha
- Monstro Labatut — síntese da tradição e referências bibliográficas
- Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul — diferentes versões da Salamanca do Jarau
- Instituto Federal de Santa Catarina — acervo de lendas, contos e causos do litoral sul


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