Um caminhão de brinquedo aparece entre flores vermelhas, amarelas e brancas. A fotografia foi feita no túmulo do Menino Zezinho, em 2017, pelo historiador Felipe Gonçalves de Souza. O pequeno objeto ajuda a entender uma devoção que mantém a lembrança de uma criança no Cemitério da Saudade, em Ribeirão Preto.
Na lista da prefeitura, outro nome também chama a atenção: Menina da Piedade. Os dois túmulos estão entre os mais visitados. Mas suas histórias chegaram até nós com quantidades muito diferentes de informação. Sobre Zezinho há datas, reportagens e pesquisas. Sobre Piedade, os registros consultados deixam mais perguntas em aberto.
Dois nomes no Cemitério da Saudade
A página oficial do cemitério informa onde procurar os dois lugares: Zezinho está na quadra 12, sepultura 1632; a Menina da Piedade, na quadra 15. Quadra é uma das áreas em que o terreno se divide, como os quarteirões de um bairro.
A lista confirma que são referências conhecidas pela administração. Ela não explica como as devoções começaram nem comprova acontecimentos sobrenaturais. Para entender essas histórias, é preciso juntar fontes de tipos diferentes.
Menino Zezinho
Quadra 12 · Sepultura 1632
Conhecido nas reportagens como José Martins de Almeida.
Menina da Piedade
Quadra 15
A Plataforma Verri identifica o nome como Piedade Gomes Baião. A página municipal não informa o número da sepultura.
Quem foi o Menino Zezinho?
José Martins de Almeida nasceu em Altinópolis, em 3 de abril de 1938, e morreu em Ribeirão Preto em 22 de novembro de 1947, aos nove anos. O nome completo aparece no Tribuna Ribeirão, em 2018; as datas também foram publicadas pela Revide, em 2017.
As histórias de sua fama começam antes do sepultamento. Segundo a tradição apresentada pela Revide, o menino teria visto Santo Antônio e passado a benzer pessoas. A reportagem atribui a parentes a lembrança de filas para receber suas bênçãos.
Benzer é fazer uma oração de proteção ou de cuidado, às vezes acompanhada de gestos. Nesse relato, a prática ajuda a explicar por que outras pessoas teriam procurado o menino ainda em vida.
Há um limite importante: conhecer uma lembrança familiar publicada décadas depois é diferente de ler uma notícia escrita na época. Algumas páginas mencionam jornais dos anos 1940, mas não identificam edição e página. Não foi possível recuperar, nesta pesquisa, os exemplares originais que confirmariam essas filas.
A doença de Zezinho: por que as versões diferem?
O sofrimento do menino ocupa um lugar central nas narrativas. O nome da doença, entretanto, muda conforme a fonte. A comparação abaixo evita transformar uma versão repetida em diagnóstico comprovado.
Tradição reproduzida na imprensa
A Revide (2017) apresenta a elefantíase como parte da lenda ou crença sobre Zezinho.
Relato sobre o registro de óbito
A mesma reportagem menciona nefrite crônica, uma inflamação dos rins, ao se referir ao registro de óbito.
Pesquisa citada no plano municipal
O Plano Diretor de Desenvolvimento Turístico, na página 291, reproduz a pesquisa de Émerson Leandro Silvério Ferreira da Silva (2016): disenteria bacilar, uma infecção intestinal causada por bactérias, como causa da morte, com nefrite crônica já existente.
O plano municipal oferece, portanto, uma informação mais específica que a notícia. Ainda assim, ele é uma referência ao registro civil, não a reprodução da certidão. A imagem original do documento não foi localizada. Sem ela, o correto é dizer o que cada fonte informa, sem escolher uma causa definitiva por conta própria.
Essa diferença também muda a leitura da história: a doença lembrada pelos devotos pode ter adquirido um significado religioso que não corresponde, palavra por palavra, à descrição médica de um documento.
Quem foi a Menina da Piedade?
A Plataforma Verri, acervo de história local, identifica a Menina da Piedade como Piedade Gomes Baião. Já o projeto Arte Funerária Brasil, coordenado pela pesquisadora Maria Elizia Borges, inclui seu túmulo entre os lugares de romaria do cemitério. Romaria é uma visita motivada pela devoção.
O livro Paisagem Cultural do Café — Ribeirão Preto, edição revista de 2023, também menciona os túmulos de Zezinho e de Piedade entre os locais procurados por devotos. Isso dá sustentação à existência dessa referência religiosa.
Mas essas fontes não oferecem uma biografia detalhada de Piedade. Não foi possível confirmar sua idade, as datas de nascimento e morte, a causa do falecimento ou o primeiro relato de graça atribuído a ela.
Também não há base para transferir para Piedade a história de Zezinho: a visão de Santo Antônio, as bênçãos e a doença mencionadas nas reportagens dizem respeito ao menino. Duas devoções no mesmo cemitério não são duas versões da mesma vida.
Como uma sepultura passa a ser procurada por devotos?
O túmulo guarda uma pessoa falecida. Para quem acredita em sua ajuda espiritual, ele também oferece um lugar concreto para fazer um pedido, voltar e agradecer. Nesse uso, o vínculo já não depende apenas de conhecer a família.
Em estudo publicado em 2021, Taís Cristina Melero examinou fotografias de túmulos de devoção em Bauru e Jaú. Ela trata a pessoa lembrada e a sepultura como partes de uma mesma relação religiosa, mantida pelas práticas dos visitantes. Seu estudo ajuda a compreender o fenômeno; as histórias dessas cidades não são usadas como biografias dos dois túmulos de Ribeirão Preto.
Podemos reconhecer três movimentos nessa relação: alguém pede ajuda; interpreta um acontecimento como graça recebida; e registra seu agradecimento. Quando outras pessoas conhecem esse testemunho, a devoção pode circular. Essa é uma explicação cultural possível, não a reconstrução comprovada do primeiro dia em que alguém procurou Zezinho ou Piedade.
O que significa chamar alguém de “milagreiro”?
É a pessoa a quem devotos atribuem milagres ou graças. Santo popular é outra expressão usada nesse contexto. Já canonização é o reconhecimento formal de uma pessoa como santa pela Igreja Católica. Chamar alguém de santo no cotidiano não equivale a esse reconhecimento.
O interesse de uma pesquisa cultural está em compreender o que as pessoas fazem, contam e conservam. Um agradecimento documenta uma experiência de fé. Ele não permite, sozinho, demonstrar a causa sobrenatural de uma cura ou de outro acontecimento.
O que flores, brinquedos e placas nos contam?
Na fotografia de Zezinho, o brinquedo está junto dos retratos e das flores. Esse encontro entre cuidado, infância e memória é observável. Para conhecer a intenção de cada presente, porém, seria preciso ouvir quem o levou.
A palavra ex-voto designa um testemunho oferecido em agradecimento por uma graça. Pode ser uma placa, um objeto ou uma pintura. O Museu do Diamante conserva e descreve um exemplo mineiro de 1781. A peça mostra que esses testemunhos têm uma história antiga no Brasil; não estabelece uma origem direta para a devoção ribeirãopretana.
Uma placa pode guardar o nome de uma pessoa, uma data e a lembrança do que ela acredita ter recebido. Se preservada com seu contexto, torna-se uma fonte para estudar quem visitava o lugar e como expressava gratidão. Uma lista de nomes ou uma contagem de objetos, por outro lado, não conta toda a experiência.
A reportagem da Revide de 2017 falou em quase 300 placas no túmulo de Zezinho. Esse número descreve o que foi publicado naquele ano. Não há aqui uma contagem atual, e o total antigo não deve ser apresentado como levantamento de 2026.
Em 1999, Maria Aparecida Junqueira Veiga Gaeta publicou um estudo com duas fotografias ligadas a Zezinho: o túmulo e uma devota rezando o terço. As figuras estão nas páginas 64 e 65 da revista, páginas 8 e 9 do arquivo digital.
Consultar as fotografias no artigo original de Gaeta.
O registro comprova que a devoção era pesquisada naquela época. Não informa o dia em que começou nem deve ser usado para descrever a aparência atual do túmulo.
Por que a lembrança de uma criança pode mobilizar tanta gente?
Gaeta relaciona a devoção a crianças e jovens à compaixão despertada por vidas interrompidas e pelo sofrimento. Sua interpretação ajuda a entender a força da figura do “menino” ou da “menina” na memória religiosa.
Isso não significa que toda morte na infância produza uma devoção, ou que toda pessoa visite o lugar pelo mesmo motivo. Para compreender um caso específico, importam os relatos que circularam, quem os transmitiu e os gestos que permaneceram.
É possível sentir respeito por essa memória sem compartilhar a crença em milagres. O cuidado começa por reconhecer que há pessoas reais, famílias e experiências de perda por trás dos nomes.
Um cemitério público também guarda práticas religiosas
O Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto informa que o Cemitério da Saudade foi criado em 1893, fora do antigo patrimônio de São Sebastião. Seu funcionamento foi regulamentado naquele ano. Isso ocorreu num período de passagem da administração dos cemitérios para o poder público.
Administrar um espaço público não elimina as crenças de quem o usa. A sepultura, o terço, a flor e a placa podem conviver com regras de conservação, circulação e atendimento às famílias.
O monumento de uma família e uma pequena placa de agradecimento são registros diferentes. Olhar somente para a construção mais imponente pode deixar de lado as pessoas que mantêm suas lembranças com palavras, visitas e objetos simples.
Essa é uma leitura editorial do Sacip: preservar a memória do cemitério envolve ouvir visitantes, trabalhadores e famílias, além de estudar as obras de pedra. Reconhecer o valor cultural de uma prática, entretanto, não significa afirmar que ela recebeu um registro ou tombamento oficial.
Para conhecer essa diferença, veja como se decide o que preservar como patrimônio cultural. Outra reportagem do Sacip examina os espelhos cobertos durante o luto, um exemplo de como objetos e gestos podem receber sentidos distintos depois de uma morte.
O que podemos colocar numa linha do tempo?
- 1893Criação e regulamentação do Cemitério da Saudade, segundo o arquivo municipal.
- 1938–1947Datas da vida de Zezinho divulgadas pela imprensa. Elas não datam o início da devoção a Piedade.
- 1999Publicação da pesquisa de Gaeta com fotografias ligadas à devoção a Zezinho.
- 2023 em dianteO projeto “Um Ribeirão de Saudade” organiza visitas culturais. O Tribuna documentou essa iniciativa em 2025.
Essa cronologia reúne marcos identificados. Não preenche os intervalos com acontecimentos presumidos: falta, por exemplo, uma data segura para o começo de cada devoção.
Onde ficam os túmulos e como conhecer o lugar?
O cemitério fica na Avenida da Saudade, 1775, Campos Elíseos, Ribeirão Preto. Na consulta feita em 12 de outubro de 2026, a página da prefeitura informava visitação das 7h às 18h pelo portão dessa avenida. Horários podem mudar; a administração atende pelo telefone (16) 3626-4781.
Para pessoas com mobilidade reduzida, convém consultar a administração sobre o caminho até as quadras, o piso e eventuais obstáculos. As fontes consultadas não permitem garantir que todo o percurso seja acessível.
A reportagem do Tribuna de abril de 2025 registra visitas do projeto “Um Ribeirão de Saudade”, criado pelo historiador Felipe Gonçalves de Souza e pela produtora cultural Juliana Bezerra Petrucelli. A agenda deve ser conferida nos canais do grupo Cidade dos Mortos.
Uma visita pode ser feita por interesse na história, na arte ou na religião. Respeitar quem está rezando, pedir consentimento antes de fotografar pessoas e seguir as orientações do cemitério faz parte dessa convivência.
A Vivacidade oferece, em seu acervo digital, o episódio Cemitério da Saudade da série E Se Esse Patrimônio Fosse Meu. O registro ajuda a conhecer o espaço e o debate sobre sua preservação. Use o item “Cemitério da Saudade” na página do acervo para assistir no player original.
O que permanece depois da visita?
A fotografia de 2017 registra um brinquedo entre flores. A página municipal guarda dois nomes. Uma pesquisa antiga conserva a imagem de alguém rezando. Cada fonte mostra uma parte da história e deixa outras fora do enquadramento.
Zezinho e a Menina da Piedade se tornaram referências porque outras pessoas continuaram a procurá-los, a falar deles e a dar sentido religioso às suas sepulturas. Entender esse processo exige levar a fé dos devotos a sério e manter o cuidado com os fatos. Quando falta um documento, a pergunta continua aberta.
Fontes e limites desta pesquisa
- Prefeitura de Ribeirão Preto: Cemitério da Saudade. Localização, quadras e informações de visitação, consultadas em 12/10/2026.
- Arquivo Público e Histórico: histórico do cemitério. Síntese baseada no trabalho de Tânia Cristina Registro (1994).
- GAETA, Maria Aparecida Junqueira Veiga. “Santos” que não são santos. Mimesis, v. 20, n. 1, p. 57–76, 1999. Fotografias e interpretação das devoções populares.
- MELERO, Taís Cristina. Morte, cemitérios e devoção. Revista de História da UEG, v. 10, n. 2, 2021. Comparação com Bauru e Jaú, sem transferir suas biografias para Ribeirão Preto.
- SOUZA, Felipe Gonçalves de. TCC sobre o Cemitério da Saudade. Centro Universitário Barão de Mauá, 2018. Fotografias autorais de 2017 nas páginas 54 e 56; autorização para estudo e pesquisa no início do arquivo.
- Plano Diretor de Desenvolvimento Turístico de Ribeirão Preto. Página 291: referência ao trabalho de Silva (2016) e ao registro civil de Zezinho. A pesquisa de Silva foi conhecida por essa citação e pelo TCC de Souza; sua versão integral e a certidão original não foram consultadas.
- Plataforma Verri; Arte Funerária Brasil; Paisagem Cultural do Café (2023). Nome de Piedade e presença dos túmulos no repertório religioso e cultural local.
- REVIDE. Reportagem de Pedro Gomes, 2/11/2017; TRIBUNA RIBEIRÃO, 2/4/2018. Dados biográficos e relatos sobre Zezinho.
- Museu do Diamante: ex-voto de 1781. Referência para explicar o termo; não é uma peça de Ribeirão Preto.
- Ministério da Saúde: guia de doenças infecciosas. Referência para explicar disenteria bacilar, sem estabelecer diagnóstico retrospectivo de Zezinho.
- TRIBUNA RIBEIRÃO. Reportagem de Fabiano Ribeiro, 6/4/2025; Vivacidade: acervo digital. Visitação cultural e registro audiovisual.
Esta pesquisa consultou acervos e publicações disponíveis na internet. Não realizou entrevistas próprias ou visita de campo. As buscas por jornais antigos não recuperaram os exemplares originais mencionados em relatos posteriores. As fotografias reproduzidas são de 2017; o mapa é um desenho editorial baseado em informações oficiais. Nenhuma imagem foi gerada por inteligência artificial.



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