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Cultura

As brincadeiras infantis brasileiras que praticamente desapareceram

Do pião à barra-manteiga: aprenda as regras de 20 brincadeiras antigas, descubra seus nomes regionais e veja como mantê-las vivas.

Por · Publicado em · 19 min de leitura
Menino soltando uma pipa sob o céu azul em Contagem, Minas Gerais
MEMÓRIA DO BRINCAR · GUIA PRÁTICO

Era preciso muito pouco: um pedaço de giz, cinco pedrinhas, uma corda, duas latas ou um pedaço de madeira. O resto vinha da imaginação — e de alguém que soubesse ensinar as regras. Durante gerações, crianças brasileiras aprenderam a brincar umas com as outras, na calçada, no quintal, no recreio e nas praças. Hoje, muitas dessas cenas ficaram raras.

Mas é importante começar sem exagero: as brincadeiras desta reportagem não desapareceram por completo. Algumas ainda vivem com força em escolas, aldeias, bairros, cidades pequenas, festas e projetos culturais. O que enfraqueceu, sobretudo em muitos centros urbanos, foi a transmissão espontânea: aquela corrente em que uma criança mais velha ensinava outra, que depois inventava uma regra e passava o jogo adiante.

Este guia reúne 20 brincadeiras antigas da infância brasileira, explica como jogar, registra nomes regionais e mostra por que vale a pena recuperá-las. Nem todas nasceram no Brasil. Elas se tornaram brasileiras pelo uso: atravessaram povos, línguas e épocas, ganharam outros nomes e foram recriadas em cada lugar.

Foto de destaque: criança soltando pipa em Contagem, Minas Gerais, em 2013. Foto de upslon / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.

0tomadas necessárias
1regra que pode mudar
20brincadeiras neste guia
∞nomes pelo Brasil

Por que as brincadeiras de rua ficaram mais raras?

Não existe um único culpado. Em muitos bairros, o aumento do trânsito, a redução de espaços livres, a preocupação das famílias com segurança e a vida em moradias sem quintal diminuíram a autonomia infantil. Rotinas mais preenchidas e o enfraquecimento da convivência entre crianças de idades diferentes também interrompem a passagem das regras.

As telas fazem parte dessa mudança, mas não explicam tudo sozinhas. O IBGE Educa informa que, em 2021, 82 de cada 100 crianças de 10 a 13 anos usavam internet. Isso mostra como a vida infantil se tornou conectada; não prova que celular e brincadeira tradicional sejam inimigos. O ponto decisivo é haver tempo, espaço, segurança e outras crianças por perto.

Pesquisas sobre brincadeiras de rua e convivência urbana ajudam a enxergar a rua não apenas como cenário, mas como lugar de encontro e aprendizado coletivo. Quando brincar some do espaço comum, perde-se também uma pequena escola de negociação: decidir regras, resolver conflitos, esperar a vez e acolher quem chegou depois.

Na palma da mão

Pedrinhas, barbante, madeira e vidro cabiam no bolso. O brinquedo era simples; a habilidade levava tempo.

01

Cinco Marias

Cinco pedrinhas · bugalha · jogo das pedrinhas

Como se brinca: coloque cinco pedrinhas ou saquinhos no chão. Jogue uma peça para o alto, pegue outra antes que a primeira caia e capture a que foi lançada. Depois vêm fases com duas, três ou quatro peças de uma vez. A ordem muda conforme a região.

O encanto: parece fácil até a mão precisar calcular altura, tempo e distância ao mesmo tempo. A Cartilha Resgate do Brincar inclui uma sequência prática para reaprender.

Para passar adiante: use saquinhos de tecido com arroz; pedrinhas e peças pequenas não devem ficar com crianças que ainda colocam objetos na boca.

02

Pião de corda

Pião · pinhão, em algumas falas locais

Como se brinca: enrole o cordão do bico para o corpo, segure a ponta e arremesse o pião enquanto puxa a linha. O primeiro desafio é fazê-lo “dormir”, girando firme no mesmo lugar. Em versões de roda, os jogadores tentam manter o pião dentro de um círculo.

O encanto: cada lançamento revela força, ângulo e coordenação. Também existe a arte de recolher o pião ainda rodando na palma da mão.

Para passar adiante: comece com um pião leve, deixe distância entre os participantes e escolha piso plano, sem pessoas atravessando.

03

Bolinha de gude

Bila · fubeca · buque · bolita

Como se brinca: desenhe um triângulo ou círculo e coloque algumas bolinhas dentro. Da linha de partida, cada pessoa impulsiona a sua com o polegar para acertar as demais. Há dezenas de versões: buraco, triângulo, mata-mata e circuitos feitos na terra.

O encanto: o jogo mistura mira, estratégia e leitura do terreno. O Mapa do Brincar registra como um mesmo objeto recebe nomes diferentes pelo país.

Para passar adiante: combine antes se as bolinhas serão devolvidas. Elas oferecem risco de engasgo e não são indicadas para crianças pequenas.

04

Passa-anel

Segredo que atravessa as mãos

Como se brinca: os participantes ficam lado a lado com as mãos unidas. Quem conduz passa as próprias mãos por dentro das demais e deixa, discretamente, um anel ou objeto pequeno com alguém. No final, uma pessoa tenta descobrir onde ele ficou.

O encanto: todos observam expressões, falsos movimentos e risadas contidas. Não exige velocidade nem grande espaço, por isso funciona bem entre gerações.

Para passar adiante: use uma argola grande ou tampinha limpa quando houver crianças menores; o segredo importa mais que o tamanho do objeto.

05

Telefone sem fio

Mensagem cochichada em roda ou fila

Como se brinca: a primeira pessoa sussurra uma frase no ouvido da seguinte. A mensagem percorre o grupo sem ser repetida. A última fala em voz alta o que entendeu, e então se compara com a frase inicial.

O encanto: a transformação costuma ser engraçada e mostra, sem aula formal, como ruídos e interpretações mudam uma história.

Para passar adiante: use frases curtas com imagens inesperadas. Ninguém precisa ser ridicularizado por ouvir de modo diferente.

Amarelinha pintada no pátio de uma instituição de ensino em Belo Horizonte
Um desenho no chão já abre um mundo. Amarelinha no CEFET-MG, em Belo Horizonte. Foto de Andrevruas / Wikimedia Commons, CC BY 3.0.

Roda, ritmo e segredo

Aqui, a brincadeira existe porque o grupo sustenta o ritmo, guarda um segredo ou aceita a mesma regra.

06

Escravos de Jó

Jogo cantado de passar objetos

Como se brinca: em roda, cada pessoa move uma pedrinha ou outro objeto para o participante ao lado, seguindo a pulsação da cantiga. Em momentos combinados, o movimento para, volta ou faz um gesto diferente. Se alguém perde o tempo, o grupo recomeça ou adota a regra local.

O que merece contexto: existem muitas versões da letra e não há uma explicação única e comprovada para todas as suas palavras. O título remete à escravidão e pode abrir uma conversa responsável sobre a história brasileira, sem inventar uma origem simples.

Para passar adiante: ensine primeiro só o movimento; acrescente as mudanças depois que a roda encontrar o ritmo.

07

Barra-manteiga

Duas fileiras e uma corrida repentina

Como se brinca: dois times ficam frente a frente, com as mãos estendidas. Uma criança percorre a fileira adversária, toca levemente cada mão e escolhe uma para bater com mais decisão. Então corre para sua base enquanto a escolhida tenta alcançá-la.

O encanto: a tensão cresce devagar e explode em perseguição. Uma versão registrada em Alto Paraíso (GO) está no Mapa do Brincar.

Para passar adiante: marque bases próximas, proíba empurrões e jogue em piso regular.

08

Mamãe da rua

Atravessar sem ser pego

Como se brinca: risque duas linhas paralelas. Os participantes ficam nas laterais; uma pessoa permanece no meio. Ao sinal, todos tentam atravessar. Quem for tocado pode virar pegador na rodada seguinte ou ajudar no centro, conforme o combinado.

O encanto: não basta correr: é preciso escolher a hora, observar o centro e fingir que vai por um lado. O nome e as regras variam bastante.

Para passar adiante: a “rua” deve ser apenas uma área demarcada em praça, quadra ou pátio fechado — nunca uma via com veículos.

09

Taco ou bete

Bets · tacobol · jogo de taco

Como se brinca: duas duplas, dois tacos, duas bases e uma bola. A dupla que rebate protege as bases; a outra tenta derrubá-las com a bola. Depois de uma rebatida, os jogadores podem trocar de lado para marcar pontos. Uma bola pega no ar ou uma base atingida costuma trocar as funções.

O encanto: pedaços de madeira viravam equipamento, e cada terreno criava sua própria distância. Veja uma regra documentada no Mapa do Brincar.

Para passar adiante: prefira bola macia, tacos leves e área fechada, longe de janelas, ruas e pessoas fora do jogo.

10

Bentes altas

Uma raridade registrada em Belo Horizonte

Como se brinca: em uma versão mineira, duas pequenas “casas” de madeira são defendidas com palhetas de papelão. A dupla adversária lança a bola para derrubá-las; quem defende rebate e aproveita para dar voltas ao redor das casas, marcando pontos.

Por que está nesta lista: é um exemplo de brincadeira regional que pode desaparecer silenciosamente: basta a última turma deixar de ensinar. O registro de regras e imagens está no Mapa do Brincar.

Para passar adiante: reconstrua primeiro a versão documentada e convide moradores a contar se conhecem outro nome ou regra.

UMA REGRA ORAL
Uma brincadeira tradicional não é uma receita congelada. Ela continua viva justamente porque cada grupo aprende, adapta e ensina de novo.

Corpo em movimento

Correr, saltar, equilibrar-se e entrar no tempo certo: o corpo aprende enquanto a brincadeira acontece.

11

Cabra-cega

Reconhecer o mundo sem enxergar

Como se brinca: uma pessoa vendada gira algumas vezes e tenta alcançar as demais pelo som. Dependendo da versão, precisa também adivinhar quem tocou ou quem foi capturado.

O encanto: passos conhecidos parecem novos quando a visão sai de cena. Os outros participantes aprendem a controlar o riso e a distância.

Para passar adiante: retire móveis e obstáculos, delimite uma área pequena, use venda confortável e mantenha um adulto ou mediador atento.

12

Corre-cotia

Roda, objeto escondido e perseguição

Como se brinca: o grupo senta em círculo. Uma pessoa caminha por fora com um objeto leve e o deixa discretamente atrás de alguém. Ao perceber, a pessoa escolhida se levanta e corre para alcançá-la antes que ela ocupe o lugar vazio.

O encanto: quem está sentado precisa ouvir, desconfiar e olhar para trás na hora certa. A cantiga ajuda a sustentar a expectativa, mas as letras variam.

Para passar adiante: use um lenço ou saquinho macio e faça a roda em piso sem buracos.

13

Pular elástico

Sequências nos tornozelos, joelhos e cintura

Como se brinca: duas pessoas sustentam um elástico comprido ao redor das pernas enquanto uma terceira executa uma sequência: pisa dentro, fora, cruza, prende e salta. Quando completa, o elástico sobe do tornozelo para a canela, o joelho e outros níveis.

O encanto: as séries ganham nomes e coreografias locais. É memória corporal: muitas pessoas lembram os passos mesmo décadas depois.

Para passar adiante: comece baixo, com sequência curta, e use elástico largo em bom estado para evitar machucados.

14

Amarelinha

Macaca · academia · avião · maré

Como se brinca: desenhe casas numeradas. Jogue uma pedrinha na primeira, pule sem pisar nela nem nas linhas, chegue ao final e volte para recolher o marcador. A cada rodada, mire a casa seguinte.

O encanto: o percurso é ao mesmo tempo mapa e desafio de equilíbrio. Há desenhos retangulares, circulares e em caracol, além de nomes regionais.

Para passar adiante: giz lavável e fita crepe criam pistas temporárias; ajuste o tamanho das casas à idade e à mobilidade do grupo.

15

Pular corda

Sozinho, em dupla ou com uma roda inteira

Como se brinca: uma criança pode girar a própria corda, ou duas pessoas seguram as pontas enquanto outra entra no movimento. O desafio cresce com contagens, trocas, pulos em dupla e mudanças de velocidade.

O encanto: aprender a entrar sem interromper a corda é quase ouvir uma música com o corpo. Cantigas ajudam a marcar o tempo e variam de geração para geração.

Para passar adiante: use corda de comprimento adequado, piso não escorregadio e espaço livre ao redor.

16

Queimada

Baleado · carimbada · chumbado · cemitério

Como se brinca: dois times ocupam campos opostos e lançam a bola para atingir jogadores adversários. Quem é acertado vai para uma área de fundo, sai por uma rodada ou muda de função — depende da regra local.

Ainda existe: a queimada sobrevive em muitas escolas, mas suas versões de rua e nomes regionais ficam menos visíveis. Esse contraste mostra que tradição não some de uma vez: ela muda de lugar.

Para passar adiante: use bola macia, proíba arremessos no rosto e crie alternativas para ninguém ficar muito tempo excluído.

Pintura de Belmiro de Almeida mostrando dois meninos jogando bilboquê
O brinquedo também ficou registrado na arte. Dois Meninos Jogando Bilboquê, de Belmiro de Almeida (1858–1935), obra do MASP. Reprodução via Wikimedia Commons, domínio público.

Brinquedos feitos ou levados pelo vento

Nessas brincadeiras, construir faz parte do jogo. A matéria-prima pode ser madeira, papel, barbante, pena ou embalagem reaproveitada.

17

Bilboquê

Copo, haste, barbante e muita tentativa

Como se brinca: uma bola presa por cordão deve ser lançada e encaixada no copo ou pino do brinquedo. O movimento exige impulso controlado e acompanhamento com a mão — força demais atrapalha.

O encanto: é um desafio individual que imediatamente vira competição consigo mesmo. Versões educativas podem ser feitas com garrafa plástica, barbante e uma peça grande e macia.

Para passar adiante: um adulto deve cortar e proteger bordas; o cordão precisa ser curto, e peças pequenas não servem para crianças menores.

18

Carrinho de rolimã

Tábua, eixos e rolamentos

Como se brinca: uma base de madeira recebe eixos e rolamentos; o eixo dianteiro gira com os pés ou uma corda para conduzir. A gravidade movimenta o carrinho, por isso antigas corridas costumavam buscar descidas.

Por que rareou: trânsito, asfalto irregular e risco de colisão tornam a prática incompatível com muitas ruas atuais. Recuperá-la exige transformar completamente o ambiente.

Segurança indispensável: somente em pista fechada e vistoriada, com adulto responsável, capacete, luvas, joelheiras, cotoveleiras e calçado fechado. Nunca em rua aberta ou ladeira sem controle.

19

Peteca

Brinquedo, roda e também esporte

Como se brinca: bata na base com a palma para manter a peteca no ar. Pode ser em roda, contando toques, em duplas ou sobre uma rede. O objetivo inicial é simples: fazer o voo continuar.

O encanto: a peteca responde à força, ao vento e ao ângulo da mão. No Brasil, está ligada a longa história cultural e também ganhou regras esportivas; no quintal, porém, continua aberta à invenção.

Para passar adiante: escolha modelo leve, área aberta e distância de objetos frágeis. Uma roda cooperativa é mais acolhedora que a eliminação.

20

Pipa

Papagaio · pandorga · arraia · cafifa

Como se brinca: uma armação leve coberta por papel é equilibrada com rabiola e controlada por linha. O vento faz o resto, mas construir e regular a pipa é parte essencial da brincadeira.

Ainda resiste: a pipa continua muito presente em diversas regiões. Entrou nesta seleção porque o conhecimento artesanal e os espaços seguros para soltá-la não estão garantidos.

Segurança indispensável: nunca use cerol ou linha chilena. Brinque em campo aberto, longe de fiação, ruas, telhados e áreas de pouso; não tente recuperar pipa presa em rede elétrica.

Crianças em uma oficina construindo bilboquês coloridos com materiais reaproveitados
Oficina de bilboquê realizada em 2019. Foto de Edicaobrincadeiras / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
Peteca artesanal colorida fotografada no Brasil
Peteca artesanal fotografada no Brasil em 2026. Foto de Sintegrity / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

O Brasil muda o nome — e às vezes muda o jogo

Uma lista nacional nunca encerra o assunto. A mesma bolinha pode ser bila, fubeca ou buque; a queimada pode virar baleado, carimbada ou chumbado; a pipa pode ser papagaio, pandorga, arraia ou cafifa. Em alguns casos, muda apenas o nome. Em outros, mudam o campo, a pontuação e até o objetivo.

Exemplos de variações encontradas no Brasil. Os usos não obedecem fronteiras rígidas e podem se sobrepor.
Nome mais conhecidoOutros nomes registradosO que costuma variar
Bolinha de gudeBila, fubeca, buque, bolitaFormato do campo e destino das bolinhas
QueimadaBaleado, carimbada, chumbado, cemitérioRetorno de quem foi atingido e área de fundo
TacoBete, bets, tacobolBase, pontuação e troca de rebatedores
AmarelinhaMacaca, academia, avião, maréDesenho, numeração e percurso
PipaPapagaio, pandorga, arraia, cafifaForma, armação, rabiola e vocabulário

O Mapa do Brincar organizou contribuições de crianças de várias regiões e permite explorar essas diferenças. A lição mais bonita do acervo é que não existe uma infância brasileira única: existem muitas infâncias, capazes de reconhecer um jogo familiar por outro nome.

O que se aprende quando ninguém está “dando aula”?

01Combinar

As crianças negociam limites, ordem e pontuação.

02Esperar

A vez do outro faz parte do próprio jogo.

03Adaptar

Espaço, idade e materiais mudam a regra.

04Persistir

Errar e tentar outra vez acontece diante do grupo.

05Imaginar

Giz vira caminho; lata vira base; pedra vira Maria.

06Pertencer

Quem aprende pode ensinar a próxima pessoa.

A cartilha pública Resgate do Brincar relaciona a brincadeira ao desenvolvimento motor, cognitivo, social e da linguagem. Isso não significa transformar cada momento livre em exercício com meta. A potência está justamente em brincar por brincar — com espaço para criar e mudar o rumo.

Como recuperar essas brincadeiras sem transformar tudo em aula

  1. 1
    Comece por uma memória

    Pergunte a avós, vizinhos, funcionários da escola e moradores antigos: “Como vocês chamavam esta brincadeira?” O nome abre a conversa.

  2. 2
    Escolha só uma por encontro

    Explique a regra em menos de dois minutos e deixe o grupo aprender fazendo. Uma tarde não precisa “dar conta” da cultura brasileira.

  3. 3
    Adapte sem pedir desculpa

    Diminua distâncias, mude a bola, permita apoio, retire eliminação e inclua diferentes mobilidades. Uma tradição viva suporta mudanças cuidadosas.

  4. 4
    Registre a versão local

    Anote nome, regras, cantiga, lugar e quem ensinou. Áudio e vídeo só devem ser feitos com autorização das pessoas responsáveis.

  5. 5
    Devolva o comando às crianças

    Depois de aprender, elas podem criar outra fase, desenhar o campo ou ensinar uma turma. Preservar não é apenas demonstrar; é transmitir.

ROTEIRO PRONTO

Uma tarde de brincadeiras com quase nenhum gasto

10 minPassa-anelPara reunir e aprender nomes.

15 minCinco MariasEm duplas, com saquinhos de tecido.

20 minAmarelinhaCada grupo desenha um percurso.

20 minBarra-manteigaCom bases próximas e piso seguro.

15 minRoda de memóriaQual regra mudou? Quem vai ensinar depois?

Cuidados que não podem ficar por conta da nostalgia

Dizer “na minha época ninguém ligava” não torna uma prática segura. Resgatar brincadeiras também é corrigir riscos que hoje conhecemos melhor.

  • Pipa: nunca use cerol ou linha chilena; fique longe de fiação, trânsito, lajes e aeroportos.
  • Carrinho de rolimã: somente em área fechada e controlada, com equipamentos de proteção e supervisão adulta.
  • Cabra-cega: retire obstáculos e mantenha o campo pequeno.
  • Taco e queimada: use bola macia, distância segura e nenhuma mira na cabeça.
  • Peças pequenas: bolinhas de gude, pedrinhas e argolas podem causar engasgo.
  • Calor e piso: verifique sol forte, hidratação, buracos, quinas e superfície escorregadia.

Uma brincadeira só desaparece quando ninguém mais a ensina

O desaparecimento raramente acontece com anúncio. Primeiro, uma regra deixa de ser lembrada. Depois, o nome perde o sentido. Por fim, o objeto ainda existe — a bolinha, o pião, o pedaço de giz — mas já não chama ninguém para brincar.

Também é possível fazer o caminho contrário. Basta uma pessoa demonstrar como se enrola a corda no pião, como se guarda o anel entre as mãos ou como se entra no ritmo da corda. Nesse instante, a brincadeira volta a ser presente. Não como cópia perfeita do passado, mas como aquilo que sempre foi: uma invenção coletiva que sobrevive porque passa de mão em mão.


Fontes e caminhos para continuar brincando

Nota editorial: regras de brincadeiras tradicionais variam. Esta reportagem comparou fontes públicas e registros de memória, escolheu versões simples para ensinar e identificou quando uma descrição corresponde a um registro regional. Se a sua cidade brinca de outro jeito, essa diferença é parte da história.

RESPOSTAS DIRETAS

Perguntas frequentes sobre brincadeiras antigas

Essas brincadeiras são todas brasileiras?

Não necessariamente. Muitas têm parentes em outros países e chegaram ao Brasil por diferentes caminhos. Elas fazem parte da cultura brasileira porque foram praticadas, transmitidas e recriadas aqui, com nomes e regras locais.

Quais brincadeiras antigas quase desapareceram?

Não existe um ranking nacional confiável. Cinco Marias, barra-manteiga, bentes altas, pião de corda, bilboquê e certas versões de taco e bolinha de gude ficaram muito raras em várias cidades, mas continuam vivas em outros territórios.

Por que as brincadeiras de rua diminuíram?

Os motivos se somam: trânsito, falta de espaços seguros, medo da violência, moradias sem quintal, rotinas mais cheias, menos convivência entre idades e mais opções digitais dentro de casa. A realidade muda de bairro para bairro.

Qual brincadeira dá para fazer sem comprar nada?

Telefone sem fio, Mamãe da rua, cabra-cega e corre-cotia exigem apenas grupo e espaço adequado. Amarelinha precisa de giz; Cinco Marias pode usar saquinhos caseiros; passa-anel aceita uma argola grande ou tampinha.

Como ensinar uma brincadeira antiga às crianças?

Demonstre uma rodada curta, deixe o grupo experimentar e ajuste a regra com ele. Contar quem ensinou e como a brincadeira era chamada no lugar preserva tanto a memória quanto o movimento.

É possível incluir crianças com diferentes mobilidades?

Sim. Reduza distâncias, jogue sentado, use alvos sobre a mesa, troque corrida por passagem de objetos, crie duplas de apoio e valorize tarefas diferentes. A regra deve servir às pessoas, não o contrário.

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SOBRE O AUTOR

Felipe

Felipe Rodrigues Adão é escritor amador, observador de Saci e um dos idealizadores do Sacip — Sociedade dos Observadores de Saci de Pontal. Migrante do Vale do Jequitinhonha, hoje mora em Pontal, no interior de São Paulo, e é apaixonado pela cultura popular brasileira e pelas histórias, tradições e saberes transmitidos entre gerações. No projeto, contribui para a valorização do folclore, da memória local e da identidade cultural brasileira, ajudando a construir um espaço dedicado à preservação de lendas, causos, personagens e manifestações populares.

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